sábado, julho 17, 2010

Ervas daninhas

São cada vez menos pessoas com valor disponíveis para desempenhar cargos públicos ou envolverem-se em política, isso implica sacrifícios pessoais e em vez do reconhecimento público sujeitam-se a golpes políticos dos “gajos do partido” e à devassa da vida privada por parte de um cardume de piranhas com carta de jornalista.

Num país onde os opositores querem chegar ao poder a qualquer custo, onde tudo serve para denegrir e difamar os adversários, chegando-se ao cúmulo de promover processos de investigação que apenas servem para “legalizar” escutas abusivas só um doido quer ser político. Há anos que não vejo um governante ter o reconhecimento público a não ser depois de se demitir ou ser demitido, ainda recentemente isso sucedeu com Manuel Pinho que demitiu depois de perder a paciência com as provocações de um deputado admirador de Kim Jong-il. Ainda recentemente o país viu Mota Amaral ser abandonado pelos deputados da sua bancada só por ter sido fiel aos valores do seu próprio partido.

Com os mais capazes de fora cria-se um ambiente favorável a gente sem grande valor, a politiqueiros profissionais, aos traidores, aos magistrados sem escrúpulos, a vira-casacas. É isso que explica que um partido com dezenas de bons economistas tenha escolhido para falar mal do governo durante as suas jornadas parlamentares um ex-ministro do governo de Sócrates. Em Portugal os partidos apreciam mais os que mudam de partido sempre que isso lhes dá jeito, dos que se mantêm fiéis aos seus valores e princípios, prefere-se os que estão à venda dos que guiam a sua vida por valores.

Um sistema político que valoriza os ressabiados, os que mudam e campo político sem qualquer período de nojo é um sistema político que exclui os que têm valor e promove gente sem princípios, é um sistema que exclui os que servem o país em favor dos que servem do país, é um sistema que esclui os novos valores em favor de uma classe política corrompida que recusa a renovação.

O nosso meio político está a tornar-se num campo de ervas daninhas onde nada nasce em favor do crescimento e sucesso dessas ervas daninhas.

Umas no cravo e outras na ferradura

FOTO JUMENTO

Flores da Quinta das Conchas, Lisboa

JUMENTO DO DIA

Defensor Moura, candidato presidencial

Mais um candidato a ajudar Cavaco Silva.

«"A minha candidatura vai complementar a de Manuel Alegre. Os meus adversários não serão nem Manuel Alegre, nem Fernando Nobre, mas a candidatura de direita de Cavaco Silva", declarou o deputado do PS, que é vice-presidente da Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros e membro das comissões de Saúde e de Defesa Nacional.

Defensor Moura, de 64 anos, adiantou ainda que o objectivo da sua candidatura presidencial será o de "forçar o actual Presidente da República, Cavaco Silva, a disputar uma segunda volta" e manifestou-se confiante que, nos próximos dois meses, conseguirá recolher as 7500 assinaturas para oficializar a sua entrada na corrida a Belém.» [DE]

ABORTO: UMA ALEGORIA

«Portugal foi um dos últimos países ocidentais a legalizar a interrupção da gravidez, em 2007 - com três décadas de atraso em relação à França, por exemplo. Completados (ontem) três anos sobre a entrada em vigor da lei, é talvez cedo para lhe fazer o balanço: tendo em conta o fenómeno sobre o qual incide, com uma tradição de clandestinidade e opróbrio, é normal que haja um largo período de adaptação às novas regras - o que é dizer que o número de abortos legais pode não ter ainda estabilizado.

Há no entanto quem veja na evolução desse número - que partiu de menos de 2000 abortos/ano permitidos pela lei de 1984 (devidos a malformação, violação e perigo para a saúde e vida da mulher e sempre autorizados por critério médico) - causa de alarme e até de revisão da lei. Serão, para alguns observadores, alguns deles médicos, "muitos abortos", e a "aumentar muito".

Não estando disponíveis os dados do primeiro semestre de 2010, sabe-se que em 2009 se contaram 19 572 interrupções de gravidez. Destas, cerca de 2000 ter-se-ão devido às causas contempladas pela lei de 1984. Teremos pois cerca de 17 500 abortos de "livre arbítrio" para dois milhões e meio de mulheres em idade fértil (entre os 15 e os 49 anos). Ou seja, sete abortos por cada mil mulheres. É muito? Responder a esta pergunta exige mais que opiniões e ideologias; exige comparações e contexto. » [DN]

Parecer:

Por Fernanda Câncio.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

JÁ HÁ UM PARA A COLIGAÇÃO A TRÊS

«Paulo Portas tem solução para o governo do País: coligação entre PS, PSD e CDS. Parece-me uma solução maravilhosa, há crise e para combatê-la são precisos todos. Uma soma de três vontades, boa! Analisemos, então, as partes dessa soma. Uma está garantida, o próprio líder do CDS a proclamou. É a mais pequenina, mas alguém havia de tomar a iniciativa. Infelizmente, porém, a proposta de Portas esgota-se nele. O PSD ainda há dias varreu a intenção de dançar o tango a dois, quanto mais um vira colectivo! Por seu lado, o PS só entra na coligação na condição de mudar os estatutos e aceitar que Paulo Portas possa vetar o futuro líder socialista (se for José e das Beiras, não). Contas feitas, temos então uma coligação tripartida com só um garantido. O que é curto. É, a política é menos diurética que os restantes hábitos portugueses - não é por mijar um, que mijam logo dois ou três. Portas, claro, sabia que a sua proposta era inviável. Mas fê-la por causa de um dos dramas da política portuguesa: um dos seus mais talentosos tenores não tem orquestra que o acompanhe e é obrigado a partes gagas para fazer de conta que o seu CDS é protagonista. Esse drama eu gostaria de resolver com uma iniciativa à Portas mas que não exclui ninguém, pelo contrário: o PS e/ou o PSD deviam fazer uma OPA ao CDS para comprar-lhe o vivo Portas e dar-lhe a dimensão devida. » [DN]

Parecer:

Por Ferreira Fernandes.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

TÍTULO 12

«Animado com as sondagens o PSD anda a pedir ideias avulsas a alguns génios locais. A ideia é, em si mesma, péssima. A experiência mostra que existe muita gente para "dar" ideias, mas é raro surgir alguma que realmente se aproveite.

Em campanha, políticos e partidos, recorrem com frequência a este sistema. Dá imagens na televisão, mas a eficácia é nula. Fica-se com uma montanha de propostas banais à mistura com algumas francamente delirantes. Mas pior. Aqueles que oferecem ideias, que tomam invariavelmente por excecionais, ficam à espera da sua concretização. Como isso raramente sucede, de generosos rapidamente passam a ressabiados.

Esta semana o PSD foi vítima do exercício. Chamou três sumidades a uma sala com a palavra Alternativa. A coisa oscilou entre a sitcom e o susto.

Villaverde Cabral sugeriu que o PSD apresente o mais depressa possível uma moção de censura. Com o objetivo de deitar abaixo o governo e marcar eleições? Não. A genial ideia seria obrigar o Bloco a salvar o PS. Ficou por se perceber o que ganharia o PSD com isso, já para não falar do país.

Ernâni Lopes propôs cortar os salários da administração pública em 20 ou mesmo 30%. "A cru, sem explicar nada". Para além do peculiar entendimento de democracia, em coerência também não explicou qual seria o efeito de uma tal medida na economia e no consumo. Nem referiu o que fazer com a agitação social que inevitavelmente sucederia. Tropa nas ruas? A cru?

Mas a proposta mais caricata veio de Campos e Cunha que se tornou conhecido porque esteve quatro meses no governo, quatro. Como única medida digna de registo dessa vertiginosa passagem, deixou uma carta de demissão. Agora propõe que os votos em branco contem para a eleição de deputados imateriais. Ou seja, na assembleia passariam a existir alguns lugares vazios representativos do niilismo nacional. Ficou por explicar qual seria o sentido de voto desses deputados transparentes. Abstenção ou voto contra? E numa moção de censura não devia ser a favor?

No final da alucinada sessão os deputados do PSD estavam de boca aberta e alguns bastante preocupados. Queriam semear ideias, colheram tempestades. Terão pensado que foi azar na escolha. Calhou-lhes três extravagantes mentais. Mas é bom que se preparem. Não vai ser fácil encontrar gente sensata na legião de catastrofistas que hoje saltita de canal em canal de televisão.

Nestes últimos anos Portugal encheu-se de exaltados de toda a espécie. Formam um pequeno mas ruidoso exército de enfurecidos. Desdobram-se em escritos e declarações, tendo por base uma técnica linear: desvalorizar tudo o que é positivo e sobrevalorizar o negativo. A oposição (qualquer que ela seja) gosta. É bom para a propaganda. Só que é muito mau para a discussão objetiva. Quando a má-língua e o irracionalismo se sobrepõem aos factos e aos argumentos fundamentados não há debate que resista.

Ainda recentemente um economista afirmou que Portugal está hoje pior do que há cinquenta anos atrás, porque nessa altura tinha ouro no banco e agora tem dívidas. Esqueceu-se da miséria, do atraso e do país medieval de então. Mas claro isso são ninharias. Medina Carreira, a mais apreciada pitonisa da desgraça da atualidade, afirmou que a justiça no tempo de Salazar era melhor do que a de hoje. Sorte dele, e sobretudo dos muitos portugueses que felizmente não sabem nada sobre os tribunais plenários ou da falta de liberdade.

Mas não é só o disparate que anda à solta. A estupidez também vai fazendo o seu caminho. Ainda esta semana foram várias as vozes que se manifestaram contra o aumento de vagas no ensino superior. Com o sublime argumento de que existe muito desemprego. Ou seja, a ignorância seria mais competitiva. Não é.

Existe em Portugal muita gente, que independentemente das suas posições políticas, é competente e objetiva. Mas o ambiente não está propício para a seriedade. Os media e os partidos da oposição preferem os loucos. Compreende-se. Dão mais espetáculo. » [Jornal de Negócios]

Parecer:

Por Leonel Moura.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

GOVERNO BRITÊNICO PEDE IDEIAS PARA COMBATER A CRISE ATRAVÉS DO FACEBOOK

«O Governo britânico resolveu servir-se da rede social Facebook para pedir aos seus utilizadores, conselhos e ideias para combater a crise que afecta o país.

Este original modelo de democracia participativa estará em vigor até Agosto mas o site já registou o contributo de mais de 56 mil pessoas.» [CM]

Parecer:

Por cá ninguém precisa de ideias, só recorrem à internet em tempo de eleições.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se a Sócrates se precisa de ideias novas.»

ADVOGADA DE CHARLES SMITH QUEIXA-SE DOS PROCURADORES DO FREEPORT

«O DVD - no qual o empresário Charles Smith aparece a dizer que fez pagamentos corruptos a José Sócrates - pode estar no processo Freeport? E as referências ao mesmo, como depoimentos ou transcrições? Como se trata de "prova proibida" no sistema legal português, a advogada do arguido Charles Smith avançou com uma queixa-crime contra a equipa de investigação do caso Freeport. Por esta ter, alegadamente, levado em conta o conteúdo do filme. Três penalistas, entre os quais Costa Andrade, dão razão a Paula Lourenço, defensora do empresário escocês.

Em causa está o facto do DVD constar do processo Freeport, assim como depoimentos de testemunhas e arguidos - recolhidos em Inglaterra - mas que fazem referência ao que é dito na conversa filmada por um antigo administrador inglês do Freeport. Ora, no entendimento da defesa de Charles Smith, tais elementos não podem constar do processo já que, perante a lei portuguesa, são prova proibida. » [DN]

Parecer:

Estes procuradores ainda vão ter problemas.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Aguarde-se pela acusação.»

VATICANO: ORDENAR MULHERES É UM CRIME TÃO GRAVE COMO A PEDOFILIA

«"Estas directivas consistem em atacar um elefante com uma pistola de água quando o elefante está praticamente fora do seu alcance", afirmou, em comunicado, Barbara Doris, uma das responsáveis da Associação Americana das Vítimas de Abusos Sexuais Cometidos por Padres (SNAP). Doris denuncia ainda o facto de a Igreja "acreditar mais nos acusados do que nos acusadores" e "ignorar as denúncias de abusos sexuais mesmo quando elas parecem credíveis".

No mesmo documento ontem tornado público, a Santa Sé reafirma, de forma inequívoca, que "toda a tentativa de ordenar uma mulher" constitui um dos "crimes mais graves" contra a legislação canónica, "um delito grave contra a fé" e "contra o sacramento".» [DN]

Parecer:

Esta igreja não aprende.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Lamente-se.»

O QUE PRETENDE O PADRE LINO

«O Instituto de Segurança Social (ISS) confirmou ao Expresso que "não vai deixar de comparticipar o almoço dos Ateliês de Tempos Livres [ATL]" e que a alimentação de 90 mil crianças não está posta em causa.

O ISS reaje assim ao que foi escrito pelo padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, que representa cerca de 2700 Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) do país. Numa carta enviada a todos os presidentes de IPSS com ATL, Lino Maia incentivou a "não dar satisfação às intimações dos centros distritais do Instituto de Segurança Social" por se tratarem de imposições "ilegítimas".

Uma reclamação prontamente desmentida por Cristina Fangueiro, do ISS, que fala em "revisão" dos acordos entre a o Instituto de Segurança Social e as IPSS. A responsável alega que este procedimento acontece todos os anos, de forma a "afinar" o número certo de crianças que frequenta os ATL de funcionamento clássico com almoço e os menores que estão nos ATL como extensões de horários e interrupções letivas. Para já, Cristina Fangueiro deixa uma garantia: "Nenhuma criança vai ficar sem almoço". » [Expresso]

Parecer:

Este lembra-me o chefe do Estado Maior da Armada no tempo de António Guterres, o outro disse que não tinha dinheiro para gasóleo enquanto este invoca o almoço das crianças pobres para criar um facto político.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Lamente-se este golpe baixo.»

APROVADOS CORTES PARA APENAS ALGUNS CARGOS POLÍTICOS

«A Assembleia da República aprovou hoje o projeto de lei do CDS-PP para reduzir os vencimentos dos membros dos gabinetes do Governo, dos presidentes de Câmaras Municipais e Governadores Civis, com o PS a votar contra a proposta.

Durante a votação da proposta, os deputados socialistas Manuel Mota e Acácio Pinto anunciaram a apresentação de declarações de voto em conjunto com outros parlamentares.

No debate, o PS tinha considerado injusta e demagógica a proposta do CDS-PP, perguntando por que motivo o alargamento dos cortes salariais não contempla igualmente os gabinetes dos grupos parlamentares, a Presidência da República ou o governo regional da Madeira.» [i]

Parecer:

Ou há moralidade ou comem todos.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se a Portas porque deixou alguns de fora.»

THE FESTIVAL OF SAN FERMIN, 2010 [Boston.com]

MARTIN AMM

sexta-feira, julho 16, 2010

Tempo de insanidade

Parece que as sondagens tiveram para a direita o mesmo efeito que um cálice de anis tem para quem nunca bebe, subiu-lhes à cabeça, nem mesmo Paulo Portas se coíbe de alinhar na bebedeira colectiva e sem sequer ter bebido já propõe um governo de salvação nacional em eu é ele que decide quais são os partidos habilitados a salvar o país e exclui o líder do partido mais votado nas últimas legislativas.

O PSD tudo faz para congelar as sondagens na esperança de as transformar em voto definitivo nas próximas legislativas e chega à brilhante conclusão de que se os portugueses dizem que vão votar nele o melhor é nem sequer dizer o que pensam não vão alguns eleitores mudar de ideias. Isso é evidente na forma como negoceia as SCUT, está dividido entre o voto dos que pagam as auto-estradas e não as usam e o dos eleitores de concelhos onde costuma ganhar as autárquicas. A solução ideal era pagarem todos ou não pagarem nenhuns, mas nem apresenta uma proposta neste sentido, nem parece querer uma solução de compromisso.

Luís Montenegro, vice-presidente do PSD, aproveitou o debate sobre o estado da nação para sintetizar o projecto político do PSD: «apresentaremos a nossa alternativa para governar quando os portugueses nos escolherem e só quando nos escolherem». Se as próximas eleições fossem em Janeiro eu diria que em vez de um programa o PSD apresentaria um bolo-rei, os eleitores escolheriam a fatia e depois veriam se tinha saído a fava ou o brinde.

Num dia Pedro Passos Coelho diz que para resolver os problemas do país precisará de duas legislaturas, no outro Luís Montenegro afirma que os portugueses só conhecerão o programa da Alternativa depois das eleições, resta saber se vai propor que a próxima legislatura terá oito anos ou se corre o risco de os portugueses votarem na segunda legislatura sabendo o que foi feito na primeira.

A direita parece ter tido o azar de ter subido cedo demais nas sondagens, agora julga-se certa da vitória eleitoral e percebe que as suas propostas só poderão levá-la a perder votos. Organiza umas jornadas parlamentares para discutirem a famosa alternativa e só se ouviram disparates, três dias depois aproveitam o debate do estado da nação para afirmar com ar solene que quem quiser conhecer a alternativa tem primeiro de dar a dentada no bolo-rei.

Afinal Pedro Passos Coelho não difere muito de Manuela Ferreira Leite, a determinada altura a ex-líder do PSD dizia que não divulgava as suas propostas aos portugueses para que José Sócrates não as copiasse, agora Pedro Passos Coelho pela voz de um dos seus vice-presidentes diz em pleno hemiciclo parlamentar em plena sessão dedicada ao estado da nação que só apresentará a sua alternativa depois das eleições.

Estarão loucos? Por este andar ainda alguém do PSD se lembrará de transformar o Diário da República em jornal confidencial e quererá governar sem que os portugueses conheçam as decisões.

Umas no cravo e outras na ferradura

FOTO JUMENTO

Igreja de São Nicolau, Lisboa

JUMENTO DO DIA

Durão Barroso, ex-primeiro-ministro fugido para Bruxelas

Quem ouve estas "postas de pescada" a Durão Barroso é bem capaz de pensar que nunca foi primeiro-ministro ou desempenhou tais funções antes da existência do euro.

«Este falso diagnóstico de saúde económica que, segundo Durão Barroso, o Euro terá dado, acabou por dar azo a que os governos pudessem evitar reformas económicas difíceis (logo, impopulares) mas necessárias.

Em declarações ao diário britânico “The Times”, Barroso não deixa no entanto de exaltar o papel do Euro num quadro de afirmação da Europa a nível mundial. “O Euro foi um grande êxito. Num curto espaço de tempo consolidou-se como a segunda divisa mundial e em algumas áreas é mesmo a primeira, no que diz respeito a transacções”, defende o Presidente da Comissão Europeia.» [i]

IRÃO VOLTA COM A PEDRA À FRENTE

«Santo Estévão é o primeiro mártir cristão. Acusado de blasfémia, foi julgado e morto à pedrada. Assistiu e apoiou a lapidação de um tal Saul de Tarso, que, mais tarde, convertido, se tornaria São Paulo - maior que Santo Estevão na história do cristianismo. Quem sabe se Manucher Mottaki não será, amanhã, um homem digno? Hoje, ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, em périplo europeu, acaba de dizer que "a justiça iraniana não suspendeu a lapidação" de Sakineh Ashtiani. Esta iraniana foi condenada, já aqui o lembrei, a ser morta por lapidação por ter cometido adultério. Homem de muita fé, eu escrevi então que já não ia ser por pedras, contente porque a embaixada iraniana em Londres acabara de dizer que Sakineh talvez viesse a ser morta só à forca. Mas, agora, o ministro Mottaki veio repor as pedras no menu. Há dias, escrevi, eu estava disposto a saudar o embaixador do Irão (e por maioria de razão, o ministro) por ter abandonado a idade da pedra. Não sendo assim, volto ao meu desprezo tradicional. Mas confiante na conversão do género humano: quem sabe se Manucher Mottaki não vai ser ainda um São Paulo da democracia? Sakineh Ashtiani é que pode deixar-se de ilusões, os mártires de hoje já não chegam a santos - ela será, e só, um corpo macerado e cortado. Pormenor (está no código penal): as pedras não podem ter tamanho que matem à primeira ou à segunda.» [DN]

Parecer:

Por Ferreira Fernandes.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

'GRACIAS, HERMANOS'

«A Espanha venceu justamente o campeonato do mundo de futebol. Fê-lo, antes de mais, porque soube construir uma ideia de equipa, na qual as personalidades individuais apenas reforçaram o colectivo, sem estrelas, sem egos e sem deslumbramentos.

Não houve casos no estágio e durante a competição, ninguém pediu mais minutos, mais protagonismo, mais destaque. Cada jogador teve o condão de se diluir no valor e na pujança da equipa, ajudando os outros a serem melhores. Bastaria ver na final o modo como cada jogador que ia sendo substituído incentivava o substituto para se perceber a cadeia de proximidade e cumplicidade entre todos.

Fê-lo também porque teve a sorte (ou talento) de contar com um treinador que sabiamente somou ao trabalho do antecessor, campeão europeu, apurando e refinando o que herdou, sem necessidades de afirmação pessoal, de apenas fazer diferente para se individualizar. A sua serenidade no momento do triunfo, espelha bem quase 50 anos de vida no terreno de jogo e no banco em que terá passado por muito e conhecido quase tudo, deixando apenas transparecer a noção do dever cumprido e libertando a glória para os seus jogadores e para o seu país.

Fê-lo ainda porque havia uma nação mobilizada, com convicção e entusiasmo, no apoio à selecção, orgulhosa de si e da sua posição no mundo e encontrando ao mesmo tempo naqueles jogadores e sobretudo naquela equipa a solução mágica para por um instante fugir da violenta crise que lhes afecta o dia-a-dia e das autonomias independentistas que lhes dilaceram o amanhã.

Fê-lo, por último e certamente por capacidades e excelência técnico-táctica que não estou minimamente habilitado a comentar, mas que, creio, no futebol como na vida, marginalmente ajudam mas não fazem decisivamente a diferença no resultado final.

Triste fado o nosso, sem ideia de equipa, mas cheia de personalidades e egos, sem liderança que não se veja, mas se sinta, actue e mobilize, sem fio condutor que ligue o passado ao futuro, sempre a inventarem-se novos projectos e novos amanhãs, sem nação entusiasmada e convicta, que se limita a partilhar com os nossos vizinhos do lado as agruras da crise e as fragilidades de governos e oposições. Domingo à noite refugiei-me na condição de habitante da ibéria para sentir também, mesmo que fugaz e levemente, o sabor da vitória que, já o sabemos há muito, é apenas espuma nas nossas vidas, mas que por ser doce e reconfortante, aviva o brilho nos olhos quando acordamos de manhã para um novo dia.

Mas já sem espuma, e dizem-no vários estudos que a vitória no campeonato irá impactar positivamente no PIB espanhol e por tabela também algo no nosso, o que reforça a vontade de dizer, ‘gracias hermanos'.» [DE]

Parecer:

Por António Gomes Mota.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

AINDA HÁ ESCRAVIDÃO NA EUROPA

«Quatro portugueses, com idades compreendidas entre os 21 e os 27 anos, foram sequestrados e obrigados a trabalhar de sol a sol em Espanha, entre 2006 e 2009, sem receberem qualquer tipo de retribuição, sofrendo constantes ofensas à integridade física.» [CM]

Parecer:

É uma vergonha para a Europa e, em particular, para Espanha que estes casos ocorram com a frequência com que temos visto na comunicação social.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se ao Dr. Barroso se está tão preocupado com estas situações como mostrou em relação à golden share da PT.»

PASSOS COELHO PEDE DUAS MAIORIAS ABSOLUTAS

«Pedro Passos Coelho assumiu ontem uma postura de "futuro primeiro-ministro" para se mostrar convencido de que vai necessitar de "uma ou duas legislaturas" à frente do Governo para conseguir "corrigir as políticas deficientes", em matéria de saúde e ensino, trilhadas por Portugal ao longo dos anos. A posição foi assumida em Setúbal, num debate demolidor para a política de educação, promovido pela Plataforma de Reflexão Estratégica, uma espécie de estados gerais à moda do PSD.

Antes de assumir que o PSD é um partido que "não anda ao sabor dos humores do Governo nem dos elementos do PS", o líder laranja revelou que tenciona apertar a malha a investimentos que levantem dúvidas na educação e saúde, levando em conta os exemplos dos últimos anos, prometendo exigência em todas as decisões que venham a ser tomadas nas futuras reformas." » [DN]

Parecer:

O partido que era contra maiorias absolutas quer agora duas adiantadas, até apetece perguntar-lhe se não quer mesmo três maiorias absolutas.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se a Passos Coelho se também quer que lhe mandemos um garrafão com água de malvas.»

FREEPORT: NEM CONSEGUEM PROVAR A EXISTÊNCIA DE CORRUPÇÃO

«Ao fim de cinco anos de investigação, a Polícia Judiciária (PJ) não conseguiu entregar ao Ministério Público conclusões sólidas sobre o processo Freeport. No extenso relatório final, a que o DN teve acesso, os investigadores limitam--se a descrever movimentações bancárias, resultados de perícias ambientais e urbanísticas, a assinalar contradições entre depoimentos, mas sem propor qualquer tipo de desfecho para o caso - uma acusação ou arquivamento.

De acordo com os elementos do relatório final da Judiciária, de um total de 265 contas bancárias referenciadas nos autos, 165 foram alvo de tratamento pericial. Estas dizem respeito a arguidos constituídos no processo - Charles Smith, Manuel Pedro, Carlos Guerra, José Manuel Marques, Capinha Lopes e José Dias Inocêncio, assim como a empresas a estes associadas - e também a outros intervenientes, como a sociedade de advogados Vieira de Almeida e Júlio Monteiro. A perícia concluiu que foi no ano de 2002 - data em que o projecto Freeport foi aprovado - que os antigos sócios da empresa Smith & Pedro, Charles Smith e Manuel Pedro, mais levantamentos em numerário fizeram nos balcões dos bancos. A PJ afirma que os montantes levantados rondaram, quase sempre, os 3000 e os 6000 euros. Ambos, segundo as contas da polícia, levantaram, em numerário, das contas da Smith & Pedro, 473 mil euros. Porém, não é feita qualquer ligação directa entre tais operações e posteriores depósitos em contas de decisores públicos.» [DN]

Parecer:

A verdade é que com o dinheiro que gastaram para tentar livrar-se de José Sócrates os nossos magistrados teriam prendido uma boa dúzia de criminosos, incluindo corruptos.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Façam-se as contas ao que gastaram com o caso Freeport e obrigue-se os magistrados responsáveis a indemnizar o Estado.»

BEIJO DO MUNDIAL VALE DOIS MILHÕES DE EUROS

«O beijo dado em directo entre o guarda-redes espanhol Iker Casillas e a jornalista Sara Carbonero, logo após a Espanha ter vencido a Holanda na final do Mundial... vale dois milhões de euros. Este foi o valor pedido pela cadeia de televisão Telecinco a algumas estações concorrentes que quiseram comprar as imagens daquele que ficou conhecido como 'o beijo do Mundial'.

E este valor tem alguma lógica. É que a Telecinco pagou cerca de 80 milhões de euros para ter os direitos exclusivos de acesso aos balneários da selecção espanhola e foi por isso a única estação de televisão a conseguir captar o momento.» [DN]

Parecer:

É mais do que muita menina ganha durante toda a vida.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a merecida gargalhada.»

OLHA QUE DOIS

«Na véspera do debate do Estado da Nação, o Diário Económico falou com dois ex-ministros das Finanças, um do PS e outro do PSD. Curiosamente ambos responsáveis por aumentos de impostos durante a sua passagem pelo executivo. Os dois responsáveis reconhecem a necessidade do País encontrar "respostas novas" do ponto de vista político, como diz Joaquim Pina Moura, porque Portugal "se encontra num pântano", frisa Eduardo Catroga. A situação económica em que o País se encontra e o novo enquadramento mundial exigem que se encontre uma solução rapidamente, alertam.» [DE]

Parecer:

Esta do DE escolher um ex-ministro do PSD e um ex-ministro do PS dá vontade de rir, para escolher Pina Moura, um admirador do programa eleitoral do PSD de Manuela Ferreira Leite, mais valia ter escolhido dois ex-ministros do PSD que encontraria maior diversidade de opiniões.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a merecida gargalhada.»

ALA ESQUERDA CRITICA MINISTRO DAS FINANÇAS

«Teixeira dos Santos quer alcançar um défice melhor que o da Alemanha em 2013. No relatório de política orçamental, o ministro das Finanças fixou 2%, enquanto a "terrível" Merkel se limita a apontar 3%. As opções do Ministério das Finanças e da Europa estão a aterrorizar a ala esquerda do PS, que prevê um 2011 catastrófico, com profundos cortes nas políticas sociais, para cumprir o objectivo de passar o défice de 7,3% para 4,6%. Pedro Adão e Silva, politólogo, ex-dirigente do PS, aponta o relatório da política orçamental, discutido na última sexta-feira no Parlamento, como um sinal dos "vários níveis de esquizofrenia" de um país em que "os burocratas das Finanças fazem política contra aquilo que o primeiro-ministro diz e contra o que o governo diz". Adão e Silva chega ao ponto de sugerir que para apontar um défice de 2% em 2013 haverá "alguém a fazer política nos bastidores contra a vontade do governo". "A ditadura que existe é dos burocratas das Finanças, que não têm qualquer controlo político", afirma ao i.» [i]

Parecer:

A ala esquerda do PS sempre teve mais vocação para gastar do que para poupar, já Sousa Franco era muito criticado.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se aos senhores se têm ouvido as notícias.»

OPERAÇÃO FURACÃO: A JUSTIÇA É UMA QUESTÃO DE PREÇO

«O Ministério Público poderá vir a admitir acordos com os bancos envolvidos na Operação Furacão que paguem as quantias devidas pelos seus clientes que não tenham querido, ou não tenham podido, liquidar as dívidas apuradas pelo fisco no âmbito dos crimes investigados. A solução está a ser pensada e teria de obter o acordo do juiz de instrução, Carlos Alexandre. Mas pouparia anos de desgaste ao sistema financeiro e à Justiça.

Cerca de 30% dos clientes arguidos já fizeram acordo com o Ministério Público, e o fisco está a receber 90 milhões de euros relativos a essas dívidas fiscais. Se os bancos saldarem o resto da dívida dos seus clientes, terão de pagar cerca de 200 milhões de euros.» [i]

Parecer:

Enfim, para os ricos é tudo uma questão de preço.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Lamente-se tanta amabilidade por parte da justiça.»

MAIS UMA VÍTIMA DA INDIFERENÇA

«Uma mulher, de 44 anos, foi assassinada à facada pelo marido, esta manhã, em Arcozelo, Vila Nova de Gaia. O agressor, de 43 anos, já foi detido pela GNR.

Segundo o JN apurou, o casal encontrava-se em processo de divórcio e a mulher já estava a viver com os filhos noutra casa.» [JN]

Parecer:

É impressionante como este país não se preocupa com a violência doméstica, como se em pleno século XXI ainda vigorasse a norma segundo a qual "entre marido e mulher ninguém mete a colher".

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Adoptem-se medidas!»

PAULO PORTAS QUER COMPRAR MAIS SUBMARINOS

«O líder do CDS, Paulo Portas, desafiou José Sócrates a sair do Governo e a permitir que o PS escolha outro primeiro-ministro “moderado, credível e com os pés assentes na terra”. Num discurso que tornou sombrias as caras dos deputados da bancada do PSD, Paulo Portas propôs que, no cenário de mudança de primeiro-ministro, fosse estabelecida uma coligação alargada.» [Público]

Parecer:

Ridículo.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a competente gargalhada.»

SAM HUNG