sábado, outubro 15, 2016

Quem falseia a realidade?

Depois de ter ressuscitado,. após um longo período em que andou a fazer de morto, o por enquanto líder do PSD armou-se em Nostrapassos e previu uma desgraça lá para Setembro, ao nono mês o ano da graça de Deus de 2016 iria parir uma desgraça nacional, mas a desgraça que não aconteceu e o vidente falhado entrou em estado de negação. Para ele a desgraça aconteceu, os seus deputados da primeira fila até acusam o governo de ter falseado os dados da execução orçamental de Setembro,

Não deixa de ter a sua ironia a nova bandeira de Passos Coelho quando acusa o primeiro-ministro de esconder ou de negar a realidade, é uma acusação de alguém que durante meses recusou o estatuto de líder de um dos partidos da oposição, para promover a pantomina do ex-primeiro-ministro no exílio, pantomina que ainda gosta de representar nas horas livres em visitas oficiais ue os seus amigos organizam para ele acreditar que ainda é primeiro-ministro. Durante meses Passos recusou-se a ler a constituição e a perceber a realidade política saída das eleições legislativas, nunca imaginou que a esquerda seria capaz de se entender e ainda hoje não percebeu que o que aconteceu.

A liderança do PSD por Passos Coelho, é um líder sem o fulgor que aparentava quando tinha Relvas ao seu lado e o Estado lha pagava os assessores. Agora é um líder sem ideias, que vive de encenações montadas pelo aparelho local do partido, que lhe proporciona aparições públicas num papel de primeiro-ministro em que todos alinham fazendo-lhe crer que ainda o é. Passos não tem projecto e em vez de fazer oposição ao governo constrói os seus próprio moinhos de vento, convencido de que serão eles a derrubar António Costa.

Passos é uma combinação desajeitada de Nostaradamus, de D. Quixote e do Pokémon, sem ideias vive de conjunturas construídas pela sua própria imaginação. Aquele que agora acusa António Costa de negar a realidade, vive de realidades virtuais. Começou por imaginar que geringonça não iria chegar a acordo, apelou à sua direita europeia para o ajudar a manter-se no governo, apelou à Europa para impor um plano B, ganhou vida quando pensou que Portugal iria ser alvo de sanções por parte da UE, perdeu o sono ante de cada reavaliação da dívida portuguesa por parte das agências de notação, acreditou que a execução orçamental de Setembro levaria o país a um segundo resgate.

Passos não apresenta qualquer programa para o país, não tem propostas para o orçamento, não tem ideias, Passos é o que sempre foi, um político débil e desde que perdeu Relvas e Portas, é um político em estado de negação, para quem a realidade é o seu mundo virtual cheio de moinhos e de Pokémons para apanhar, quando acusa o primeiro-ministro de não ver a realidade o líder do PSD está a ser sincero, a realidade que Costa não vê a que ele próprio inventou.

Umas no cravo e outras na ferradura




 Jumento do Dia

   
Rui Ramos, ideólogo da extrema-direita chique

Já vi muitas formas de justificar a político do anterior governo mas tenho de confessar que a agora defendida or Rui Ramos, um dos ideólogos mais militantes da extrema-direita chique que nos governou, veio agora defender. Nunca vi este senhor preocupado com o crescimento ou o investimento durante o anterior governo, nessa ocasião as obras foram interrompidas e a recessão tinha efeitos curativos.

Agora não só está preocupado com o investimento como parece ter sentido uma paixão repentina pelos funcionários públicos, essas pobres almas recuperaram parte do que lhes foi tirado, mas devem estar infelizes porque não têm nada que fazer, devido à quebra do investimento. pelo caminho são tratados como clientelas e dependentes.

Já que não é possível decretar a escravatura não seria melhor metê-los numa câmara de gás. Há uns anos Cavaco disse que o problema estaria resolvido quando os funcionários morressem, talvez não fosse má ideia acelerar o processo.

«O governo devolve salários ao funcionalismo, mas tira-lhe, ao mesmo tempo, os meios para desempenhar o seu papel. Não poderia haver melhor sinal de que o Estado social só interessa ao governo e à maioria como uma bolsa de clientelas e de dependentes, e não como prestador ou garante de serviços à sociedade. Em Portugal, começamos a deixar de ter um Estado social para passar a ter um Estado fundamentalmente político-eleitoral: a prioridade é acomodar clientes; os benefícios para o resto da população são incidentais. Este vai ser o orçamento desse Estado. Pede-lhes o presidente que não pensem em eleições. Mas em que mais poderiam eles pensar?» [Observador]


 Onde estavam eles

É incrível a quantidade de gente que aparece nas televisões preocupados com o aumento dos impostos sobre o património, preocupa-os os investidores estrangeiros, os pobres que têm uma casa de férias, os desgraçados com milhões no imobiliário que nada rendem.

Acho normal ver fiscalistas defendendo os ricos, afinal de contas são os ricos os seus clientes. Mas onde estavam estas boas almas quando se aumentou o IVA na electricidade ou quando os produtos alimentares sofrerem um igual aumento do IVA? Nessa altura não vi a verter tanta lágrima em directo.

sexta-feira, outubro 14, 2016

Um lapso de memória

"Não tenho dúvida alguma sobre a aprovação deste Orçamento. Isto que nós estamos a assistir parece uma peça encenada, não sabemos se estão de acordo ou se combinaram estar em desacordo, mas a verdade é que é próprio da negociação para um Orçamento do Estado, ainda mais quando envolve três partidos".

Quem fez estas declarações, alguém na oposição aquando da aprovação do OE para 2015 ou Assunção Cristas a propósito do OE de 2016?

A direita tem vindo a passar a mensagem de que este OE tem sido discutido na praça pública, desvalorizando o funcionamento da geringonça de que diziam não conseguir fazer aprovar o OE para 2017, em relação ao qual não tinha sido assumido qualquer compromisso aquando das negociações para a formação do governo. Recorde-se que muito boa gente desta praça pressionou Cavaco Silva porque supostamente os acordos do PS com os Verdes, o PCP e o BE não asseguravam estabilidade política para além da aprovação do OE 2016.

Tentam passar a ideia de que com a direita é tudo certinho e que com a esquerda há bandalhice. A verdade é que estamos quase no fim do ano e até a agoirenta da Teodora Cardoso já admite que para que se cumpram as metas orçamentais basta um danoninho. O défice encolheu, mesmo sem a ajuda do crescimento económico e foi possível repor a legalidade constitucional em matéria de vencimentos e pensões, para além da eliminação parcial da sobretaxa de IRS.

A verdade é que pela primeira vez em vários anos os portugueses tiveram o direito de viver tranquilos, sem ameaças, sem desvios colossais, sem medidas robustas, sem chantagens e, acima de tudo, sem mentiras. A verdade é que não foi necessário plano B, nada de anormal aconteceu em Setembro, não foi necessário usar a cenoura do reembolso da sobretaxa e foi possível cumprir um OE sem ser necessário recorrer a sucessivos orçamentos rectificativos.

Ocorreram divergências, ouviram-se propostas divergentes, tudo isso é verdade, o Jerónimo de Sousa não fez discursos dramáticos com decisões irrevogáveis para depois meter o rabo entre as pernas, a Catarina Martins não teve de engolir tudo o que disse no passado. Ainda bem que há divergência, ainda bem que não há unanimidade impostas por um qualquer califa de Massamá.

Quem fez as declarações? Foi Assunção Cristas que nos últimos dias revela uma grande falta de memória, esqueceu-se das divergências entre Paulo Portas e Passos quanto á redução do IRS que chegou a ser prometida por Paulo portas. Esqueceu-se que em 2015 o CDS teve de engolir em seco e em vez de uma eliminação parcial da sobretaxa inventou o esquema do seu reemboloso, que mais não foi do que uma fraude eleitoral montada pelo seu secretário de Estado Paulo Núncio.

Alguém anunciou impostos antes do OE? alguém tornou públicas divergências dentro da coligação em torno de uma redução do IRS? Tudo isso é verdade, basta cir ao site do Grupo parlamentar do CDS e saber que tudo isso aconteceu em 2014, relativamente ao OE de 2015. O CDS fez questão que se soubesse que o mau da fita era o parceiro de coligação. Foi mesmo a Assunção Cristas que falou em "peça encenada"? Deve estar a falar da pantomina que foram as negociações orçamentais entre o CDS, que se dizia ser o partido dos contribuintes e dos pensionistas, com os seu parceiro de governo.

Umas no cravo e outras na ferradura



  
 Jumento do dia
    
António Saraiva, chefe da CIP

Quem ouvir Saraiva falar até parece que a sua CIP é muito generosa em relação aos trabalhadores e que é frequente darem um chouriço sem exigirem um porco em troca. Este foi o senhor que na hora do golope da TSU festejou a redução das contribuições dos patrões à custa de um aumento equivalente das contribuições pagas pelos trabalhadores, desde esse dia que o presidente da CIP devia ter vergonha de aparecer em público.

A CIP não é uma associação empresarial credível na medida em que não esconde ter objectivos partidários. Além disso é pouco provável que hoje represente as empresas portuguesas no seu todo.

«O objetivo do atual Governo de aumentar o salário mínimo nacional (SMN) para 600€ em 2019 é “meramente político” e “um número sem racionalidade que não tem relação com o crescimento da economia portuguesa”, caraterizou António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), hoje, no Europarque. 

“Não podem exigir-nos que desrespeitemos o acordo que está em vigor até ao final do ano, que define momentos e que tem regras a respeitar. O Governo foi um dos subscritores do acordo e não pode voltar atrás”, alertou. “Os salários não podem subir se não derem algo significativo em troca”, adiantou.

Para o representante dos patrões, só há condições para subir o SMN “se houver estabilidade fiscal e laboral”. Caso contrário, alertou, “não contem com a CIP” para questões como a extensão dos contratos a prazo.» [Jornal de Negócios]

 Bob Dylan




Algumas posições que se vão ouvindo sobe a entrega do Nobel da Literatura a Bob Dylan fazem lembrar as posições de alguns taxistas em relação à UBER:

 O elogio da evasão fiscal

«E mesmo que vá vender bolas de Berlim para a praia, arrisca-se a apanhar com um inspector das finanças que estará preocupado com os recibos.» [Luís Aguiar-Conraria]

Seria fácil responder a este breve comentário de Luís Aguiar-Conraria, um dos colunistas do Observador, lembrar-lhe ia que o governo anterior, muito apoiado nos seus artigos, penhorava e leiloava casas de habitação para cobrar dívidas fiscais bem inferiores ao IVA que os clientes pagam a um "homem das bolinhas" numa semana de vendas.

Há quem não perceba que sucede na economia o mesmo que acontece com os grandes rios, na sua nascente o Rio Tejo, tal como o Amazonas ou qualquer grande rio começa por um pequeno riacho ou mesmo por um barranco ou uma pequena fonte. Na sua nascente o Tejo tem a dimensão geográficas correspondente à dimensão económica do tal homem das bolinhas.

São as centenas de homens da bolinhas, das dezenas de homens dos bares, discotecas e restaurantes de praia que formam um grosso afluente que se junta a outros afluentes, como o das pequenas oficinas e automóveis, dos barbeiros e cabeleireiras, das dezenas de milhares de restaurantes, dos milhares de pequenas empresas de construção civil. Todo estes barrancos, riachos, ribeiras e afluentes vão engrossando o grande rio que é a economia e junto da foz deixamos de perceber qual a água que veio da nascente ou dos milhares de ribeiros que o alimentam depois.

O mesmo sucede com a evasão fiscal e é pena que Aguiar-Conraria não saiba quantos médicos poderiam ser pagos com o IVA que os homens das bolinhas ou os seus patrões metem ao bolso. Mito mais certamente do que o que o governo anterior amealhou com muitas casas vendidas em leilão para recuperar dívidas de centenas de euros. Há muitas formas de defender a evasão fiscal e esta é das mais perigosas porque destrói a noção de cidadania, porque divide os cidadãos entre os que devem cumprir e o que estão dispensados de cumprir os seus deveres, podendo roubar o IVA que lhes é confiado.

      
 Portugal em grande: França copia-nos
   
««Mais um reconhecimento internacional para Portugal: ontem, fomos considerados do mesmo patamar da França de Descartes. Infelizmente, não foi por mérito nosso, mas por eles terem descido ao nosso nível de iliteracia. Iguaizinhos a Portugal no que toca a tresler o que está escrito. A demonstração da indigência francesa foi feita à volta do livro, lançado hoje, sobre François Hollande, Un président ne devrait pas dire ça. Entre confissões e conversas com dois jornalistas, Hollande disse: "A mulher com o véu islâmico de hoje será a Marianne de amanhã." A Marianne é um dos símbolos da França republicana, uma mulher de seios nus que costuma estar nos átrios das câmaras municipais francesas - ao longo de décadas, atrizes como Brigitte Bardot e Catherine Deneuve posaram para ela. A frase de Hollande é clara. Aponta a evolução que ele quer para a muçulmana: que ela se sinta um dia cidadã de parte inteira, igual nos direitos. No livro, ele exprime, por várias vezes, essa mesma vontade de que, "religiosa ou não", ela "se liberte do véu". Pois bem, vários dirigentes da direita francesa leram em "a mulher com véu islâmico de hoje será a Marianne de amanhã" um desejo do presidente francês de que um dia Marianne... ponha véu. Instalou-se uma polémica. Tão comum em nós quando cega o esquerda versus direita (ou versa-vice). Para cá e para lá dos Pirenéus marra-se contra o adversário. Mesmo quando temos uma causa comum contra o inimigo.» [DN]»
   
Autor:

Ferreira Fernandes.

 Bob Nobel, nem menos
   
«Bob Dylan merece o Prémio Nobel da Literatura. Bob Dylan escreve ensaios, ficção e poesia há mais de meio século. Inventou um mundo cheio de personagens, histórias e encantamentos, denúncias, crenças e fantasmas.

Desde que Christopher Ricks defendeu Dylan como um grande autor da literatura mundial que há outros críticos académicos que se divertem a fazer pouco de Ricks. Mas a verdade é que Ricks foi o primeiro a ter a coragem de reconhecer o génio de Bob Dylan.

Dantes toda a literatura se dividia em categoriazinhas de merda – canções, contos, ensaios, reportagens, ficções, peças teatrais, poesia. O júri do Nobel tem feito o enorme favor de voltar a confundir tudo. No ano passado deu o prémio à jornalista Svetlana Alexievich, uma grande escritora que utiliza as entrevistas como matéria-prima para construir textos empolgantes sobre a condição humana.

Está fora de moda falar na eternidade, mas tanto Alexievich como Dylan serão imortais. Escrever é escrever. Um mau poeta será sempre pior do que um bom jornalista. Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais.

A obra de Dylan – que é caoticamente desigual, havendo coisas terríveis ao lado de obras-primas – é uma gloriosa colecção de todas as tradições literárias da humanidade, desde os trovadores aos cantores de blues, desde os contos de fada às orações.

Finalmente temos um Nobel à altura de Dylan.» [Público]
   
Autor:

Miguel Esteves Cardoso.

      
 É mais caro ir a Fátima do que ir ao Crazy Horse
   
«Numa pesquisa feita no Booking, ontem à tarde, saltava à vista que as poucas unidades disponíveis se situam a mais de 20, 30 ou 40 km de Fátima, o que não quer dizer que os preços baixem à medida que nos afastamos do santuário. Em Leiria (onde a taxa de ocupação é bastante elevada) merece destaque o preço para 12 de maio de uma suite no Lisotel, a 32 km do santuário e a 7 km de Leiria: 1488 euros; ou também do hostel Most Art Boutique, que tinha apenas um quarto para a noite de 12 de maio do próximo ano, ao preço de 450 euros. À margem dos hotéis e do crescente alojamento local, vive ainda algum negócio paralelo. Em Fátima, correm ofertas informais de quartos que particulares alugam por mil euros a noite, mas ninguém arrisca dar a cara a falar do assunto.

Mas Alexandre Marto, vice-presidente da ACISO - Associação Empresarial Ourém-Fátima, acredita que essa é uma imagem de Fátima que não corresponde à realidade: "O alojamento local está legalizado. Houve um trabalho enorme desde os anos 1980 até hoje, não apenas no esforço pela requalificação dos hotéis, mas também de legalização do alojamento local." Por isso mesmo acredita que "Fátima deve ser dos destinos mais escrutinados pelas diversas entidades", ao contrário da ideia que muitas vezes persiste.» [DN]
   
Parecer:

Com o dinheiro que se gasta para ver o papa ao longe em Fátima pode-se ir a Paris em executiva ver o Crazy Horse e ainda sobra dinheiro para umas sandes de courato.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Lamente-se a exploração dos que estão convencidos de que há milagres.»
  

quinta-feira, outubro 13, 2016

Reduzir o desemprego combatendo a evasão fiscal

Se um restaurante, como sucede com muitas empresas deste sector, não emite facturas não tem receitas e em consequência não faz sentido que tenha empregados. Isto é, para que a artimanha da evasão fiscal fique completa o dono do restaurante não fica apenas com o IVA que lhes é confiado pelos clientes, no momento do pagamento. Tem de montar toda uma mentira que implica que uma boa parte dos salários não seja declarado e, em consequência, muitos empregados do sector não estão inscritos na Segurança Social.

Isto significa que a evasão fiscal generalizada em sectores como o da restauração, da reparação automóvel, da construção civil e outros conduz a uma evasão fiscal e contributiva em cadeia, traduzindo-se não só na perda de receitas em IVA, mas também em IRC e nas contribuições sociais. Nestes sectores há muitos trabalhadores que não são declarados à Segurança Social ou cujos ordenados declarados ficam no ordenado mínimo, sendo uma boa parte "pago for fora".

Os patrões ganham e os empregados agradecem pois recebem uma parte substancial sem pagarem impostos ou contribuiões sociais. Nalguns casos, principalmente em sectores com uma actividade afectada por factores sanzonais ainda se joga com o subsídio de desemprego. O país acaba por ter muitos desempregados que não o são, as receitas de impostos e contribuições ficam muito abaixo do que deviam ficar e forçando aumentos dos impostos a quem os paga.

No fim todas as estatísticas sociais ficam aldrabadas, um fenómeno de que muitos políticos gostam pouco de falar, mas que qualquer cidadão comum conhece. Nas estatísticas sociais temos mais pobres do que aqueles que na verdade existem, temos muitos desempregados que são trabalhadores na clandestinidade fiscal ou contriutiva. Depois sobrecarregamos a classe média com impostos porque é preciso que as empresas sejam competitivas para criar emprego e que se promova a redistribuição por via fiscal para os pobres serem menos pobres. Ganham os patrões, ganham os empregados que entram no esquema, paga a classe média. Todos ficamos calados porque parece mal denunciar pobres.

O combate à evasão fiscal tem outras virtudes para além de poupar os que são sempre os mesmos a pagar a factura fiscal, aumenta a transparência económica, promove uma concorrência efectiva na economia e, milagre dos milagres, cria emprego, isto é, faz com que os trabalhadores saiam da clandestinidade onde se meteram em conluio oportunista com os seus malditos patrões.

É por estas e por outras que se tem assistido ao fenómeno estranho da criação de emprego sem crescimento económico que o justifique. Isso pode suceder e em larga escala, tantos são os trabalhadores clandestinos que existem nalguns sectores ou que fizeram essa opção depois da vaga de desemprego que ocorreu nos momentos mais difíceis da crise. 


Umas no cravo e outras na ferradura


  
 Jumento do dia
    
Vítor Bento, especialistas em fábulas de porquinhos

Para quem foi o teórico fundamentalista da austeridade, que justificava com o argumento de que os portugueses consumiam demais, e depois de se saber que os que mais foram sacrificados foram os pobres, sem que daí tivesse resultado qualquer progresso económico, mandaria o bom senso que não viesse contar histórias de porquinhos, pois quanto a porquinhos a fábula não começou com o OE de 2017, andam por aí muitos porquinhos que entraram nessa fábula.

Antes de vir dar lições sobre porquinhos Vítor Bento devia fazer um balanço das políticas de que serviu de ideólogo de segunda linha.

«istória infantil dos três porquinhos existe há muito mas foi com ela que Vítor Bento, administrador da SIBS, em entrevista à Rádio Renascença esta terça-feira à noite, se serviu para definir o que julga ser uma política nacional pouco prudente face a um contexto internacional muito arriscado. “É um pouco como a fábula dos três porquinhos. Isto é, se nos esforçarmos por construir uma casa de pedra, resiste mais ao sopro do lobo, do que se estivermos a construir uma casa de palha”, afirma.

Então, que tipo de casa está Portugal a construir? “Estamos a construir uma casa de palha, aí não estamos de facto a fazer o que devemos”, analisa o economista.

A ideia de aumentar as pensões é uma das medidas que o Governo devia ponderar mais, alerta. Estão a ser criadas condições para a “casa de palha” abanar.

O aumento das pensões é uma das medidas que pode avançar no Orçamento do Estado para o próximo ano. Subir as pensões sem ter a garantia de que vamos poder pagar esse aumento no tempo é um erro, “porque estamos a criar expectativas que não vamos poder cumprir”, defende.» [Expresso]

      
 Agradecimento com 1179 anos de atraso
   
«Num discurso de cerca de cinco minutos, Marcelo Rebelo de Sousa referiu que "Portugal deve à Santa Sé o primeiro e decisivo reconhecimento como Estado independente", em 1179, e considerou que se construiu depois um "relacionamento fecundo e especial" que se manteve "praticamente sem ruturas ou descontinuidades".

"É em evocação e homenagem ao que é constante e também ao prestígio pessoal e institucional de vossa eminência, personalidade intelectual e ética, governante perscrutante e incisivo, diplomata experiente e prospetivo, que tenho a honra de entregar as insígnias da Grã-Cruz da Ordem de Cristo, antiga ordem militar, repleta de história e de simbolismo nacional", justificou.» [Notícias ao Minuto]
   
Parecer:

Isto de agradecer ao Vaticano a existência de Portugal desde há 1179 tem a sua piada.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a merecida gargalhada.»
  
 Rapaz ambicioso
   
«Membro da equipa de Luís Filipe Vieira desde as eleições de 2009, Rui Gomes da Silva atravessa um dos momentos mais delicados desde a sua chegada à Luz.

O atual vice-presidente continua sem esclarecer se irá ou não integrar a lista do presidente do Benfica para as próximas eleições – será apresentada na quinta-feira – e, escreve o jornal Record, é elevada a probabilidade de que abandone o clube.

O dirigente vê-se como o homem mais indicado para assumir a vaga deixada em aberto por Rui Cunha, atual ‘número dois’ do presidente ‘encarnado’, e, caso não seja o escolhido, deverá deixar a Luz.» [Notícias ao Minuto]
   
Parecer:

Pobre Benfica se esta personagem alguma vez chegar à sua presidência.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Vomite-se.»

 Violador azarento
   
«Uma idosa de 84 anos sofreu uma tentativa de violação e defendeu-se do agressor, mordendo-o e fugindo do local do crime, em Entre-os-Rios, relatou a GNR do Porto ao Notícias ao Minuto.

O alerta foi dado por volta das 17h30, esta terça-feira, e o indivíduo com cerca de 50 anos acabou por ser detido pelas autoridades.

O homem acabou ainda por precisar de assistência médica devido aos ferimentos causados pela mordidela da idosa, e foi transportado para o Hospital Padre Américo, em Penafiel.» [Notícias ao Minuto]
   
Parecer:

Esperemos que as "virgens" façam o mesmo ao taxista labrego e os cortem rente.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a merecida gargalhada.»

 Anedota
   
«"Foi dito pelo Governo que será difícil que em janeiro se deixe de fazer o pagamento em duodécimos (...) porque será complicado fazer a alteração do sistema informáticos numa administração pública que é vasta", disse Helena Rodrigues aos jornalistas no final da primeira reunião de negociação geral na Função Pública.

O STE considera que as "dificuldades técnicas" apresentadas pelo Governo são "uma falsa questão", uma vez que poderão ser contornadas e irá insistir neste assunto na próxima reunião negocial, que decorrerá na próxima semana.» [Notícias ao Minuto]
   
Parecer:
Parece que só é fácil quando é para tirar, aí as alterações informáticas foram na hora.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Sorria-se.»

 Mais um assassinato em Moçambique
   
«"Era um homem forte do partido e um grande homem", disse à Lusa Afonso Dhlakama, líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), considerando que o homicídio de Jeremias Pondeca "foi uma tragédia triste" para os familiares mas também para o partido, onde era "um pilar".

Dhlakama lembrou que vários membros do partido têm sido executados nos últimos meses, acusando a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, no poder) de estar a tentar fracassar as negociações.

"Vamos continuar em pé, vamos continuar a lutar para a democracia, para que haja de facto alternância governativa", disse Afonso Dhlakama, sublinhando que seria "cobardia" desistir agora, prometendo a continuação da luta "pela democracia" e para "reformar o regime".» [Notícias ao Minuto]
   
Parecer:

A FRELIMO parece querer matar tudo e todos
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «proteste-se»
  

quarta-feira, outubro 12, 2016

O meu carro também quer ir à manif!

O meu carro sente-se marginalizado no seu direito inalienável à manifestação, um direito constitucional e um dos pilares da democracia. O meu carro anda tão desiludido com a democracia portuguesa que já me ameaçou de se mudar para o Google para poder dispensar condutor e ir se mim às manifestações que lhe der na real gana.

O pobre carro nem está com inveja do cão ou do gato cujos direitos constitucionais são respeitados pois que desde que usem trela e lhes limpem os cocós podem ir às manifestações que bem entendem. A revolta do carro não está na inveja mas sim no sentimento de discriminação, não consegue perceber porque motivo os carros dos taxistas, desses senhores que acham que as raparigas virgem servem para ser violadas, podem ir às manifs com os donos e le não.

Pergunta-me a minha modesta viatura se o seu roncar está impedido de se fazer ouvir, ou se é por respeitar as normas em matéria de ambiente e não cheirar tão mal da boca como os fogareiros. O que é certo é que o meu carro não aceita esta discriminação e imagino que sejam muitos os carros que se sintam revoltados. Porque é que o carro do professor que vem à manif a Lisboa tem de ficar em casa, ou estacionado com pagamento do parquímetro, enquanto o do taxista que vem do Porto ou de Braga já pode ir à manifestação com o dono.

O pior é que o meu carro já me começa a chamar idiota, agora diz-me que se eu organizar uma manifestação com 50.000 colegas ninguém me dá ouvidos, a Fátima Campos Ferreira não organiza um Prós & Contras, a PSP limita-se a mobilizar uns agentes barrigudos da divisão do trânsito que estão de folga, o Marcelo ignora a minha existência e não sou recebido por nenhum governante.

Mas se for uma manifestação de 1000 carros a largar fumo, provocando o pânico em velhos  e virgens, a desancar porrada nos UBIS já toda a gente lhes presta atenção, a CMTV está ligada à manif todo o dia, Passos Coelho vem em seu auxílio, a Cristas defende que é tempo de lhes arranjar uma solução, a Fátima Campos Ferreira arma-se em Madre Teresa do Cabo Ruivo, meio governo fica em piquete de urgência, Jerónimo de Sousa manda os seus mais brilhantes deputados para a cabeça da manifestação em busca dos jornalistas da TV.

O meu carro tem razão quando se queixa de que os carros dos taxistas têm o direito constitucional à manifestação e ele não. E ainda goza comigo dizendo que quando eu vou às manifs tenho de pagar transportes públicos enquanto os patrões dos fogareiros levam os empregados à manif de táxi e ficam ana Rotunda do Aeroporto dando entrevistas, assustando as virgens e bebendo minis com sandes de courato.

Umas no cravo e outras na ferradura


  
 Jumento do dia
    
Teodora Cardoso

Afinal a desgraça não foi assim tão grande e Teodora Cardoso que durante meses foi uma endiabrada opositora deste governo vem admitir que Portugal não cumprirá a meta dos 2,5% de défice por pouco, digamos que por um danoninho. Se fizermos a projecção das previsões de Teodora Cardoso teremos de concluir que daqui a dois meses ainda vai concluir que o défice respeita.

Mas, o mais lamentável na posição do seu Conselho Superior de Finanças Públicas está em ignorar o mais importante dos fatores que contribuíram negativamente para as contas de 2016, algo que ignorou todos estes meses, a receita fiscal negativa que resultou dos reembolsos do IVa e dos abusos na retenção na fonte de IRS.

«O Conselho das Finanças Públicas mantém a previsão de que o Governo vai falhar a meta do défice acordada com Bruxelas (2,5%), mas por pouco. No relatório publicado esta terça-feira, a entidade liderada por Teodora Cardoso mantém “em termos prospetivos para o conjunto do ano a projeção que publicou em setembro.” Ou seja: 2,6% do PIB de saldo global e 2,8% quando descontadas as medidas extraordinárias.

A CFP destaca que mantém igualmente os “riscos assinalados” em setembro, “em boa parte decorrentes das especificidades do exercício orçamental de 2016”. Para o segundo semestre, em particular nos últimos três meses, a perspetiva não é otimista nem do lado da despesa (devido ao impacto das 35 horas nos encargos salariais da função pública), nem do lado da receita (com o abrandamento do crescimento da receita fiscal, devido à descida do IVA na restauração e à conjuntura internacional). Como consta no relatório os riscos são:

O aumento das despesas com pessoal (em função da reversão faseada das reduções remuneratórias dos trabalhadores públicos e da diminuição do horário semanal de trabalho dos trabalhadores em funções públicas de 40 para 35 horas a partir de 1 de julho), o impacto negativo na receita do IVA decorrente da diminuição da taxa deste imposto para o sector da restauração a partir de julho, conjugados com o abrandamento do crescimento da receita fiscal e uma evolução da economia nacional e internacional abaixo do previsto no cenário macroeconómico subjacente ao OE/2016 tornam o exercício de execução orçamental na segunda metade do ano (e em particular nos últimos três meses) particularmente exigente.”» [Observador]

 Igualdade?

Pagam menos impostos, terão o exclusivo das paragens de táxis e dos clientes que procurem um transporte de dedo no ar, podem ser arruaceiros apesar de mais meia dúzia de horas de falsa formação, serão deles as praças e mesmo assim têm medo da competitividade da UBER?

 Haja esperança

Com o resgate a Portugal os ideólogos da nossa direita (ou extrema-direita chique) apoiaram uma experiência de política económica inovadora. Com a perda das eleições a esperança passou a ser um segundo resgate, isto depois de todas as rezas para que a execução orçamental fosse um desastre ou para que se aplicassem sanções punitiva ao país. mas parece que a aposta agora é outra:

«O que vai provocar mudanças em Portugal não é o neo-liberalismo ou a Sra. Merkel, são os desequilíbrios e as desadequações do regime vigente perante uma nova economia, como no caso dos táxis.»

O problema é que Rui Ramos não se deve ter apercebido da posição de Passos Coelho acerca da manifestação dos táxis, é ao líder da extrema-direita chique que as suas palavras se aplicam que nem uma luva.

 Volta Miguel Relvas, fazes muita falta

Um dos momentos que marcou a noite dos taxistas foi a intervenção de um dos líderes do sector, discursando já passava da meia-noite e referindo como bandeira a intervenção de Passos Coelho sobre a manifestação. Passos Coelho achou que os voto dos taxistas eram um importante ganho eleitoral e decidiu vir em defesa de uma das partes.

Este Passos já não é o Passos dos primeiros tempos, é o Passos Coelho pós Relvas, um passos pobre de cabeça, sem estratégia, mais parecendo um cata-vento em dia de tempestade.

      
 Lamento pelos taxistas que se perdem
   
«Sou cliente, diário, de dois a três táxis em Lisboa. Devo andar em 800 táxis por ano, sou testemunha experimentada. A metade daria nota negativa pela qualidade do carro, condução ou educação do motorista. Metade se calhar não é uma má média. O taxista gatuno que agarrou a minha nota de vinte euros e a transformou, num ápice, em nota de cinco, é redimido (aconteceu, aliás, de uma semana para outra) pelo taxista honesto que me chamou, já da janela, por eu não ter recebido dez euros de troco que faltavam. Os dois episódios revelam um dos dilemas não resolvidos do taxista. Os comerciantes em geral tentam conquistar o cliente porque, merceeiro ou relojoeiro, eu troco-o por outro se me desagradam - a porta é fixa e eu sei onde param os maus. Já o taxista, chamado pelo meu levantar de braço no passeio, pode achar-se desobrigado de me servir bem. Os maus acham-se, os bons, não. Metade lava a outra, diria eu, se a verdade não fosse oposta: suja. Quando os taxistas em conjunto se metem numa manifestação de força há muitas probabilidades de a coisa correr mal. Os boçais são as vedetas e a lama salpica todos, quer dizer, os bons também. Acresce que a liderança dos taxistas não prima pela inteligência, a prova é convocarem uma manifestação perto do aeroporto da Portela. Aí, a relação entre os taxistas bons e maus não é metade, metade... Um taxista a dizer no aeroporto que a sua causa é justa tem o crédito de Trump a dizer que é um cavalheiro.» [DN]
   
Autor:

Ferreira Fernandes.

      
 O gato está lá por mero acaso
   
«O julgamento das polémicas Festas de São João, em Mourão, Vila Flor, começou hoje com a população da aldeia a alegar que a tradição afinal não é a "Queima do Gato", mas a "Queima do Vareiro", ou seja, de um pau.

O tribunal de Vila Flor, distrito de Bragança, ouviu durante a manhã a maior parte das testemunhas arroladas no julgamento em que a mulher de 64 anos que se disse dono do gato e em que a defesa quer demonstrar que a tradição não é a que tem sido evocado com o fundamento de "tempos imemoráveis".

A maior parte das testemunhas começou por dizer que nunca viu nenhum gato ser colocado no pote atado no cimo de um pau (vareiro) enrolado em palha, à qual era ateado fogo, acabando o pote por cair em cima das chamas com o animal a correr desorientado entre a assistência, como se vê no vídeo da polémica, divulgado na Internet, depois das festas de junho de 2015.» [DN]
   
Parecer:

É uma aldeia divertida.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Sugira-se que nas próximas festas da freguesia metam o presidente da junta em cima da vara.»
  
 Um pequeno engano
   
«Peço desculpa a todos. O que eu queria dizer era o contrário, que as leis são como as meninas virgens, não devem ser violadas.” É assim que Jorge Máximo, o taxista que esta segunda-feira causou revolta ao dizer que “as leis são como as meninas virgens: são para ser violadas”, se retrata. As palavras de Jorge Máximo, associado da Federação Portuguesa do Táxi, ao canal de televisão CMTV geraram uma revolta viral nas redes sociais e podem vir a ter consequências. Com o que disse, o taxista arrisca-se a ser alvo de um processo crime. A Plataforma feminista Capazes está a preparar uma queixa e a ponderar uma carta aberta. A Procuradoria Geral da República ainda não se pronunciou, mas uma jurista da Associação de Mulheres Juristas defende que há matéria para abertura de inquérito.

“É uma declaração muito mais que ofensiva. Consideramos que encerra comportamento criminoso contra as mulheres. É uma declaração produzida na televisão que é real e que incide sobre a dignidade das mulheres. É um incentivo a um ataque sexual e tem de haver uma resposta”, diz ao Expresso Rita Ferro Rodrigues, representante da plataforma feminista Capazes. As juristas da plataforma estão a analisar a matéria legal para enquadrar a queixa, mas as Capazes pensam também em fazer uma carta aberta à Federação Portuguesa do Táxi no sentido desta se demarcar.

Contactado pelo Expresso, Carlos Ramos, Presidente da Federação Portuguesa do Táxi, condenou as declarações e disse que a associação se irá demarcar delas publicamente. Esta não terá sido a primeira vez que Jorge Máximo disse a frase. “É condenável a todos os níveis. É mais uma expressão de um industrial que contribuiu para a má imagem que nós já temos. Deixou mal a classe, e já não é a primeira vez que o diz. Há uns tempos repetiu a frase numa reunião e tivemos de o chamar à atenção.”» [Expresso]
   
Parecer:

Pois, todos percebemos que tinha sido um engano, esperemos é que o seu táxi fique vedado a virgens não vá ter outro engano.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a merecida gargalhada»
  

terça-feira, outubro 11, 2016

A dura lição dos taxistas

Os taxistas sofreram uma dura lição, perceberam que o mundo mudou muito e de um momento para o outro sentiram-se como se fossem figurinistas no filme errado, acabaram atravancados na Rotunda do Relógio, sem saber o que fazer com um líder desorientado a dizer para voltarem na segunda-feira.

Em condições normais os portugueses teriam tido medo, os automobilistas teriam praguejado contra o governo por não ter cedido aos taxistas, a generalidade dos portugueses teria manifestado compreensão com a sua luta. Mas o dia acabou da pior forma para os taxistas, uma Fátima Campos Ferreira lá tentava amaciar posições com ares de Madre Teresa da Televisão, mas mais de 80% os seus telespectadores defendiam que o governo não deveria ceder.

Os taxistas não perceberam que já tinham deixado de ser a quinta coluna de alguns partidos, que os seus carros já não são aceites como salas de comício, que o país já não tem medo das suas ameaças. Depois de uma semana a ameaçarem o país, percebendo-se que se preparavam para se fazerem de vítimas de uma carga policial, foram derrotados em cinco minutos, mas não pelos bastões da PSP, foi uma senhora que os enfrentou e venceu.

E enquanto uma mulher derrotava uma concentração de taxistas, um labrego que transporta cidadãos ganhava notoriedade, armava-se em Donald Trump dos fogareiros, disse para a comunicação social que “as leis são como as meninas virgens, são para ser violadas”. Foi a melhor frase publicitária para as novas plataformas, foi uma frase que sintetiza a imagem que os taxistas criaram de si próprios e que os derrotou. O vídeo do labrego tornou-se viral e todos viram os "corajosos" taxistas a destruírem um carro, tentando agredir o condutor. 

Os taxistas perceberam que não foram só as tecnologias que mudaram, foi a forma de comunicar, de fazer política. De repente os políticos deixaram de ser importantes, ninguém ligou às baboseiras da Assunção Cristas ou às palavras dúbias de Passos Coelho, um dos líderes dos taxistas ainda usou o líder do PSD como seu aliado, mas a verdade é que os políticos apareceram tarde, à hora a que deram a cara já o Twitter fervilhava e o destino da manifestação estava traçado. Quem pensa que influencia os portugueses em vez do ouvir, sejam taxistas ameaçadores ou dirigentes partidários paternalistas, perderam.

O mundo mudou, mas não são apenas os taxistas que não se aperceberam desta mudança. No dia de ontem as negociações entre taxistas e governo ou os debates televisivos nada decidiram, tudo foi decidido pelas novas estradas onde os taxistas não aprenderam a conduzir e onde muitos políticos tentam aprender a circular. Não é só mundo dos taxistas que já não é o que era, é todo o país, desde a economia à política.


Umas no cravo e outras na ferradura


  
 Jumento do dia
    
Marcelo Rebelo de Sousa

Quer como primeiro-ministro, quer como presidente a última coisa que Cavaco alguma vez teve foi sensibilidade social.

«O Presidente da República homenageou esta manhã o seu antecessor no cargo, sublinhando a "sensibilidade social" demonstrada por Cavaco Silva há dez anos, quando elegeu a inclusão como uma prioridade política.

"Quero agradecer-lhe ter sabido compreender o que se passava na sociedade portuguesa, ter sabido eleger a inclusão social como tema do primeiro roteiro presidencial e ter sabido dar o seu próprio exemplo no lançamento da Bolsa de Voluntariado", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa na cerimónia que assinalou os 10 anos do lançamento da Bolsa de Voluntariado, que decorreu na zona de Alcântara, em Lisboa, e contou também com a presença de Aníbal Cavaco Silva.» [Expresso]

 Fogareiros

Há muito que os fogareiros estão convencidos de que são uma força política influente, podendo influenciar o curso político dos acontecimentos com manifestações ameaçadoras ou transformando transportes públicos em salas de comícios da direita. No passado houve mesmo políticos que os cortejaram para assim obterem vantagens eleitorais.

A forma como os representantes ds taxistas se manifestaram no últimos dias roçou o apelo à violência, sendo mais do que evidente que procuram toda e qualquer situação para desencadearem violência, dando razão ao cada vez maior número de portugueses que preferem transportes públicos alternativos.

Os taxistas não perceberam que já perderam esta guerra e o problema não está nem no governo, nem das plataformas da concorrência, o problema está nas novas gerações que não aceitam ser tratadas como os taxistas estão habituados a tratar os clientes. Não é só um caso de mudança tecnológica, é também um problema de mudança cultural e basta ir a uma praça de táxis para se perceber isso, os taxistas não mudaram de cultura e os jovens preferiram mudar de transportes.

 Marcelo causa revolta nos táxis, mudou para a UBER!

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 Benefício fiscal sem sentido
   
«O Governo está a preparar a introdução de incentivos fiscais para os contribuintes que utilizem transportes colectivos, disseram ao PÚBLICO fontes governamentais. A medida faz parte de um conjunto mais vasto de incentivos ligados à fiscalidade verde, que estão incluídos na proposta de Orçamento do Estado para 2017 (OE2017), que será entregue na Assembleia da República na sexta-feira.

A ideia em estudo pelo executivo é permitir a dedução à colecta do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (IRS) das despesas com bilhetes ou passes de autocarro, comboio ou metro, tal como existe hoje, por exemplo, com as despesas de educação ou as deduções pela existência de factura.

O modelo de implementação da medida não está ainda fechado e em discussão contínua estão não só quais os montantes a deduzir — se a totalidade ou apenas parte — como a clarificação de quais os transportes colectivos que serão elegíveis para que o benefício fiscal possa ser utilizado.» [Público]
   
Parecer:

Ao ser criado um benefício fiscal a ser concedido a quem usa transportes públicos está sendo criada uma injustiça fiscal. Ter transportes públicos e usá-los não é um sacrifício, é um privilégio. Um sacrifício é viver a 50 ou 60 km de um hospital onde se tem de ir fazer uma consulta e não existirem transportes públicos,  tendo-se de recorrer a um táxi ou usar viatura privada.

Faz sentido que um cidadão que tem um metropolitano que o leva da porta de casa à porta do emprego tenha um benefício fiscal por usar um transporte fortemente subsidiado, enquanto um cidadão de Alcoutim quase não tenha acesso a transportes públicos?

Não faz sentido confundir despesas de saúde com despesas em transportes públicos, todos os portugueses têm despesas de educação, mas apenas alguns têm acesso a transportes públicos.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Manifeste-se a oposição a este tipo de benefício fiscal.»
  
 A vingança serve-se azeda
   
«Numa entrevista ao Diário de Notícias, Carmona Rodrigues admite que vê Assunção Cristas como a líder ideal para Lisboa e que já lhe disse que apoiaria a sua candidatura.

O antigo autarca — que venceu Lisboa com a maior votação de sempre para o PSD (apesar de ser independente) — afirmou que apoia o CDS nas próximas eleições autárquicas. Carmona considera que Assunção Cristas é uma “pessoa jovem, corajosa, que fez um trabalho excelente como ministra e de forma muito eficaz”.» [Observador]
   
Parecer:

Pobre Carmona, ainda é alérgico ao Santana.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Sorria-se.»

 Divergência profunda com taxistas
   
«“A vontade dos taxistas em criar um contingente a uma atividade económica”, afirmou, explicando que esta reivindicação não pode ser respondida dado que “não é possível contingenciar uma atividade comum no mercado que não estão sujeita a regras, exigências e benefícios como as do serviço publico”.

Matos Fernandes fez saber que o que está a ser feito é uma tentativa “de regulamentar uma nova atividade de transporte de passageiros, sobretudo onde ela existe – Lisboa, Porto e também no Algarve. A regulamentação desta nova atividade incide na regulamentação das plataformas e na regulação dos operadores dos veículos e dos motoristas”, explicou, no final de uma reunião que considerou ter sido “produtiva”, embora tenha defendido que o protesto envolve uma dificuldade na tomada de decisões.» [Notícias ao Minuto]
   
Parecer:

A grande divergência  dos taxistas é com o século XI pois os taxistas de hoje sem mais incompetente e mal formados do que os da primeira metade do século XX.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Mandem-se os fogareiros bugiar.»

 A UBER agradece
   
«A aplicação da Uber é a mais popular da App Store da Apple e está em 13.ª na Play Store. Em dia de manifestação dos taxistas a mais conhecida das plataformas de transporte parece ter mesmo recebido um impulso na popularidade.

A Cabify, outra plataforma de transporte, está em 30.ª na Apple Store.

No fim de semana, a Uber avisou os clientes de que a manifestação dos taxistas poderia causar dificuldades de circulação e incentivou-os a partilhar boleias. Aconselhou ainda a contactar o condutor, caso a demora fosse superior ao esperado.» [DN]
   
Parecer:

Era de esperar.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Sorria-se.»

 Taxista tipo Trump
   
«Durante o dia de hoje vários foram os taxistas que falaram à comunicação social, demonstrando o seu descontentamento e o motivo de estarem em protesto.

No calor dos protestos, um homem visivelmente indignado falava à CMTV e afirmou que "as leis são como as meninas virgens, são para ser violadas"

O taxista tentava assim explicar porque se sente "injustiçado", considerando que vivemos uma situação em que as leis "são para cumprir apenas para alguns". Mas a expressão utilizada indigna muitos internautas, em especial nas redes sociais. Numa página do Facebook, o vídeo contava em poucas horas com mais de 25 mil visualizações.» [DN]
   
Parecer:

Como é que esta gente consegue concorrer com a UBER?
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Vomite-se.»

 Assim não
   
«O primeiro-ministro afirmou hoje que a sobretaxa de IRS vai desaparecer totalmente em 2017 e que a carga fiscal será mais reduzida para a generalidade das famílias, dando-se prioridade a um desagravamento dos impostos sobre o trabalho.

António Costa falava a meio do seu terceiro dia de visita oficial à China, depois de interrogado pelos jornalistas sobre um eventual aumento da carga fiscal em Portugal no próximo ano - perspetiva que o líder do executivo rejeitou.

"Houve uma redução da carga fiscal em 2016, que vai prosseguir em 2017. A generalidade das famílias portuguesas já não pagou sobretaxa de IRS em 2016 e em 2017 a sobretaxa vai desaparecer totalmente para todas as famílias portuguesas", declarou o primeiro-ministro.» [DN]
   
Parecer:
O primeiro-ministro começou por dizer que falaria do OE quando este estivesse encerrado ou que não falaria dele enquanto estivesse na China. Parece que mudou de ideias e faz para dizer que a sobretaxa do IRS vai acabar em 2017, resta agora saber se acaba em 1 de Janeiro ou em 31 de Dezembro. A verdade é que para os que mais pagam de IRS não acabou em 2016, pelo que, no mínimo, teriam direito a respostas mais claras, em vez de jogos de palavras.

Será que para os quadros mais qualificados a solução é mesmo emigrar porque em Portugal alguém que ganhe o mesmo que um trouxa na Suiça é tratado em termos fiscais como se fosse rico? No caso dos funcionários públicos já estão sujeitos a austeridade desde 2008, pelo que estes jogos de palavras típicas de quem vê os problemas de um prisma meramente político começa a ser irritante.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dividam-se os sacrifícios por todos!»
  

segunda-feira, outubro 10, 2016

Os fogareiros têm razão

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Não é aceitável que andem por aí condutores a trabalhar para a UEBR sem qualquer educação, revelando sinais evidentes de falta de formação. Ao contrário dos UBER os nossos taxistas são pessoas com educação de fino recorte, percebe-se logo que receberam formação, percebem de línguas, conhecem todas as regras da etiqueta.

Ao contrário dos nossos taxistas que se vestem impecavelmente os UEBR cheiram mal, têm a barba por fazer, a camisa fica fora das calças e com os botões abertos até ao umbigo. Sinál óbvio de que vale tudo neste mercado de trabalho desregulado defendido pelos UBER, qualquer indivíduo serve para transportar e velar pela segurança de passageiros de transportes públicos, são arruaceiros, têm mau aspecto e tratam os clientes com falta de educação.

Quando apanhamos um táxi dos nossos sabemos que iremos ser bem tratados, não importa se o percurso é de cem metros ou de dez quilómetros, somos recebidos com um sorriso e despedem-se com gentileza. Dos arruaceiros da UBER não se pode dizer o mesmo, preferem bons clientes dos aeroportos, praguejam quando os percursos são curtos e cobram taxas por tudo e por nada.

Cidadão com dois dedos de juízo prefere que a sua filha regresse de uma noite divertida nas Docas num dos nossos táxis conduzidos por gente que merece confiança a toda a gente. Deixar uma filha entre a um UBER é um perigo, é gente arruaceira, e perigosas, nunca se sabe o que pode acontecer.
Os taxistas têm toda a razão em protestar, ao contrário dos UBER são todos bem formados, pagam todas as contribuições e impostos, são gente profissional e educada, são profissionais exemplares, diria mesmo que são os profissionais que mais confiança merecem da parte dos portugueses. 

É difícil de perceber porque é que gente tão perigosa, mal educada e vigarista está tendo sucesso no nosso país.

Umas no cravo e outras na ferradura


  
 Jumento do dia
    
António Saraiva, camarada da CIP

Por vontade do ex-dirigente da CIP e antigo militante do PCP os trabalhadores não deveriam ganhar para comer a fim de assegurar a competitividade de empresas preguiçosas que apenas sabem aumentar a produtividade reduzindo salários, só assim se explica que as empresas portuguesas só conseguem competir na Europa com salários que são metade dos da concorrrência.

«O presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), António Saraiva, defendeu que o salário mínimo nacional (SMN) não deverá exceder os 550 euros.

“Reconhecemos que 530 euros é um valor baixo e temos que crescer nesse valor”, mas “nas contas da CIP não chega aos 550 euros”, afirmou António Saraiva, em entrevista à TSF e ao DN, este sábado.

O responsável sustentou que o aumento do SMN deverá ter em conta o contexto do país, nomeadamente as dificuldades de financiamento das empresas.

“Vamos ser razoáveis: se o Governo congela os ordenados da Função Pública, por razões que todos conhecemos (...), quando o que está em discussão para as pensões são 10 euros, quando temos esta realidade, as dificuldades em que nos encontramos todos e as empresas não são exceção, quando temos as dificuldades de financiamento, querer fazer coisa diferente na politica salarial das empresas” será negativo, justificou.» [Expresso]


 Dúvidas que me atormentam a alma

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De certeza que os Estados Unidos são um país civilizado ou aquilo começa a ser um califado de idiotas? O problema não está nas baboseiras que o Trump diz, está nos mais de 40% de americasnos que dizem ir votar nele que gritam de forma histérica qualquer que seja a barbaridade que ele diz.

 A justiça fiscal segundo Passos Coelho

Passos Coelho decidiu teorizar sobre as vantagens dos impostos directos em relação aos indirectos. Sugere que os primeiros são mais justos e isso é tuido menos verdade, depois de ter decido sujeitar apenas alguns às suas medidas de austeridade, agora pretende eternizar essa situação, tudo fazendo para que seja reposta a justiça. Passos, tal como já tinha sucedido com portas, é um falso amigo dos contribuintes. Os únicos amigos de Passos são aqueles a quem ele perdoou na aplicação de medidas de austeridade, os ricos, é assim a fiscalidade da extrema-direita chique que quer regressar ao poder.

 O livro do "alcoviteiro" de Belém

Não é fácil fazer um comentário sobre o livro “Na sombra da Presidências”, da autoria de Fernando Lima, antigo assessor de imprensa de Cavaco Silva, ao longo de quase toda a sua carreira política. Não sei se é um livro de alguém vingativo ou se de alguém que ao longo de quase toda a vida serviu um político e teve como paga uma dispensa motivada por cobardia. Não sei se é de alguém lúcido ou se de um jornalista que depois de anos a construir a realidade política acabou por a confundir com os seus próprios fantasmas.

É um livro contraditório, por um lado evidencia-se um servilismo quase canino em relação a alguém tão humano como qualquer um de nós, uma lealdade que não foi premiada na hora da verdade. Não se percebe se Cavaco é elogiado ou se é apresentado como um produto político moldado pelo assessor. De certa forma este livro trz-me à memória o testamento político de Miguel Relvas, nele o ex-ministro quase diz que Passos foi uma invenção sua, não se percebeu se estava a elogiar o líder ou se num momento de vingança procura desmascarar a sua invenção.

O autor tenta provar que foi vítima de uma cilada, mas o tema principal são escutas, espiões e manobras secretas. Lisboa parece ser a Berlim da Guerra Fria, quase recuamos aos tempos da Segunda Guerra Mundial, quando a nossa capital também era povoada de espiões. Mas ao contrário da Lisboa da guerra e da Berlim da Guerra Fria nesta Lisboa só os maus escutam, espiam, perseguem, atemorizam e os maus são sempre comandados pelo diabo feito Sócrates.

Se o espião é do PSD tem um amigo que por sua vez é amigo de Sócrates e, portanto, todos, da direita à esquerda, são espiões, provocadores, informadores, vigilantes ao serviço de Sócrates. Até este modesto blogue, criado quando Sócrates ainda usava fraldas, no início da sua carreira política, era um instrumento ao serviço de Sócrates. Como vamos ver, era mesmo uma das mais perigosas armas de Sócrates. Até se sugerem gorjetas para alimentar o burro.

Os meus sentimentos em relação ao autor, ainda estive para ir à apresentação do livro e apresentar-me no momento do autógrafo, mas não sei como me deveria apresentar já que no livro sou várias personagens. Ainda pensei convidar o autor para uma troca de palavras, mas não sei se ele está interessado em confrontos com uma realidade que pode não ser a sua.

Não deve ser fácil ser abandonado por alguém que se tinha por amigo há décadas, alguém que estamos convencidos de que tudo nos deve, desde as maiorias absolutas aos livros dos roteiros, chegar ao fim de uma carreira e quando esperamos coragem de alguém que ensinámos a ser corajosos vemos o homem que não quisemos ver e em vez de um gesto solidário somos cuspidos como se fossemos uma pastilha elástica inútil de tanto ser mastigada.

Não sei o que sentir em relação a Fernando Lima, não é pena, não chega a ser ódio, não é vontade de rir e muito menos de chorar. Mas não gostaria de ter ido tão alto como ele para depois conhecer o lado mais baixo dos outros. Precisou de décadas para conhecer o Cavaco que sempre vi.

      
 Para lá da geringonça
   
«Os principais indicadores económicos não deixam margem para dúvidas: um crescimento económico anémico, um reduzidíssimo investimento público e privado, a taxa de poupança a níveis preocupantes, as exportações a decrescer e, claro, a dívida a aumentar. Desta forma, e não havendo perspetivas de a política europeia mudar de forma significativa nos próximos tempos, estamos condenados a um pântano que irá criando cada vez mais desalento, falta de horizonte e uma degradação da situação social que, inevitavelmente, acarretará problemas políticos.

No entanto, temos uma situação política estável e pacífica. O nosso sistema político--partidário não sofreu, nem parece em risco de sofrer, transformações relevantes, não há no horizonte forças populistas, os partidos não crentes no capitalismo e defensores de confrontações com a Europa estão calmíssimos e presos a uma solução que lhes limita a ação. E, dado também raro nos países que mais penaram e penam com a crise, os dois partidos centrais no quadro partidário mantêm a sua força relativa.

Importa perguntar, se a presente solução governativa não existisse poderíamos dizer tudo isso? Não, não podíamos. Concorde-se ou não com a maioria das medidas deste governo, critique-se ou não o cerne do acordo entre o PCP, o BE e o PS.

Em primeiro lugar, não me parece que existam dúvidas de que se o PS tivesse viabilizado um governo PSD-CDS, quer através de abstenções violentas quer estando no executivo, já estaria em curso a pasokização dos socialistas. A oposição estaria concentrada no BE e no PCP, que, por esta altura, teriam já uma enorme relevância e crescido nas intenções de voto. E, com certeza, com um discurso muito mais violento em relação aos compromissos europeus. O facto é que estes dois partidos sacrificaram muitas mais das suas bandeiras do que o PS. Bem sei que não é esse o discurso da oposição, mas o problema desse discurso, como outros aspetos, é o de não casar com a realidade. No fundo, a questão vital é: este governo pôs em causa os compromissos europeus - apesar de um salutar não comer e calar tudo? Claro que não. Não era a narrativa do BE e do PCP confrontativa com a Europa ? Claro que sim. Assim sendo... Trazer estes dois partidos para próximo da governação não só os obrigou a uma, digamos, responsabilização como a um discurso bem menos radical - é ver Catarina Martins a recusar-se a traçar linhas vermelhas.

Aliás, não é por nenhum tipo de gosto especial por esta solução governativa ou pela ideologia dos partidos que a compõem que o Presidente da República a tem ajudado. Abrir o leque de possibilidades de acordos para a governação num sistema constitucional não desenhado para que se obtenham maiorias dum só partido, moderar partidos radicais e garantir que os partidos do centro não se diluam são aspetos que o garante pelo bom funcionamento das instituições e pelo equilíbrio do sistema não pode deixar de levar em conta.

Há quem pense que se perdeu o centro, que esta divisão marcante entre direita e esquerda, que se afirma ser uma das consequências dos acordos de governação, perdurará por muito tempo. No fundo, defende-se que os acordos à esquerda fizeram que o PSD se acantonasse à direita. Nem uma coisa nem outra são verdade. Primeiro, a governação está longe de se afastar duma matriz social-democrata, há pouco tempo e em termos europeus pareceria absolutamente comum, as companhias do PS não o afastaram, nos temas essenciais, dessa linha. Em segundo, foi o PSD que, como nunca, se encostou à direita.

Ora, nem o PS abandonou o centro nem o PSD está, muito longe disso, definitivamente afastado do centro político que sempre foi o seu lugar. O facto é que a base social de apoio do PSD não partilha dos valores ideológicos e programáticos da atual direção. Não houve uma súbita viragem à direita do eleitorado do PSD. Basta conhecê-lo muito vagamente para se saber que é um defensor do Estado social, da escola pública, de um Serviço Nacional de Saúde forte e desconfiado de muitas privatizações feitas, só para dar alguns exemplos. O PSD nunca foi um partido de direita como, por exemplo, o PP espanhol. Foi flutuando entre o centro-esquerda e o centro-direita, conforme o líder. Para um pragmatismo centrista com Cavaco, para o centro-direita com Durão, para o centro com Santana, para o centro-esquerda (sim, não há engano) com Manuela Ferreira Leite. Só Passos Coelho quebrou as margens em que o PSD foi navegando ao longo da sua história. Não é difícil de prever que a próxima direção do PSD será centrista e verdadeiramente social-democrata. É que só esse caminho o fará regressar ao poder. Mudem as circunstâncias complicadas em que vivemos e os acordos ao centro voltarão.

Repito, não se pretende avaliar a governação, mas o que a solução ajudou a criar num quadro mais amplo e que ultrapasse a conjuntura. O facto é que a gerigonça salvou o PS e em larguíssima medida a saúde do sistema partidário. No fundo, foi preciso mudar alguma coisa para que no futuro tudo continue na mesma. Só que desta feita ficar na mesma é uma boa notícia.» [DN]
   
Autor:

Pedro Marques Lopes.