sábado, março 09, 2013

A manipulação


  
A realidade política portuguesa é cada vez mais um jogo de sombras. O país tem um presidente que parece que foi eleito para falar dele, chegando ao ridículo impensávelde propor  a sua avaliação segundo o processo de auto-avaliação que o Mário Nogueira exigia para os professores. Com um presidente destes e ainda tem um governo cujo número dois é um três e o três é um dois, todos os outros são verdadeiros números fracccionários e todos somados não dão um, um governo em quem ninguém acredita, a quem já ninguém reconhece legitimidade, mas que é mantido porque dá jeito ao famoso arco do poder mantê-lo, é mais confortável ser presidente da câmara municipal do Porto ou de Lisboa do que andar a aturar os palermas da troika ou a meter cunhas ao austero e rigoroso Durão Barroso, para não referir o outro comissário que até parece ter um pico a azedo.
  
No meio desta palhaçada toda em que o país foi transformado já não se percebe muito bem se a sede do governo é na residência oficial do homem de Massamá, ou se este se esqueceu de pagar a renda e se mudou em regime de residência aberta para as instalações do DN, na Avenida da Liberdade. A verdade é que às gorduras que o Estado já tinha o governo decidiu acrescentar uma, usou o dinheiro dos contribuintes para contratar uma boa parte dos jornalistas, ao que parece basta saber ler, escrever e falar mal do Sócrates para se ser contratado como assessor governamental com carteira de jornalista.
  
Curiosamente, o mesmo governo que tinha um projecto duvidoso para a comunicação social, com o famoso dr. da Lusófona a vender a RTP a quem falasse melhor de Passos Coelho, acaba por fazer um verdadeiro saneamento da comunicação social, retirando de uma boa parte desta um verdadeiro enxame de vespas que durante anos desinformaram o país para ajudar a extrema-direita das discotecas da Linha, mais os economistas da sacritia, a chegar ao poder. Compreende-se o empenho d ealguma comunicação social em apoiar o governo, ninguém que aquele pessoal venenoso de volta Às redacções.
  
O problema é que começa a ser difícil distinguir a realidade da ficção, voltamos ao tempo do antes do 25 de Abril, quando para se perceber uma notícia tinha de se ler nas entrelinhas para se perceber a mensagem que o jornalista tentava fazer passar pelo crivo da censura. Mas agora é ao contrário, é o jornalista que usa e abusa da mentira e nós temos de procurar na mentira aquilo que é verdade, porque uma boa mentira para o ser tem de ter um pouco dessa verdade.
  
Um bom exemplo dessa manipulação da informação é a suposta dificuldade da troika a impor ao governo medidas mais duras do que as que este está disposto a aceitar. Convencido pelo Gasparzinho de que teria o reconhecimento das grandes universidades, o modesto gestor, afilhado e herdeiro espiritual dessa luminária lusa que é o Ângelo Correia decidiu ser mais troikista do que a troika e sujeitou o país a um programa económico digno de fazer inveja ao Augusto Pinochet. Mas a dose de cavalo foi bem maior do a usada nas almôndegas do El Corte Inglês e o resultado foi um imenso coice na economia portuguesa e nos trabalhadores e empresários menos dependentes do poder. Enfim, foi um traique digno de um cavalo com graves problemas de flatulência, um traique que se tivesse ocorrida agora té teria provocado o adiamento do conclave. 
  
Ainda há pouco tempo o Gaspar divertia-se com um brutal aumento de impostos e para que os portugueses não pensassem que a brincadeira ia parar encomendou uma redução brutal nas funções do estado, a que o homem de Massamá, mais refinado nestas coisas da intelectualidade optou por chamar refundação, a fundação foi em Guimarães, a refundação será em Massamá.
  
Só que um dia destes até o faroleiro das Berlengas manda a segurança marítima à fava e vem para as manifestações do “Que se lixe a troika”. Como não há bexiga que aguente o pessoal requisitado aos jornais teve uma brilhante ideia, vamos promover o desgraçado de Massamá a herói na luta contra a troika e dizer aos portugueses, povo reconhecidamente idiota, que o governo tem lutado tanto contra as imposições da troika que a namorada do Salassie, o mais escurinho para o pessoal da CGTP, vai ficar a ver navios e só poderá actualizar a escrita, lá mais para meio da semana. O namorado foi vítima da tenaz luta do Gaspar e do Passos contras os excessos de austeridade exigidos pelos três idiotas com que as organizações internacionais nos prendaram. Enfim, acredita quem quiser, o mais certo é que a toika tenha adiado o regresso para tentar controlar o Gaspar, que cada vez mais se assemelha ao “animal” da série “Os Marretas”.

Umas no cravo e outras na ferradura



   Hino da República Bolivariana da Venezuela (aditamento 11:54)
   
 
   Foto Jumento
 
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Rossio, Lisboa
   
Imagens dos visitantes d'O Jumento
 
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Preparando a pescaria [A. Cabral]   


Jumento do dia
  
Sôr Álvaro
 
Depois de tudo o que já se sabia sobre o ministro da Economia o país ficou a conhecer mais uma faceta, é uma personalidade cartesiana. Imagine-se que o ministro à falta de medidas para estimular o crescimento arrebanhou uma meia dúzia de euros e fez uma encenação para divulgar medida. Não arranjou nem duas, nem três, nem vinte, nem trinta, mais de quarenta, mas não foi nem quarenta e oito ou quarenta e nove, no seu firmamento intelectual cartesiano o número tinha de ser grande e preciso, precisamente cinquenta, meia centena, um múltiplo de cinco e de dez. Grande Álvaro, agora vai arranjar mais 25 para estimular o consumo de pastel de nata e mais uma dezena para estimular os ouriços-caixeiros a ter relações com as minhocas de forma a que Portugal possa criar a sua multinacional do arame-farpado.
 
«O ministro da Economia e Emprego, Álvaro Santos Pereira, enalteceu hoje a agenda "coesa e ambiciosa" que integra o plano para o relançamento do setor da construção e imobiliário.

O plano, que integra sete grandes objetivos e 50 medidas, é um "passo concreto e real para reforma e relançamento sustentável do setor", disse o governante na apresentação do compromisso firmado entre o executivo e a Confederação Portuguesa Construção e do Imobiliário, que representa as empresas da área.» [i]

 Baixar salários?
 
Os defensores da escravatura como solução para a competitividade dos empresários portugueses voltaram à carga com a tese da redução salarial, foi o caso do pequeno primeiro-ministro e do seu guru magrizela António Borges. Só que estes senhores se esqueceram de dois pormenores, as empresas privadas estão aumentando os salários por livre iniciativa e o salário mínimo oficial tem vindo a diminuir todos os anos por força da inflação.

O que estes modernos defensores da escravatura humana não explicam é porque razão as empresas que aumentam os salários continuam a ser competitiva e porque motivo apesar da redução do salário mínimo real o desemprego continua a aumentar,

Estes senhores sabem que estão mentindo, que as suas teses são de um grande primarismo e não se fundam na teoria económica, estão muito simplesmente aproveitando a crise para forçar mais uma transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos. Estes senhores estão transformando o país num barril de pólvora porque contam com a protecção de batalhões de polícias e que a qualquer momento conseguem chegar ao aeroporto mais próximo, deixando o país entregue a si próprio.

 "Soneto quase inédito", José Régio, 1969
   
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Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,
Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.


 O país dos mortos-vivos

Cavaco reapareceu e Passos Coelho faz-se acompanhar de Miguel Relvas no debate parlamentar. Hugo Chávez vai ter mesmo de viajar sozinho.
 
 A troika prolongou as negociações

parece que está em dificuldades em convencer o Gaspar a não voltara a exagerar na austeridade e nos despedimentos, as organizações internacionais receiam que um dia destes o problema deixe de ser do FMI para passar a ser a ONU a ter de se ocupar dos campos de refugiados na fronteira espanhola.
 
 Quem acredita ponha o braço no ar
  
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Vem aí uma dose brutal de austeridade e é mais do que óbvio de que esta suposta resistência do governo à troika não passa de uma manipulação grosseira da informação. Já toda a gente percebeu que  ministro das Finanças é mais extremista que qualquer responsável da troika. É um extremista tal que até defende para Portugal piores condições do que as pedidas pela Irlanda quanto aos prazos de pagamento.

Gaspar devia ser dispensado do governo para assumir a tempo inteiro as funções de assessor do ministro alemão, o coxo precisa de alguém para lhe empurrar a cadeira.

 A propósito do Dia Internacional da Mulher

Recebi m por e-mail:


"Era uma vez um banqueiro
a Dona Isabel ligado.
Vive do nosso dinheiro,
mas nunca está saciado.

Vai daí, foi a Belém
E pediu ao presidente
que à sua Isabel também
desse um job consistente.

E o bom do senhor Cavaco
admitiu a senhora,
arranjando-lhe um buraco
e o cargo de consultora.

O banqueiro é o Fernando,
conhecido por Ulrich,
e que diz, de vez em quando,
«Quero que o povo se lixe!».

E o povo aguenta a fome?
«Ai aguenta, aguenta!».
E o que o povo não come
enriquece-lhe a ementa.
com a devida vénia à Isabel:

"E ela, Dona Isabel,
com Cavaco por amigo.
não sabe da vida o fel
nem o que é ser sem-abrigo.

Cunhas, tachos, amanhanços,
regabofe à descarada.
É fartar, que nós, os tansos,
somos malta bem mandada.

Mas cuidado, andam no ar
murmúrios de madrugada.
E quando o povo acordar
um banqueiro não é nada.

É só um monte de sebo,
bolorento gabiru.
Fora do banco é um gebo,
um rei que passeia nu.

Cavaco, Fernando Ulrich,
Bancos, Troikas, Capital.
Mas que aliança tão fixe
a destruir Portugal!"

ver despacho 5776/2011 Diário da república
 
 Hugo Chávez



  
 Inconcebível
   
«O ministro das Finanças, num novo golpe de génio, resolveu esta semana disparar um torpedo contra as pretensões da Irlanda a uma revisão generosa, em 15 anos, do prazo médio de maturidade dos empréstimos contraídos junto das instituições europeias no âmbito da ajuda externa.

O ministro das Finanças, num novo golpe de génio, resolveu esta semana disparar um torpedo contra as pretensões da Irlanda a uma revisão generosa, em 15 anos, do prazo médio de maturidade dos empréstimos contraídos junto das instituições europeias no âmbito da ajuda externa. Falando no local próprio, em Bruxelas, o que Vítor Gaspar disse não podia ter sido mais impróprio: o resultado pretendido pela Irlanda, sentenciou ele, é "inconcebível". E de tal forma desqualificou a pretensão irlandesa que chegou a dizer que só a podia entender como uma mera "posição negocial", nunca como uma previsão do resultado da negociação.

Se seria sempre de estranhar uma posição pública de um ministro português tão inamistosa para um país amigo em dificuldades, é verdadeiramente surreal que o ministro das Finanças faça o papel de opositor do pedido irlandês quando, na realidade, Portugal está formalmente associado à Irlanda no mesmo pedido e todos sabem que o que for decidido para a Irlanda poderá ser aplicado também a Portugal. Por momentos, parecia que Vítor Gaspar tinha passado para o outro lado da mesa, surgindo a desempenhar, com desenvoltura e inexcedível desdém, o papel de credor exigente diante do devedor que vem pedir alguma compreensão. Que belo parceiro foram os pobres irlandeses arranjar!


Já se sabe, o Governo português sempre esteve mais do lado do interesse dos credores do que do interesse dos países periféricos da zona euro atingidos pela crise das dívidas soberanas, sempre alinhou com uma errada leitura da crise e sempre subscreveu, se possível em dobro, as ruinosas políticas de austeridade da senhora Merkel. Mas, sobretudo, o Governo sempre gostou de desempenhar o papel subalterno do "bom aluno" obediente, que não faz perguntas, não tem posição própria e não ousa falar alto nem mesmo para defender os interesses nacionais. Para quem perfilha esta atitude subserviente e passiva, o que dá jeito é que sejam os outros a reivindicar, para depois, sem fazer ondas, aparecer a recolher os frutos do trabalho alheio. Foi assim há um ano, quando a redução de juros, pedida pela Grécia, foi atribuída também a Portugal ao abrigo do princípio da "igualdade de tratamento" e será assim agora quando, depois das novas condições concedidas à Grécia, se souber o resultado da "posição negocial" da Irlanda e da longa luta do Governo irlandês - bem anterior à formalização do pedido em simultâneo com Portugal.

Desta vez, porém, o ministro das Finanças não se limitou a ir à boleia do trabalho dos outros. Desqualificando a posição negocial irlandesa, como fez ostensivamente para ficar bem na fotografia, Vítor Gaspar desqualificou também a posição negocial de Portugal. E não haja a menor dúvida: esta é a pior altura para o Governo português adoptar uma posição negocial fraca. Com os indicadores económicos todos no vermelho, com a zona euro em recessão e com a sétima avaliação do nosso Programa já em curso, este é o momento em que Portugal deveria jogar tudo não apenas numa revisão significativa dos prazos de pagamento dos empréstimos mas também na obtenção de um período de carência e na redução do valor dos juros, a par de uma revisão das metas, dos calendários e das medidas do nosso programa de ajustamento, não apenas para acomodar as derrapagens da execução orçamental mas também para conquistar espaço para medidas voltadas para o crescimento económico e a criação de emprego.

Os irlandeses - que o ministro das Finanças julga dados a posições "inconcebíveis" - perceberam isto há muito tempo. Talvez por isso, a Irlanda conseguiu estabelecer na revisão do seu Programa que só em 2014 terá de atingir a meta de 5% de défice que o Governo português acordou com a "troika" para o ano de 2012 - e falhou. A Irlanda está, mais uma vez, a fazer pela vida. Inconcebível é que o tenha de fazer contra o Ministro das Finanças português.» [DE]
   
Autor:
 
Pedro Silva Pereira.   

 Ele e mais ninguém
   
«Presidente da República ainda se escreve com maiúsculas. Mas se o novo AO não mudou isso, o atual detentor do cargo está empenhado em reduzi-lo a paródia e opróbrio. Após meses de silêncio tão inexplicável que a piada mais frequente do Twitter era compará-lo ao moribundo Chávez, Cavaco emergiu à porta de uma fábrica de moagem para, em autêntica conferência de imprensa, moer-nos o que nos resta de paciência com os habituais e penosos autoelogios e autorreferenciações, mais as pusilanimidades e mesquinhices costumeiras.

Que já disse tudo na mensagem de Ano Novo, que trabalha dez horas por dia (vá lá, não se queixou outra vez de ganhar pouco), que "tem informação que mais ninguém tem e experiência que mais ninguém tem", que o Governo finalmente fez o que ele defende mas que não lhe dá ouvidos como devia, etc. E, finalmente, que "as pessoas que se manifestam no respeito pelas leis da República devem ser ouvidas". Cavaco, pelos vistos, não reparou que o que se ouviu mais na manifestação de 2 de março foi o silêncio. À exceção da Grândola e da enorme vaia que o teve como destinatário, um silêncio exasperado, soturno, de quem cerra dentes e punhos, de quem já não sabe o que gritar. Não reparou, ocupado que está na sua esgotante jornada de trabalho, que quem saiu à rua no dia 2 foi a maioria silenciosa, a que nunca ou raramente sai, a que nunca ou raramente se manifesta e nem sabe bem como se faz. Para dizer que está farta do processo revolucionário em curso e que exige ao garante de regular funcionamento das instituições que ponha cobro a este sequestro da vontade popular expressa no voto. A esta burla perpetrada com o alto patrocínio de um presidente que, no discurso de tomada de posse, há dois anos, exortou todos a saírem à rua contra o Governo PS por se ter "ultrapassado o limite dos sacrifícios" e hoje, perante o décuplo desses sacrifícios, alega a crise europeia (que antes ignorou) e se refugia no seu palácio cor-de-rosa, nem já no Facebook dando cavaco.

Sim, este PR sabe coisas que mais ninguém sabe, vê coisas que mais ninguém vê. Como Gaspar e Passos, não vê o que todos vemos, mas por razões diferentes - eles são fanáticos perigosos (como todos os fanáticos), ele é um desavergonhado taticista que passa as ditas dez horas e todas as outras a fazer contas de cabeça sobre como tirar o máximo de proveito de cada situação. E que, no cúmulo da sua não noção, do insulto ao País que desgraçadamente lhe confiou o último recurso, se entretém a escrever roteiros "para presidentes em tempo de crise". Que magnífica ideia, senhor professor, clamaram, em coro, os assessores, a bater palminhas: "Que lindo testemunho para a história." E é. O livrinho há de expor, malgré o autor, o roteiro que nos trouxe aqui. Arquitetado por um presidente de prefácios, que crê ter sido eleito para jogar xadrez com os portugueses, lixando-se para tudo menos ele.» [DN]
   
Autor:
 
Fernanda Câncio.
      
 Protesto
   
«Era um mar de gente descontente. No dia 2 de Março as pessoas vieram para a rua para protestar, pacífica e ordeiramente, aos milhares, em todo o país, contra o estado de coisas. Pessoas de diferentes gerações, das mais diversas profissões, com e sem trabalho sentiram-se subitamente próximas e viram em cada rosto igualdade. Foi a demonstração de uma identidade colectiva, de um sentimento de destino comum.

Muita gente diferente, diferente no modo como recebeu a crise ou despertou para ela, apoiou a retórica justificativa da austeridade ou a rejeitou e provavelmente diverge nas soluções para sair da situação actual manifestou-se em conjunto, quase silenciosamente, num ambiente contido e entristecido.

Durante algum tempo as pessoas foram esmagadas por um discurso hegemónico que alimentava a criação de bodes expiatórios: para onde quer que se virassem, dentro e fora do país, só ouviam dizer que tinham vivido acima das suas possibilidades, que faziam parte dos preguiçosos da Europa do Sul, bafejados por muitos feriados para gozar o sol e a praia, que viviam à custa dos laboriosos países do Norte, para quem se tinha até inventado a acintosa designação de PIGS.

Nem toda a gente se revoltou então. Aplicando internamente a receita dos líderes europeus que dividia a Europa em bons e maus, virtuosos e culpados, inventavam-se entre nós uns malandros a quem apontar o dedo, primeiro o Governo anterior depois os funcionários públicos. O discurso irracional e fanático, nos seus ódios eleitos, aliviava a ansiedade e acalentava a esperança de que isto só acontecia aos outros, os gregos lá fora, ou os funcionários públicos cá dentro. Com o passar do tempo e os sucessivos falhanços das medidas e das promessas, os efeitos colaterais da bomba que atingiu o país foram-se espalhando, ao mesmo tempo que o discurso do Governo se dirigia ao povo no seu conjunto, qualificando-o de piegas, preguiçoso, ignorante das oportunidades que a crise gera, como o desemprego e a emigração, e dedicado a actividades económicas ultrapassadas que uma suposta selecção natural se encarrega de eliminar, como se o desaparecimento dessas actividades não dependesse de decisões tomadas por homens políticos, investidos de poder e conscientes das suas escolhas. 

A sociedade foi aparando os golpes que lhe desferiam, conforme podia, na esperança de dias melhores. As gerações mais velhas acolheram os filhos de volta a casa, com os seus próprios filhos, depois de terem perdido as casas onde viviam, os jovens prescindiram de projectos de estudos superiores e oportunidades de emprego, as famílias cortaram nos consumos, as lojas fecharam, os restaurantes faliram. Agora partilhamos um destino comum, o de sermos geridos por uma espécie de força ocupante, que olha o país de fora, com estranheza, obedecendo à agenda europeia. Uma agenda que subverteu todos os princípios do projecto europeu ao substituir a coesão pela divisão, a solidariedade pela punição e o respeito pelas pessoas pelo desprezo profundo. A Europa, modelo de democracia e de bem-estar já não existe, pelo menos para alguns, os tais do Sul, e os povos sentem-se mais sós.

No dia 2 de Março as pessoas juntaram-se e mostraram o seu desejo de refundar a democracia ao evocar, num gesto cheio de significado e emoção, os símbolos da sua fundação, em 1974. Porque é no seio da democracia que se confrontam visões para o país, trocam argumentos e ideias e se criam oportunidades para que as pessoas dêem um rumo às suas vidas e sintam que controlam o seu próprio destino. É no seio da democracia que existe diversidade e surgem alternativas. Na ausência dela ficamos reduzidos a um mar de gente descontente.» [Público]
   
Autor:
 
Lígia Amâncio.
   
  
     
 O Catroga não andou na escola do Borges
   
«"As empresas que podem pagar mais do que o salário mínimo nacional pagam e devem continuar a pagar. O Estado não deve imiscuir-se nas discussões de política salarial das empresas", defendeu o antigo ministro das Finanças em declarações à Renascença, depois de o primeiro-ministro ter defendido no último debate quinzenal que na situação actual da economia portuguesa pode encaixar uma redução do salário mínimo, posição que foi também posteriormente defendida por António Borges.

Catroga discorda. "É necessário não tocar nos salários e nas pensões. Só numa situação muito extrema é que se pode admitir que o Estado sequer pondere essa variável", afirmou o ‘chairman' da EDP, um dos negociadores do memorando do lado do PSD, numa altura em que decorre a sétima avaliação regular da ‘troika'.» [DE]
   
Parecer:
 
Parece que o catedrático a tempo parcial 0% tem em bom senso o que o catedrático do lixo financeiro da Goldman Sachs tem em habilitações.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Sorria-se com estas contradições no seio da classe dos bem empregados e remunerados do regime relvista.»
      
 CDS usa a chantagem contra a greve
   
«O CDS-PP quer saber quanto é que as greves custam às empresas públicas de transporte e alerta para que as sucessivas paralisações podem pôr em causa o serviço público e o próprio emprego dos grevistas.

Numa pergunta hoje enviada à Assembleia da República e dirigida ao Ministério da Economia, os deputados do CDS-PP questionam o “impacto em cada uma das empresas públicas de transporte deste conjunto de greves”.» [i]
   
Parecer:
 
Fascistas!
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Vomite-se.»
   
 Encenação
   
«Ainda não há acordo com a troika, e a sétima revisão do programa português vai prolongar-se pelo menos pelo fim-de-semana, avança o "Sol".

Isto porque, as questões mais importantes permaneciam em aberto. Uma delas diz respeito ao corte dos quatro mil milhões de euros.» [i]
   
Parecer:
 
Troika ajuda o governo a lavar a face encenando uma discussão dura para depois aparecer o que o governo propôs à troika e que, muito provavelmente, vai muito além daquilo que esta exigiu.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Espere-se para ver.»
   
 Um dia Sócrates há-de ser julgado
   
«Nem os resultados obtidos pelos alunos podem ser ignorados na avaliação docente, nem esta pode ser efectiva se não tiver no seu centro o que acontece em sala de aula, defende a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) num relatório divulgado nesta sexta-feira.

Em Portugal, devido à forte contestação de sindicatos e movimentos de professores, foi deixada cair a proposta de Maria de Lurdes Rodrigues no sentido de os resultados dos alunos contarem para a avaliação docente, e a observação das aulas passou a ter, em regra, um carácter facultativo.

No seu relatório Teachers for the 21st Century – Using Evaluation To Improve Teaching [Professores para o século XXI – Usar a avaliação para melhorar o ensino], a OCDE parte do princípio enunciado no título: o de que a avaliação docente deve contribuir para a melhoria do sistema de ensino e não apenas para a progressão na carreira. Frisando que “os resultados obtidos pelos estudantes são o critério essencial para o sucesso de um sistema de ensino” e que os “professores contam” no que respeita ao sucesso académico dos estudantes, a OCDE dá conta de que continua a existir, em alguns países, uma “combinação mal sucedida” entre os resultados obtidos pelos docentes na sua avaliação e aqueles que são alcançados pelos estudantes.» [Público]
   
Parecer:
 
Muitos professores ainda vão ter saudades da Ludrinhas e do tempo em que em vez de serem repositores nas mercearias da Fundação do Barreto eram professores e tudo faziam para levar a extrema-direita ao poder.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Volta Lurdinhas, estás perdoada.»
   

   
   
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sexta-feira, março 08, 2013

O silêncio


Um dos aspectos mais impressionantes da manifestação do passado dia 2 não foram as palavras de ordem, os cartazes ou a diversidade de gente, foi o silêncio, um silêncio pesado que de vez em quando se transformava em Grândola, Vila Morena. Foi o mesmo silêncio que senti durante a manhã do sábado, era perceptível alguma tensão no ar, como se as pessoas estivessem reflectindo sobre o que iriam fazer nesse dia.

Onde os gregos reagiram com algumas dezenas de milhares os portugueses fizeram-no com mais de um milhão, onde os gregos se manifestaram numa cidade os portugueses manifestaram-se em todo o lado, onde os gregos gritaram e destruíram os portugueses contiveram uma imensa raiva e responderam ao poder com desprezo.

Talvez um Gaspar insensível a questões e com um profundo desprezo pelo seu povo devida voltar a goza com os portugueses dizendo que são o melhor povo do mundo. É certo de que o Gaspar não mudou de opinião, para o Gaspar os portugueses não são economistas reconhecidos em Bona ou em Frankfurt e por isso a sua opinião não conta. O Gaspar está convencido de que graças à troika as opiniões que contam são as autorizadas pelos credores, a democracia está suspensa e os portugueses não passam de ratos de laboratório.

Até aqui o governo tem abusado, adopta as medidas que lhe apetece, revela um total desprezo pela Constituição e para os que pensam que em democracia é normal estar-se preocupado com eleições o Passos Coelho diz que se está lixando para elas. A verdade é que como não conseguiu rever a Constituição decidiu destruir tudo o que estava protegido por essa mesma Constituição. Aos poucos vai destruindo o Portugal que odeia, um Portugal que a extrema-direita nunca aceitou.

Há a falsa ideia de que as revoluções só se fazem com silêncio e o silêncio do passado dia 2 parece deixar o governo tranquilo, mas o silêncio que ecoava na Av. da Liberdade fazia um eco ensurdecedor na imensa fachada onde é anunciada a nova loja da Cartier. No país onde um ministro das Finanças de competência muito questionável vai decidindo quem deve ser empobrecido e quem deve ser convidado a deixar o país os ricos têm motivos de alegria, Lisboa é uma cidade rica e moderna onde não falta uma grande loja da Cartier.
  
Resta saber se a loja da Cartier vai chegar a abrir ou se não fechará mais cedo do que se espera. É o que o silêncio dos portugueses pode ser uma revolução, a revolução que muita gente anunciava nos cartazes com que desfilaram na avenida. Mas nem nas cadeiras de economia, nem nas aulas de catequese da Universidade católica se explica aos futuros extremistas que um povo que não tem nada a perder e a quem tudo tiraram pode retribuir com uma revolução. Era assim que dizia o cartaz de uma manifestante. Mas o Gaspar não foi à manifestação e não terá tido a oportunidade de reflectir sobre esse cartaz.

Umas no cravo e outras na ferradura


  
   Que se lixe a troika, os troikos  e mais as vacas entroikadas!
   
 
   Foto Jumento
 
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Flores selvagens, Lisboa
   
Imagens dos visitantes d'O Jumento
 
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Tecnologia de segurança portuguesa [A. Cabral]   

PS: se o Sôr Álvaro vê esta fotografia ainda se vai interrogar se em vez de uma multinacional do pastel de nata não faria mais sentido uma multinacional lusa das fechaduras de alta segurança.
   
Jumento do dia
  
Cavaco Silva
 
Quanddo o país já estava  aperceber que não há grande diferença entre Portugal ter ou não ter presidente sendo este Cavaco Silva, o eleito para o cargo nas últimas presidenciais veio a público falar daquilo que considera mais importante para a Presidência da República e para Portugal, de si próprio. Desta vez o senhor eu tranquilizou Portugal, os portugueses ficaram a saber que não lhes sucedeu nada de mais grave do que já está sucedendo porque Cavaco esteve trabalhando nos bastidores e só assim é que ele consegue as grandes coisas que temos mas não sabemos.

Agora veio mais uma vez educar os portugueses e depois de ter feito a competente prova de vida decidiu ressuscitar a sua página no Facebook e por ela ficámos a saber que Cavaco vai ensinar os portugueses como é que um presidente deve actuar em tempo de crise. Depois desta ficamos à espera da próxima lição onde Cavaco deverá explicar o que fazer quando o presidente é a causa, é parte ou é mesmo a própria crise.

Quando o país afunda o presidente explica-se, limita-se a tratar da sua própria imagem. Isto começa a ser ridículo demais para ser verdade.
 
«O Presidente da República anunciou no Facebook que vai revelar depois de amanhã, dia 9, o prefácio do Livro "Roteiros VII".
  
"No próximo dia 9 de Março, data em que completo o segundo ano do meu segundo mandato, divulgarei, na página da Presidência da República na Internet, o texto do Prefácio do livro "Roteiros VII", que reúne as intervenções mais significativas que produzi naquele período", escreveu esta manhã Cavaco Silva.» [DN]

 Uma pequena dúvida
 
Vítor Gaspar é ministro das Finanças de Portugal ou assessor de Olli Rehn, o extremista que é comissário dos Assuntos Monetários na Comissão Europeia? Ministro deste país não parece ser.
 
 Outra dúvida

Cavaco Silva vai receber o vencimento correspondente ao mês de Fevereiro?

 Um duplo no BPN
 
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 Quem ouve falar o Gaspar ou o Passos Coelho
 
Arrisca-se a pensar que quem pediu ajuda foi a UE e quem ajudou foi Portugal, são tão rigorosos e exigentes a penalizar quem pediu ajuda que até parece que estão sentados do lado dos credores. Será que algum deles já se imagina convidado para um alto cargo pela forma como se portou?
 
 Portugal é um país comunista?
  
Quando António Borges diz que o ideal para criar emprego seria uma redução dos salários faz-nos pensar que em Portugal vigora o comunismo e que quando um investidor cá chega recebe uma tabela salarial. A verdade é que isso não sucede e os salários são negociados.

O que António Borges pretende não é criar emprego, é uma baixa generalizada dos salários para que o seu patrão do Pingo Doce tenha um aumento dos lucros para levar para a Holanda, fugindo aos impostos. Isto é, os pobres ficam a passar fome para os ricos ganharem mais. Só há um comentário f.d.mãe!

Este palerma deve querer incendiar o país, tão inteligente e ainda não percebeu que o país está à beira de uma implosão social de dimensões descontroladas..

 Que se lixe a troika -Braga - 2 de Março



  
 O inconcebível Gaspar
   
«O ministro das Finanças acha inconcebível o desemprego a caminho dos 18%? Acha inconcebível as falências em série? Acha inconcebível o nível de impostos? O IVA galopante? A queda de investimento? O risco de motim entre os militares? A fuga dos mais novos? O desespero dos reformados? A desconfiança que se abate sobre partidos e instituições? Acha inconcebível aprovar orçamentos que falham previsões e chegam a fevereiro esmagados pela realidade?

Não. Para todos estes detalhes pueris Gaspar não guarda espanto nenhum. Já para a hipótese de Portugal, como a Irlanda, pedir a extensão, por mais 15 anos, do pagamento do empréstimo aos fundos europeus que socorreram o País... para isso o ministro escolhe palavras musculadas: inconcebível!, diz ele. Haja moderação, acrescenta. Eu nunca tinha visto uma coisa destas. A Irlanda tem menos necessidades do que Portugal - tem um empréstimo mais pequeno -, até cresce alguma coisa, mas pede mais tempo. O que faz Gaspar? Gaspar distancia--se do aliado (que gesto nobre...) e pede cinco, dez anos no máximo. Alguém compreende?

Talvez seja a vontade de ficar fora do radar de Berlim para não indispor ninguém. Talvez seja a determinação em estar sempre alinhado com o ortodoxo e fraquíssimo Olli Rehn. Há argumentos a favor desta tese: os juros já não baixaram para 3%? Não houve tolerância para a derrapagem do défice em 2012 e não pode ser adiada a meta dos 3% em 2014? Devagar - incrementalmente, como dizem os burocratas de Bruxelas - lá vão chegando algumas concessões e borlas.

É seguramente uma maneira de olhar para o problema. Podemos até imaginar que Gaspar se agiganta à porta fechada, convertendo-se num tenaz defensor dos endividados. Será? Na verdade, só saberemos quando saírem as memórias do ministro; mas sei que há aqui um grave problema de oportunidade. O Wall Sreet Journal informava ontem que a zona euro caminha para o quarto trimestre consecutivo de contração. Ou seja, a receita é má e em Portugal é pior. A estratégia de 100% pura austeridade não resolve. Para se ter uma ideia, os enviados de Bruxelas a Atenas são aconselhados pela Comissão a mentir aos taxistas para não levarem uns cascudos: jamais lhes digam quem são, inventem. É isso mesmo: a ideia é mentir. Fazer-nos crer que não há alternativa ou que a alternativa é rasgar contratos, não fazer reformas nenhumas. Oito ou oitenta. Não é verdade. Há alternativa: negociar mais, colocar limites... como faz a Irlanda (que recusou subir o IRC) e como fez Espanha, que evitou o resgate. Infelizmente, Gaspar jamais o fará. Isso, sim, é inconcebível.

P.S. No auge da crise, alguns bancos centrais da Europa disseram às suas instituições financeiras nacionais para não comprarem dívida dos países em dificuldade. Com isso, extremaram a crise. São estes os parceiros europeus a quem Gaspar se entrega com diligência.» [DN]
   
Autor:
 
André Macedo.   

 Dia de Saída de Cavaco Silva
   
«Um mês e uma semana depois de ter estado na abertura do ano judicial, a 30 de janeiro, Cavaco Silva voltou ontem a sair do Palácio de Belém e foi visitar uma fábrica de moagem. De certa forma, ele partilha com o Rei Bhumibol um recorde: o tailandês é o chefe de Estado mais duradouro, reina desde 1946; já Cavaco é o de maior ausência, o mês de fevereiro passou-se inteirinho sem ele. Apesar disso, o Presidente mostrou que o País continua a interessá-lo vivamente. Para o provar, usou uma sinédoque, figura de estilo que toma a parte pelo todo, e falou do Portugal que lhe é mais querido: "Ninguém tem a experiência que eu tenho." Referia-se aos seus dez anos de primeiro-ministro e aos sete que já vai na Presidência. Evidentemente os críticos do costume vão conferir os números e lembrar que o mês passado não conta. Também ontem, o próprio lembrou que ele trabalha "10 ou até 12 horas por dia" e "muitas horas ao sábado e ao domingo." São informações importantes e poderão ser comparadas na próxima saída de Cavaco Silva, lá para meados de abril. Saberemos, então, se o índice de horas presidenciais trabalhadas aumentou e talvez Portugal encontre aí o nicho de propaganda estatística que lhe tem sido negada nos outros sectores (esperemos que a troika aceite o índice). Por outro lado, o ministro da Economia poderia fazer uma parceria com a Presidência e criar o Dia da Saída de Cavaco Silva. A Rainha Isabel tem o Trooping the Colour, dia em que sai do Palácio de Buckingham para passar em revista os regimentos. Por cá, poder-se-ia poupar na pompa e carruagens e a saída de Cavaco seria só dedicada ao discurso em que falaria das horas que trabalha em casa. O exemplo inglês seria ótimo porque o Trooping the Colour comemora o aniversário da Rainha, e assim só teríamos uma saída anual do Palácio de Belém: segundo muitos analistas, o contributo de Cavaco nunca é tão bom como quando está ausente.» [DN]
   
Autor:
 
Ferreira Fernandes.
      
 Mais troikista do que a troika
   
«Num momento em que a Troika faz a sétima avaliação a Portugal, os sinais de que a receita seguida está a ter custos económicos e sociais muito superiores aos previstos – veja-se por exemplo a evolução do desemprego - levou os técnicos que nos visitam a mostrarem maior abertura a aceitar alterações ao programa de ajustamento, nomeadamente na revisão das metas de défice e do calendário para as atingir.

A maior abertura foi também revelada no Eurogrupo, com a decisão de aceitar um alargamento do prazo dos empréstimos.

A justificação oficial para esta maior abertura decorre do facto de as condições externas se terem alterado, em particular da conjuntura europeia se ter deteriorado. 

Sendo verdade, esta não é a única motivação. Há hoje um reconhecimento de que a receita de austeridade seguida em toda a União Europeia, e de forma particularmente exigente nos países do Sul da Europa, foi responsável por criar um segundo pico de recessão (uma recessão em W), que está a dificultar o próprio processo de consolidação nos países sob assistência. 

De facto, existe a noção de que, nos programas de ajustamento, se deu apenas atenção à parte financeira, descurando a parte económica e ignorando totalmente a componente social e os riscos políticos da receita que se estava a seguir. Consciência, reforçada pelos recentes resultados eleitorais em Itália. 

Se é verdade que, em termos financeiros, a Zona Euro inspira hoje mais confiança. Também é verdade que isso resulta principalmente de Mario Draghi, que inverteu a política do BCE, contrariando a linha da Chanceler Merkel, e não dos resultados da política orçamental seguida na Zona Euro. As garantias do BCE tiveram muito mais impacto do que as reduções de défices numa Zona Euro ainda muito endividada e agora em recessão.

Nesta avaliação, a Troika também está a ser avaliada, e tem todo o interesse em dar boa nota ao aluno bem comportado, dando assim também boa nota às suas escolhas. Se Portugal falhar a Troika também falha, daí a maior abertura para rever os erros do programa e eventualmente dar melhores condições a Portugal.

Ter descurado os aspectos económicos, em particular no que diz respeito à disponibilidade de financiamento e a criar incentivos para o relançar do investimento e para apoiar as empresas exportadoras, resultou em mais recessão e desemprego do que o necessário, comprometendo as metas de redução de défice.

Não vale a pena ter ilusões, com ou sem Troika, a economia portuguesa teria sempre de reduzir o consumo e a despesa pública e aumentar os impostos. No entanto, a reestruturação da economia deveria ter incluído o aumento do investimento e das exportações. O ajustamento seguido foi longe demais na redução do consumo e no aumento de impostos e nada fez pelo aumento do investimento. Mais, é preocupante que as exportações portuguesas, depois de terem registado um dos crescimentos mais altos da Zona Euro entre 2005 e 2011, estejam agora a cair. 

Perante este quadro, pedir a revisão do ritmo de ajustamento e das condições do programa de assistência parece ser apenas uma questão de bom senso. 

Num quadro em que a Grécia obteve não só um prolongamento dos empréstimos por 15 anos, como um período de carência, sem pagamento de juros por 10 anos, e ainda uma redução da taxa de juro, cabia ao nosso Governo reivindicar condições semelhantes. 

O Governo português não o fez. 

Ficou à espera da Irlanda. E só a reboque da Irlanda pediu o prolongar dos prazos. Mesmo aqui, a Irlanda assumiu uma posição clara e reivindicou um prolongamento de 15 anos, enquanto o Governo português se mostrou disposto a aceitar uma extensão de prazos de apenas cinco anos. 

Depois da atitude de ir além da Troika, que ajudou a lançar o país numa recessão muito superior à que a Troika previa, sem conseguir os resultados de redução do défice esperados, o Governo português parece agora ter menos abertura negocial do que a própria Troika, na revisão de prazos, ou na reivindicação de melhores condições de financiamento para o país. 

A Irlanda, onde há um problema financeiro, mas não há um problema económico, de competitividade e crescimento tão acentuado como em Portugal, tem um governo que não hesitou em reivindicar melhores condições. O Governo português, reivindica apenas uma recalendarização dos pagamentos, que vai a prazo facilitar a parte financeira, e parece não querer mais do que um pequeno ajustamento do calendário da redução do défice, que deve apenas servir para cobrir o desvio que já era previsível. 

Perante um cenário externo mais desfavorável e um agravar das condições internas muito além do previsto, em resultados da política de consolidação seguida. Perante um consenso europeu que começa a reconhecer que a excessiva consolidação na Zona Euro e a penalização exagerada dos países do Sul da Europa está a dar maus resultados. Perante uma Troika mais aberta a rever o seu caminho, sabendo que também está a ser avaliada pelos erros de avaliação que fez. O Governo teima em ir além da Troika, ficando aquém do que devia estar a reivindicar na revisão do programa de ajustamento português. » [Jornal de Negócios]
   
Autor:
 
Manuel Caldeira Cabral.
     
 Populismo doméstico
   
«Depois das eleições italianas, a Europa está assustada com o “populismo”.

Infelizmente, não percebe que se trata de um contra-populismo, em resposta ao populismo que sustenta a ideologia moralista que coloca as virtuosas formigas do Norte contra as despesistas cigarras do Sul. 
Mas não vale a pena criticar os populismos da Europa do Norte e do Sul se continuarmos a ser populistas em casa. Deste ponto de vista, as recentes declarações de Freitas do Amaral sobre Sócrates são reveladoras, ao insistirem na explicação fulanizada daquilo que já devia ser visto como um problema sistémico. Afinal, tudo parece resumir-se ao ex-PM não ter querido "cortar na despesa".

2. Esta opinião só pode resultar de um desconhecimento fáctico - Freitas deve ignorar tanto as duras medidas do OE2011 como as previstas no PEC4 - e da incapacidade de compreender como a Zona Euro chegou à crise das dívidas soberanas: como a sua arquitetura institucional condicionou o desenvolvimento da periferia; como a UE acordou em 2008 com os Estados um aumento do investimento público para minorar o impacto da maior crise dos últimos 80 anos; como na ausência de soberania monetária, de um orçamento federal, e de um banco central com um papel de prestamista de último recurso os países com défices mais altos ficariam à mercê dos mercados; como cortar a eito em 2010 não resolvia nada (e teria impedido o país de crescer 1,9%), porque qualquer consolidação só fazia sentido numa ação concertada com o BCE e a Comissão, como contrapartida de estabilização dos spreads da dívida pública (o PEC4).

3. Freitas parece seguir a estratégia absurda que trata de modo assimétrico o período entre 2008 e a primeira metade de 2011 e aquele entre a segunda metade de 2011 e o presente. No primeiro, a crise internacional e a incoerência institucional da UE são irrelevantes; no segundo, a economia europeia e as decisões do BCE já são variáveis-chave para a recuperação portuguesa. Enquanto as elites nacionais não fizerem uma Revolução Copernicana e substituírem a explicação fulanizada pela análise sistémica de como a Europa chegou à crise de 2010 que ainda se prolonga, não contribuiremos para combater os populismos europeus que bloqueiam uma solução para a crise.» []
   
Autor:
 
Hugo Mendes.
   
 Grândola, vila pequena
   
«Ao longe, não se vê, não se ouve, não se percebe o que é. Uma música?, uma manifestação?, um milhão de pessoas?, muitos milhões? Sábado 02.03.2013: Portugal visto de fora da Europa é nada. (Na melhor das hipóteses, um fait-divers, uma notícia de rodapé, uma breve de jornal de elite...). Portugal na rua, farto do Governo, cansado da troika, desesperado. As páginas online nacionais mostram a força das palavras, do "Grândola", fotos esmagadoras. Gente que sofre. Um país que fala sozinho. Que enlouquece coletivamente. Que fica a ver-se ao espelho da TV como se aquela dor fosse captável por câmaras. Alguém quisesse saber, lá fora. Cá fora ninguém ouve.

O Mundo tem mais em que pensar. O dinheiro mais para onde ir. Obama está a cortar milhões de milhões no Orçamento americano e o país começa a paralisar serviços públicos. Os chineses continuam sem conseguir respirar muito bem em Pequim, em Xangai... Há cada vez mais lojas de luxo na China mas 16 das 20 cidades mais poluídas do Mundo estão lá. Têm fábricas e emprego mas escasseiam céu azul e água limpa.

Os japoneses estão a perder a cabeça e elegeram um primeiro-ministro radical. Há uma guerra cambial para tentar tirar o país da crise e o iene já se desvalorizou 35%. Claro: os americanos não vão ficar a ver. Os chineses também não. Dona Merkel: vem aí mais desemprego em cima do euro forte e nem a senhora escapa.

Depois há Roma, duplamente em ruína: o cataclismo 'Grillo Berlusconi' ressuscita a velha pergunta que nos custa os olhos da cara em juros: o euro resiste? E no Vaticano romano, pútrido, nem o Papa aguenta o nauseabundo odor do poder da Cúria, do tráfico financeiro, da testosterona. Que diria Pedro a Paulo?

Grândola, terra da fraternidade. A única no Mundo? O "Diário Económico" escrevia há dias que o contrato de privatização da ANA já deixou estipulado que o vencedor, a empresa francesa Vinci, tenha o exclusivo da construção do novo aeroporto de Lisboa sem necessidade de concurso. Magnífico. Negócios em cascata em que o fiador último é o Estado... Siga. E o Governo prepara a venda de mais um monopólio a privados: o dos Correios. Sempre a mesma estratégia - tornar o país numa placa giratória de capital sem pátria. Os portugueses pagam a conta. Sempre.

Passos Coelho aplica a cartilha dos consultores financeiros mundiais. O nosso António Goldman de Sachs Borges é um bom maestro para a coisa. Já lhe renovaram, aliás, o contrato para mais dois anos ao lado de Passos. Ele e outros primos Sachs saltitam de galé em galé para conferir se no porão os escravos remam. Se sim, mete-se o dinheiro aqui, não acolá, aqui vai dar muito e ali não. Se não, vão-se embora. E não há "criação de emprego".

A equação destes boys é a da máxima remuneração para o capital. Ensina-se em todas as escolas de "Economia" e "Gestão", dá galões aos MBA e doutorados. Istambul, Dubai, Singapura, Xangai, Tóquio, São Paulo: triliões de dólares a circular para formar investimentos que geram crescimentos súbitos. Talvez incobráveis. Pouco importa. Há que garantir, hoje, rentabilidades triunfais aos rebanhos de acionistas anónimos.

Wall Street, City de Londres, offshores variados: dinheiro que faz dinheiro. Financeiros e governantes alinhados pela frenética mistificação do "progresso". Votos dá, realmente, a curto prazo. Depois, as pessoas vivem para servir a gigantesca dívida e arrependerem-se por muitos anos.

"Portugal" visto de longe? Cada vez mais Ronaldo, Mourinho, a Seleção de longe a longe. Ou seja, uma excentricidade futebolística, sem Grândola. "Portugal" é um ponto minúsculo no mapa. Só existe para nós. Portanto: temos de cuidar de nós próprios. Sermos menos dependentes do dinheiro externo, renegociarmos com dignidade os acordos com a troika e, essencialmente, regressarmos à honradez de uma vida talvez mais pobre, talvez mais verdadeira. Estamos sozinhos e temos de sair deste ciclo "Durão, que escolheu Santana, que nos fez correr para Sócrates, que nos meteu em Passos, que nos fará escolher Seguro".

Acredito no seguinte: vamos sair daqui da forma mais inesperada possível. É sempre através de uma pequena coisa que tudo se quebra e recomeça. Uma canção já é um bom princípio.» [JN]
   
Autor:
 
Daniel Deusdado.
     
  
     
 O Senhor "Eu" também renasceu no Facebook
   
«O texto a divulgar, afirma Cavaco Silva, explica como deve um Presidente atuar em "tempos de grave crise económica e financeira".

O Presidente da República anunciou no Facebook que vai revelar depois de amanhã, dia 9, o prefácio do Livro "Roteiros VII".

"No próximo dia 9 de Março, data em que completo o segundo ano do meu segundo mandato, divulgarei, na página da Presidência da República na Internet, o texto do Prefácio do livro "Roteiros VII", que reúne as intervenções mais significativas que produzi naquele período", escreveu esta manhã Cavaco Silva.

O Presidente da República afirma que este ano "o prefácio diz respeito ao modo como deve actuar um Presidente da República em tempos de grave crise económica e financeira, como aquela em que Portugal tem estado mergulhado nos últimos anos".» [DN]
   
Parecer:
 
Este Cavaco acha que no meio desta crise o povo está muito preocupado em saber o que ele pensa ou deixa de pensar, foi ele que tudo fez para termos este governo e esta política.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Lamente-se o espectáculo.»
         
 O guru de Passos Coelho veio em seu auxílio
   
«António Borges considerou hoje que a “única medida” aplicável é manter o salário mínimo, mas “o ideal até era que os salários descessem como solução imediata para resolver o problema do desemprego.”

“Ninguém quer um país de gente pobre, toda a gente quer um país próspero. Mas antes disso temos uma emergência nas mãos e a emergência é uma taxa de desemprego acima dos 17%. O ideal até era que os salários descessem como aconteceu noutros países como solução imediata para resolver o problema do desemprego”, salientou o consultor do governo para as privatizações, em entrevista à Rádio renascença.» [i]
   
Parecer:
 
O problema destes senhor é estar convencido de que os portugueses têm uma grande consideração pela sua pessoa, senão percebia que o melhor seria estar calado e evitar aparece em público.

Estes canalhas destruiram sectores inteiros da economia e agora usam o desemprego provocado de forma premeditada pelas suas políticas para justificarem o regresso do fascismo laboral.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se ao despedido do Goldman Sachs se não acha que em vez de salários baixos a solução para criar empregao não seria a escravatura.»
   
 Energias renováveis
   
«A GNR de Águeda deteve um homem, de 42 anos, que foi apanhado a conduzir uma bicicleta elétrica com uma taxa de alcoolemia de 4,41 gramas de álcool por litro de sangue, anunciou hoje aquela força policial.

A detenção aconteceu na passada quarta-feira, cerca das 21:00, na sequência de uma chamada telefónica para a GNR de Águeda a alertar para um acidente de viação, numa rotunda da estrada nacional 333, naquela cidade.» [i]
   
Parecer:
 
Digamos que o condutor também usava renováveis.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a merecida gargalhada.»
   
 Finalmente o PSD diz uma verdade
   
«Numa declaração política no Parlamento, a deputada social-democrata Francisca Almeida enalteceu o que disse serem os méritos do Governo, mas também dos portugueses, pela sua "galhardia e coragem" perante a crise.

A deputada do PSD disse que, com a execução do memorando, o Governo "conseguiu capital de confiança e de credibilidade junto dos credores e dos mercados" e que isso criou "condições de equacionar junto dos nossos parceiros uma extensão da maturidade dos empréstimos e a flexibilização das metas do défice".

"Ninguém negará que estamos hoje mais perto de resgatar a nossa soberania financeira e de colocar o nosso País em condições de voltar a crescer e voltar a criar emprego", declarou, apontando como "evidência disso" o facto de a agência de notação financeira Standard & Poors ter retirado "o 'outlook' negativo da dívida portuguesa".» [Notícias ao Minuto]
   
Parecer:
 
Aconteça o que acontecer, venha o crescimento quando vier, por cada dia que passa estaremos mais perto do crescimento. Obrigado PSD.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a merecida gargalhada e grite-se Ganda Chica!»
   

   
   
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