domingo, setembro 28, 2008

Semanada


Manuela Ferreira Leite reapareceu numa semana agitada para fazer uma importante declaração política, acusou o PS de ser masoquista por insistir em perguntar-lhe por ideias e projectos. Só que não reparou que não deve ser só o PS a questionar-se porque razão Manuela Ferreira Leite quer chegar a primeira-ministra sem dizer o que vai fazer, limitando-se a escrever e dizer o que Pacheco Pereira lhe sugere. Eu até já pensei se devia ir tratar-me a um psicólogo ou dedicar-me aos cabedais.

Curiosamente Manuela Ferreira Leite até tinha bons motivos para chamar masoquista a Sócrates, é preciso sê-lo para andar por esse país a distribuir computadores pelos putos enquanto o trabalho se acumula na sua secretária.

Quem também anda a atormentar-se com autoflagelações é o Pacheco Pereira que andou a semana a desancar no Magalhães, primeiro porque o Magalhães andou na enganar –nos e não é português, é um mestiço de muitas nacionalidades, depois embirrou com a RTP porque a estação de televisão deu demasiada importância e destaque ao Magalhães, por fim vei manifestar as suas interrogações sobre as vantagens pedagógicas do Magalhães. Só resta esperar que para a semana se lembre de questionar a cor do Magalhães, ainda vai sugerir que aquela cor azul lhe dá um ar de Viagra do Governo.

Quem também deve andar com um pé no galho nestas coisa do masoquismo é o Marques Mendes, depois de ter prometido deixar a política veio lançar um livro com uma mega operação que ocupou a comunicação social durante uma semana, em poucos dias chamou mais a atenção do que enquanto foi líder do PSD. Para quem não quer (não quererá mesmo?) substituir Ferreira Leite acabou por dar uma lição de boa política à líder e ofereceu-lhe um livro de ideias a ela que acha que a sua ausência estimula o masoquismo alheio.

Quem também deve ser masoquista é Pedro Santana Lopes que à volta com um processo quer voltar a ser candidato a Lisboa e, como se isso não bastasse, aguarda uma conversa com Manuela Ferreira Leite, precisamente quem mais o combateu e que, por fim, o substituiu no cargo de líder parlamentar. Enfim, vai ser uma reunião entre a má moeda e uma antiga moeda de colecção.

Outro que também deve ter tendência para o masoquismo é o inspector-geral da ASAE, depois de ter caído no descrédito, quase fechando o governo depois de ter fechado tudo quanto conseguiu, tem vindo a aparecer aos poucos, agora com intervenções onde tenta recuperar a imagem de protector da saúde dos cidadãos. A última vez que voltou a aparecer na comunicação social foi por causa dos produtos lácteos chineses, agora é só esperar que se anime e vá fechar o que não fechou na primeira fase, talvez seja desta que o masoquismo tenha como consequência a sua demissão.

Valentim Loureiro também se revelou uma masoquista por obrigação de cidadania, está todo contente por ir a julgamento esclarecer que é inocente no negócio dos terrenos que foram comprados por um milhão para uns tempos mais tardes serem vendidos a cinco milhões. Coitado do homem, atendeu a senhora que queria vender os terrenos à CML, não lhe foi possível fazer a boa acção e acabou embrulhado num negócio de empresários lá da terra, que por coincidência são familiares ou amigos próximos. É caso para dizer que é preciso ser masoquista para se ir para autarca.

Para terminar, veio João Salgueiro, presidente da Associação dos Bancos, concluir que os portugueses são mesmo masoquistas, mesmo tesos endividam-se até à medula, recorrem aos bancos para tudo, desde férias a iPhone para o filho. Vítimas do masoquismo bancário dos tugas os nossos banqueiros sacrificam-se, fazem das tripas coração para conseguirem emprestar todo o dinheiro que os clientes lhes pedem.

Umas no cravo e outras tantas na ferradura

FOTO JUMENTO

Pinguim, Oceanário de Lisboa

IMAGEM DO DIA

[Andre Penner-AP]

«An official of the Ministry of Agriculture displays dead canaries at Sao Paulo International airport. Brazilian officials said a Portuguese man was arrested trying to smuggle 200 wild Peruvian canaries through the airport. The birds were cooped up in four cages inside two suitcases. Sixty-five of them were dead from suffocation or dehydration.» [Washington Post]

JUMENTO DO DIA

Pacheco Pereira

O mesmo Pacheco Pereira que elogiava Sócrates no tempo em que Menezes liderava o PSD e metia o símbolo do partido de cabeça para baixo no seu blogue decidiu agora mudar de ideias e detestar Sócrates, aliás, o seu ódio a Sócrates é proporcionalmente inverso aos resultados de Manuela Ferreira Leite nas sondagens. E coimo as sondagens têm vindo a remeter a líder do PSD para o patamar que merece, apesar de seguir religiosamente os conselhos de JPP ao ponto de parecer uma marionete, o guru arde de ódio.

Agora escolheu o Magalhães para dizer tudo o que vem à cabeça, não percebendo que a sua opinião só chegam aos que normalmente não mudam de opinião. Perdeu o controlo ao ponto de comparar o primeiro-ministro com Valentim Loureiro, o seu camarada que "dava frigoríficos e outros electrodomésticos", classifica Sócrates como "um típico tecnocrata, mais autodidacta do que com uma formação profissional sólida", suspeita de "obscuridades sobre como este projecto apareceu", quer saber se "saber se a distribuição de computadores individuais para as crianças do ensino básico tem sentido pedagógico e utilidade no combate à info-exclusão".

É ridículo ver um Pacheco Pereira que há uma semana só estava preocupado com a nacionalidade do Magalhães e o destaque que a comunicação social, vem agora manifestar muitas preocupações com as questões pedagógicas. Anda há mais de duas semanas a protestar contra o Magalhães e só agora se preocupa com as criancinhas?

A verdade é que JPP está a sofrer de uma grave crise de dor de corno, deve doer ver o PS sobreviver aos preços dos produtos alimentares, aos preços dos combustíveis, aos boicotes dos camionistas, à vaga de crimes e à crise financeira, enquanto a sua Manuela Ferreira Leite se afunda nas sondagens, com medo de falar e de apresentar as suas ideias.

É ridículo ver um Pacheco Pereira desesperado, ouvindo as piadas de Luís Filipe Menezes, vendo Marques Mendes roubar o protagonismo à líder do PSD, enquanto o PS sobrevive e o PSD de Manuela Ferreira Leite definha. Ele sabe que o que conta são as eleições e que vai ser o maior derrotado, foi ele que inventou a ideia de que com a Manuela Ferreira Leite o PS não alcançaria a maioria absoluta. Parece que já o percebeu, só isso o pode levar a ter tanto ódio contra o coitado do Magalhães.

O GOOGLE ESTÁ DE PARABÉNS, FEZ DEZ ANOS

MASOQUISTA?

Manuela Ferreira Leite chamou masoquista ao PS por lhe pedir para expor as ideias e projectos. Bem, terei que confessar que também sou masoquista, como Manuela Ferreira Leite não foi escolhida nem pelos seus dotes físicos nem pelo seu desempenho brilhante nos cargos governamentais que já desempenhou também aguardo pelas suas ideias e propostas, afinal é para isso que alguém se candidata à liderança do PSD e do Governo. Aliás, sou masoquista em relação a todos os dirigentes partidários.

É lógico que um partido que governa e é criticado queira saber quais são as ideias e propostas alternativas, já que até agora a líder do PSD tem assumido o papel de pivot do boletim meteorológico.

EUROPA E O PROBLEMA AMERICANO

«O presidente da Comissão Europeia, o ‘nosso’ Durão Barroso, descobriu agora os malefícios do “unilateralismo” americano no mundo de hoje. Arrependido, «ex officio», dos tempos do seu americanismo militante, quando se curvava em mesuras perante o “George” na cimeira das Lages, jurando a pés juntos que o seu “amigo George” era incapaz de mentir e que ia atacar o Iraque porque tinha provas das armas de destruição maciça de Saddam Hussein - que ele, Barroso, havia visto com os seus olhos - o comissário-chefe dessa coisa difusa a que insistimos em chamar Europa resolveu agora escrever um «dazibao» aos dois candidatos à próxima presidência dos Estados Unidos, dando-lhe conta dos sentimentos actuais de um europeu. A Europa, diz Durão Barroso, quer que o próximo Presidente americano perceba que não pode passar sem ela; que se renda ao “multilateralismo”, deixando de se comportar como o único actor global; que aceite a reforma das instituições que a Administração Bush tratou de tornar obsoletas e inúteis, como a ONU, o FMI, o Banco Mundial; que aceite a presença de outros «players» emergentes na cena mundial, com direito a audição e participação nas decisões, que reconheça que há problemas sérios à escala planetária que não podem continuar dependentes da agenda doméstica de um Presidente dos Estados Unidos. Tudo coisas óbvias e consensuais e que agora são fáceis de dizer. Há uma década, a ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright, classificava os Estados Unidos como “a nação indispensável”. Oito anos de desastrada gestão de Bush encarregaram-se de nos ensinar amargamente que as coisas podiam mudar: os Estados Unidos tornaram-se hoje a nação dispensável - de bom grado dispensaríamos a contribuição que deram para o estado do mundo, nestes últimos tempos. Em oito anos, a nação que a dupla Clinton-Gore havia deixado na prosperidade e no caminho de uma efectiva e inteligente liderança mundial transformou-se num dos problemas do mundo, ao lado da Al-Qaeda e do fundamentalismo islâmico ou do aquecimento global. Os Estados Unidos que George W. Bush vai deixar em herança são o maior consumidor de energia e matérias-primas à escala global; o maior poluidor do planeta e o mais feroz adversário de todas as convenções e tentativas de inverter o caminho para o caos - tendo a Casa Branca chegado ao extremo de falsificar relatórios científicos para tentar provar que o aquecimento global não existia; são o principal factor de provocação do terrorismo islâmico e o maior destabilizador da paz no Médio Oriente, nos Balcãs, no Cáucaso; são o mais hipócrita defensor de um comércio global livre e justo, que defendem no papel e tratam de sabotar na prática, sempre que lhes dá jeito; e são, conforme se tornou agora exuberantemente exposto, o grande agente e exportador da crise económica mundial, graças à ganância dos amigos de Bush e à cumplicidade cooperante deste. Eis a herança do ‘amigo George’. Não admira que até Durão Barroso seja agora capaz de negar três vezes que o conhece. E, todavia, só se deixou enganar quem quis. Os americanos, claro, e é por isso que a América é uma nação perigosa, porque tanto se podem entregar a um Roosevelt ou a um Clinton como a um Nixon ou a um Bush. Mas não só os americanos: também essa geração de dirigentes europeus enfatuados, que parecem desprovidos de pensamento próprio, mesmo quando se trata de questões que tocam muito mais de perto à Europa do que à América, como são os Balcãs, o Médio Oriente ou as relações com a Rússia. Toda a gente sabia que Bush era um completo ignorante em matéria de política externa, dotado daquela ignorância arrogante que se encontra no americano médio, que está convencido de que, fora dos Estados Unidos, nada mais conta e nada mais interessa, e que o mundo inteiro vive no desejo de poder imitar o estilo de vida e os ‘valores’ americanos - os únicos justos e conformes à vontade de Deus. Mas a ignorância é uma arma perigosa nas mãos de um homem poderoso, e dizem que o Presidente dos Estados Unidos é o homem mais poderoso do mundo. Foi a ignorância de Bush que conduziu os Estados Unidos ao caos e fez do mundo um lugar infinitamente mais perigoso. Tudo era por demais evidente que assim seria, mas a «intelligentsia» europeia que ditou moda nos últimos tempos havia decretado, qual «fatwa», que duvidar da infalibilidade americana era crime de “antiamericanismo primário” - uma doença mental de diletantes ou “órfãos do comunismo”. Corremos o risco de ter mais do mesmo. A semana passada, durante uma entrevista à televisão espanhola, ficou a perceber-se que o candidato McCain - tido como um “especialista” em política externa - não sabia que Rodriguez Zapatero é primeiro-ministro de Espanha, o que equivale a dizer que não acha que a Espanha seja uma nação suficientemente importante para interessar um Presidente dos Estados Unidos. E a candidata a vice-presidente, a dona-de-casa do Alasca, Sarah Palin - que até ao ano passado nunca tinha pedido um passaporte para sair dos EUA - só terça-feira passada se encontrou pela primeira vez com um dirigente estrangeiro. Puseram-na nas mãos do ‘guru’ Kissinger para um «brain-storming» intensivo e trataram de introduzi-la à pressa ao resto do mundo, começando pelos amigos: os Presidentes da Geórgia, Ucrânia, Iraque e Afeganistão. Graças a uma indiscrição da CNN, cujo repórter se conseguiu aproximar da senhora mais do que os seguranças consentem, ficou a saber-se que, na quarta-feira, Kissinger tratava de lhe explicar quem era Sarkozy. A coisa promete... O que está errado na carta de Durão Barroso aos candidates às eleições americanas é o tom de pedido: a Europa pede aos Estados Unidos que a levem em conta. Dir-se-ia que a factura de Omaha Beach nunca mais está saldada... Mas venha Obama ou McCain, não há mais tempo a perder nem mais desculpas para que a direcção política europeia continue eternamente a resguardar-se nos interesses da ‘Aliança Atlântica’ para não assumir as suas responsabilidades. A Europa tem de ter uma política externa e uma política de defesa autónomas, que não dependam da NATO nem da ignorância geopolítica dos presidentes americanos. Tem de ter uma estratégia própria para as crises dentro das suas fronteiras e no seu perímetro. Uma estratégia própria para os Balcãs, para o Médio Oriente, para o Magrebe, para o Irão. E, claro, para a Rússia, que é um dos seus principais fornecedores de gás e petróleo e um parceiro indispensável para a manutenção da paz e para a resolução de crises regionais onde os interesses estratégicos americanos só atrapalham. A Europa não tem qualquer interesse em ver mísseis americanos a cercar a Rússia, nem em envolver-se, à sombra da NATO, em intervenções sem sentido e que, em última análise, apenas podem ressuscitar o espírito de guerra-fria sepultado em Berlim há quase vinte anos. Desgraçadamente, toda a gente parece concordar num ponto: não é com esta geração de políticos europeus que a Europa se conseguirá afirmar e construir. Precisamos de estadistas, de visionários, e só temos malabaristas da política e mestres da conjuntura e do vazio. Uma geração muda-se de cima para baixo, começando por mudar as opiniões públicas. É isso que se torna urgente fazer.» [Expresso assinantes]

Parecer:

Por Miguel Sousa Tavares

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

AS PERGUNTAS QUE DEVEM SER FEITAS SOBRE O "MAGALHÃES"

«As entregas de computadores nas escolas pelo primeiro-ministro são uma peça essencial da propaganda governamental de sucesso garantido a abrir um ano eleitoral. Como é óbvio, ninguém deixa de gostar que lhe dêem coisas. Valentim Loureiro dava frigoríficos e outros electrodomésticos, coisas que ninguém pode achar serem inúteis e desvantajosas para quem as recebe, Sócrates "dá" computadores, um objecto cuja aura é hoje superior ao frigorífico, e que vem envolvido com toda uma retórica de modernidade, que ninguém se atreve a contestar. Uma das características deste Governo é um grande deslumbramento tecnológico que tem muito a ver com o primeiro-ministro, um típico tecnocrata, mais autodidacta do que com uma formação profissional sólida, e que por isso "gosta" de gadgets e não sabe viver sem eles. Mais: está convencido de que são os gadgets que mudam as pessoas, numa visão tecnocrática típica, sem perceber que o modo como as pessoas os usam pode ou não ser vantajoso conforme as literacias prévias que possuam. » [Público assinantes]

Parecer:

Por Pacheco Pereira.

PS: Isto não é um artigo de opinião política, é um gemido de dor de corno.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Arquive-se.»

QUEM QUER UMA DEMOCRACIA MAIS MUSCULADA?

«"Há semanas assim lutuosas e tristes, em que os crimes e os desastres vêm de enfiada. Como contas de um rosário. Abre-se a medo um jornal, já quase na certeza de que, em grossas letras normandas sobre colunas de prosa compacta, virão anunciados algum cruel assassinato, a desgraça de uma família, o último horrível crime de um novo facínora famoso, imortalizado pela bestialidade", afirmava, com toda a actualidade, João da Câmara na edição de 20 de Setembro de 1898 da revista Occidente.

A criminalidade e a insegurança preocupam a nossa comunidade, mas a resposta a estas preocupações não pode ser uma resposta folclórica (como a do advogado que recentemente referia ser necessário estabelecer penas de 40 ou 50 anos de prisão como se isso fosse resolver fosse o que fosse) ou ainda a defesa do retorno aos tempos da aplicação preventiva como regra e não como excepção. Nesse aspecto, e até porque o Presidente da República pediu que fossem ouvidos os que aplicam a lei, não podemos deixar de divulgar as palavras do juiz-conselheiro Eduardo Maia Costa que, no passado dia 15, num blogue [blogsinedie.blogspot.com] escrevia o seguinte: "De repente o país acordou cheio de saudades dos tempos em que as cadeias abarrotavam de presos preventivos. Que bom que era! Quase não havia criminalidade! Os maus ficavam presos logo que eram apanhados e já só saíam depois de cumprida a pena que, nesses bons tempos, durava sempre dezenas de anos, arredando da sociedade os malfeitores. É esta a 'narrativa' que por aí passa. Mas o pior é que alguns magistrados com responsabilidades sindicais começam a 'recepcionar' essa mesma versão. A culpa, dizem eles, é da reforma de 2007, e da lei de política criminal, porque 'dificultam' a aplicação da prisão preventiva. Não estou minimamente de acordo. O diploma que dificulta extremamente a prisão preventiva é a Constituição, que, no seu artigo 28.º, estabelece que ela tem carácter excepcional (como todos os alunos de Direito sabem). O que está 'mal', pois, é a Constituição, e não a lei ordinária"...

Esta fina ironia do juiz-conselheiro aborda um dos aspectos mais paradoxais do conflito entre o poder político e o poder judicial: o sindicalismo judicial, para atacar o Governo que tem "afrontado" de diversas formas o poder judicial, decidiu acompanhar a onda revanchista e populista defendendo em público que é preciso reprimir mais e que, para isso, torna-se necessário alterar as leis deste Governo - no fundo, muscular a nossa democracia.

É triste, e mostra as limitações do sindicalismo dos juízes, que não haja capacidade de distinguir entre aquilo que é positivo e aquilo que é negativo em termos da nossa cidadania, nas reformas legais que se vão fazendo e que haja uma postura de guerrilha que se confunde com um corporativismo desfasado da realidade. Na verdade, os portugueses, em geral, confiam nos magistrados judiciais e seria bom que estes continuassem a ser conhecidos pelo seu rigor e independência, seja a julgar, seja nas suas intervenções públicas.

Porque ninguém se admira que os sindicatos dos professores não reconheçam que, das reformas feitas, algumas foram em evidente benefício dos alunos, das escolas e de todos nós. Toda a gente sabe, por exemplo, que a bandalheira das faltas sistemáticas dos professores dos ensinos preparatório e secundário terminou com a obrigatoriedade das aulas de substituição. Ora, no campo da justiça, seria bom que, por exemplo, quanto à questão da prisão preventiva, houvesse a capacidade sindical de dizer aquilo que o conselheiro Maia Costa disse.

Como é preciso que os magistrados que se pronunciam publicamente sobre as questões de justiça tenham capacidade para dizer que os processos criminais não podem, pura e simplesmente, ignorar a existência de prazos e que as vidas dos cidadãos, mesmo que suspeitos de práticas de crimes, continuam a ter valor. O Estado não pode ser todo-poderoso, tem é de ser mais eficiente.

Poderá entender-se que não faz sentido a reforma penal que não permite que o Ministério Público possa recorrer da decisão do juiz de instrução que não aplica a prisão preventiva a um suspeito por ser demasiado favorável ao arguido, mas o que dizer, por exemplo, quanto ao facto de, no sistema anglo-saxónico, a acusação pública não poder sequer recorrer no caso da absolvição de um arguido?

Aí entende-se que o Estado, com todo o seu arsenal, só tem uma oportunidade de fazer condenar um suspeito e caso o mesmo seja absolvido, não poderá ser julgado uma segunda vez, mesmo que seja no âmbito de um recurso. No nosso país, o Estado pode sujeitar um cidadão a um processo e a um julgamento criminal, vê-lo absolvido pelo tribunal de 1.ª instância e sujeitá-lo a um novo julgamento através de um recurso. Só no caso de o arguido ser absolvido na 1.ª instância e ver a sua absolvição confirmada pelo Tribunal da Relação, está o Ministério Público impedido de recorrer para o Supremo.

As questões da justiça são complexas e devem ser debatidas com sensatez, rigor e inteligência, sem prejuízo de terminarmos como começámos, com uma citação da revista Occidente, desta vez de Tito Gonçalves Martins em 1 de Janeiro de 1889: "Assim a situação política não tem sofrido sensíveis alterações, e as reformas que se fazem hoje desmancham-se amanhã para serem substituídas por outras que em seguida se condenarão, e n'este fazer e desmanchar, nesta tibieza das leis, não se sabe que mais admirar, se a fecundidade dos legisladores, se a inutilidade da maior parte das suas leis"...» [Público assinantes]

Parecer:

Por Francisco Teixeira da Mota.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

UM ARCAÍSMO

«Previsivelmente, com a crise financeira internacional o Partido Comunista Português redescobriu que o "socialismo" era uma "alternativa necessária e possível" ao horror e à miséria em que o mundo vive hoje. Uma tese do próximo Congresso, o XVIII, vai reafirmar isso mesmo e, melhor ainda, explicar com a autoridade que lhe assiste as razões do colapso da URSS e das "Repúblicas Populares de Leste". Isto - que parece pouco e quase cómico (se não fosse trágico) - basta para demonstrar o atraso cultural, político e económico do país. Não há na Europa nenhuma instituição remotamente parecida com o PCP e, no resto do mundo, só a China (não se percebe porquê), o Vietname, o Laos, Cuba e a Coreia do Norte merecem a aprovação da ortodoxia indígena.

A história passou, mas, significativamente, não passou por aqui. O PC está como estava em 1974. O colapso do "socialismo real" não o diminuiu, nem o fez tremer. A coisa, segundo o XVIII Congresso, foi um pequeno acidente de percurso: o resultado da "traição de altos responsáveis do partido e do Estado" (presumo que da URSS e não da Polónia ou da Checoslováquia); do "abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores"; da "claudicação perante a chantagem do Ocidente"; da "penetração em profundidade da ideologia social--democrata"; e "da rejeição do heróico património histórico dos comunistas". Por outras palavras, excepto por meia dúzia de erros, que não afectavam nada de essencial ou, mais precisamente, nada de material, o sistema funcionava.

O PC não sabe, ou já se esqueceu, que desde 1970-71 o Ocidente subsidiava o "socialismo real", em nome da estabilidade e da paz. Na véspera da catástrofe, em 1988, as "Repúblicas Populares", incluindo a Jugoslávia e tirando a Roménia, deviam ao Ocidente 95,6 biliões de dólares (a preços da época): uma quantia colossal, e sempre a crescer, com que financiavam o seu consumo interno. O problema é que, apesar dessa delirante estratégia, as populações de Leste continuavam numa situação de atraso e de pobreza relativa. Ironicamente, a perenidade do PC também assenta no atraso e na pobreza relativa dos portugueses, que nenhuma "modernização", "reforma" ou subsídio da "Europa" até agora conseguiu moderar ou eliminar. O PC não muda (ou não se extingue), porque a sociedade não muda ou, pelo menos, não muda o suficiente. É um arcaísmo? Talvez. Como Portugal.» [Público assinantes]

Parecer:

Por Vasco Pulido Valente.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

PS RECORDA NEGÓCIO DO CITIGROUP

«Enquanto o ministro dos Assuntos Parlamentares, Santos Silva, acusou a líder do PSD de ter uma "obsessão" pela vida interna do PS, mais crítico, Marcos Perestrello, secretário nacional do PS para a organização do comício, atirou: "[O comício] custou milhões de vezes menos do que o prejuízo que Manuela Ferreira Leite causou com o negócio do Citigroup", uma operação efectuada em 2003, quando era ministra das Finanças. » [Correio da Manhã]

Parecer:

É uma pena que ao longo de quatro anos o PS tenha mantido este negócio em segredo, acabando por ser cúmplice do mesmo. Seria bom que os portugueses soubessem como foi feito e quanto tem custado aos contribuintes.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Produza-se um relatório público sobre o negócio das dívidas vendidas ao Citigroup.»

QUEM FALOU EM AUMENTO DA CARGA FISCAL?

«Os portugueses pagam cada vez mais impostos às câmaras: só em 2007, segundo dados da Direcção-Geral das Autarquias Locais (DGAL), os municípios cobraram a cada munícipe uma média de 235 euros, um aumento de quase 26 por cento face ao ano anterior e uma subida brutal de 24,5 por cento em relação ao acréscimo registado de 2004 para 2005. A Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) já contestou os dados da DGAL e garante que as verbas foram investidas no próprio município.» [Correio da Manhã]

Parecer:

Um aumento de 26% da carga fiscal promovida pelos municípios é mesmo obra.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Divulguem-se as contas dos municípios.»

UMA SITUAÇÃO MUITO ESTRANHA

«Segundo revelou terça-feira o jornal Público, terá sido Pedro Martins a assinar - com base numa portaria assinada mas anulada pelo secretário de Estado da Educação, Valter Lemos - os certificados de equivalência que permitiram melhorar "até dois valores" as médias de vários alunos de colégios estrangeiros, como o St. Julian's ou o Frank Carlucci American International School of Lisbon. Uma situação que levou à abertura de um inquérito na Inspecção-Geral de Educação (IGE). Agora, parece confirmar-se que o GAJURCE também nada fez para avisar a DGES sobre o facto de estas equivalências serem inválidas. » [Diário de Notícias]

Parecer:

Um director de serviços altera as médias de acesso ao ensino superior com base numa portaria anulada?

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se ao ministério da Educação se já abriu o competente processo disciplinar.»

DESTA VEZ A MANUELA TEM RAZÃO

«A presidente do PSD deixou, na noite de quinta- -feira, em Braga, um conselho aos empresários que têm o Estado como cliente: "Se tivesse que lhes dar algum conselho, diria para se afastarem, que não esperem nada dele a não ser o que lhe é exigível". Ou seja, explicou Manuela Ferreira Leite, "boa justiça, segurança - algo que está a fraquejar". E advertiu: "Cada vez que o Estado faz um investimento com crédito, está a encarecer o crédito para as empresas e famílias, porque o torna mais escasso e caro".» [Diário de Notícias]

Parecer:

Quem pode confiar no EStado quando um ministro das Finanças pode reter abusivamente os reembolsos du IVA com o argumento da fraude, para os usar com o objectivo de ajeitar as contas públicas e fazer propaganda dizendo que já havbiam sinais de retoma? Manuela Ferreira Leite sabe melhor do que ninguém as práticas abusivas seguidas por alguns ministros das Finanças.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Elogie-se a sinceridade de Manuela Ferreira Leite.»

SANTANA LOPES QUER SER CANDIDATO A LISBOA

«Há dias, Santana Lopes afirmou ao DN que considera que "Lisboa é um projecto interessante" e ontem voltou a abrir o livro numa entrevista ao Diário Económico. "Sou candidato a Lisboa, se for, mas não serei ao País", disse Santana Lopes, deixando cair que o processo de alegado favorecimento na atribuição de fogos de habitação social, onde será constituído arguido, não o faz recuar: "As pessoas só devem ver os seus direitos cerceados por sentença transitada em julgado".» [Diário de Notícias]

Parecer:

Era de esperar, já deve estar a precisar de emprego.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Espere-se pela resposta de Manuela Ferreira Leite.»

CDS PREOCUPADO COM A SEGURANÇA DOS PORTUGUESES NA VENEZUELA

«O deputado Hélder Amaral - em requerimento ao Ministério dos Negócios Estrangeiros - lembra que desde Janeiro já morreram dez portugueses. Neste quadro o CDS-PP quer saber que medidas tenciona o executivo português para "repor a segurança e a protecção dos cidadãos portugueses que vivem e trabalham na Venezuela", tendo o deputado frisado que para além dos emigrantes assassinados existe também um sério problema com um elevado número de sequestros.» [Diário de Notícias]

Parecer:

Pela forma que o CDS coloca a questão até parece que a solução é mandar a GNR para a Venezuela.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se ao CDS que soluções sugere e porque não propõe medidas idênticas para, por exemplo, a África do Sul.»

A "SANTA CASA" DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA

«O director do Departamento de Apoio aos Órgãos Municipais, que integra a presidência da Câmara de Lisboa, recebeu há 19 anos uma casa cedida pelo então autarca Krus Abecassis. Há sete anos que não vive lá. Esteve mais de um ano sem pagar os 95 euros mensais de renda pelo apartamento T1 em Telheiras e, por isso, o executivo camarário chamou-lhe a atenção. Em carta ao então presidente da Câmara, Santana Lopes, pediu desculpas pessoais, confessou “a dívida” e o “constrangimento” pela situação e colocou o lugar à disposição.

A demissão foi aceite. Mas a casa não foi devolvida. Hoje, José Bastos é de novo director daquele departamento e na casa da Câmara mora agora o seu filho. O director tem razões para achar que não está a abusar, tanto mais que, no andar de cima, também mora o filho de uma outra dirigente da Câmara. Isabel Soares, actual membro da equipa do número dois da autarquia lisboeta, Marcos Perestrello, recebeu uma casa de ‘renda técnica’ há 18 anos. Há cerca de quatro anos pediu a opção de compra do apartamento por 10 mil euros. A então vereadora da Habitação, Helena Lopes da Costa, analisou o processo, classificou-o de “escandaloso” e recusou. Ao DN, Isabel Soares assume que o filho “está lá à luz do que é permitido”.» [Expresso assinantes]

Parecer:

Eis que descobrimos mais um abuso à conta dos munícipes de Lisboa.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Corrija-se esta vergonha.»

MARQUES MENDES: MELHOR ESCRITOR QUE LÍDER PARTIDÁRIO

«Passaram quase vinte anos desde que Marques Mendes foi ministro da Comunicação do cavaquismo, mas é como se fosse ontem: gerir a relação com os «media» deve ser como andar de bicicleta e poucos saberiam transformar o lançamento de um livro num pretexto para aparecer todos os dias nos jornais - a introdução, hoje, aqui; um capítulo, amanhã, ali; outro, depois de amanhã, acolá. Além de quatro entrevistas em dois dias, uma à ‘Sábado’, outra ao Rádio Clube, outra à RTP, outra à TSF.

Em boa verdade, Mendes ofuscou (com propostas concretas para mudar o país) o PSD de Ferreira Leite durante duas semanas e o aviso que deixou no superconcorrido Museu da Electricidade, em Lisboa, onde os directos televisivos se atropelaram, não será a brincar: “Este livro não tem nada a ver com o passado, tem a ver com o futuro”. Para Marcelo Rebelo de Sousa, Mendes “vai voltar”.» [Expresso assinantes]

Parecer:

Na mesma semana em que Marques Mendes brilhou e não faltavam motivos para uma boa intervenção política Manuela Ferreira Leite (deve ter preferido seguir o conselho de JPP) e optou por falar da ostentação no comício do PS.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se a Manuela Ferreira Leite como se sentiu, ainda mais apagada do que os costume.»

SALDANHA SANCHES DEFENDE VEREADORA DA CML

«A entrega de habitações a quem delas não necessitava pela Câmara de Municipal de Lisboa (CML) ao longo das últimas duas décadas pode configurar um sistema do tipo "saco azul" baseado "no tradicional critério do compadrio", admite Saldanha Sanches, mandatário financeiro de António Costa na campanha eleitoral da cidade. O fiscalista entende que o presidente da CML devia demitir a vereadora da Acção Social, Ana Sara Brito, que se descobriu ter beneficiado de uma casa camarária de renda baixa no centro de Lisboa, na Rua do Salitre, durante os últimos 20 anos.» [Público assinantes]

Parecer:

Isto começa a ter graça, a Maria José Morgado investiga ao mesmo tempo que o marido propõe as demissões.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Lamente-se o espectáculo.»

O JUMENTO NOS OUTROS BLOGUES

  1. O "Largo das Alterações" alerta-me para uma notícia que escapou ao mesmo tempo que manifesta a sua desilusão porque "que nos últimos tempos [O Jumento] se têm dedicado a um cego e cerrado ataque a Ferreira Leite, com um ódio incompreendido e mesmo toldante e debilitador da racionalidade que lhes era característica e apreciada".

    Caro amigo, quando à minha simpatia em relação a Manuela Ferreira Leite tem toda a razão menos quanto à irracionalidades, a minha falta de confiança na senhora e nalguns dos seus afilhados não tem nada de irracional.

    Quanto à proposta do PSD não a conheço em pormenor, ainda que desconfie de tudo o que seja maiores poderes para o Ministério Público. Só tenho a lamentar o fim do pacto da justiça no quadro do qual faria sentido analisar estas propostas.
  2. O "Café Margoso" já foi comprar umas das novas notas de dólar.

AS MELHORES IMAGENS CIENTIFICAS DE 2008 [Link]

GEISER NA ISLÂNDIA [imagens]

MURAT SUYUR

A ARMA DAS FUTURAS FORÇAS ARMADAS DA MADEIRA

EQUILÍBRIO

ACÇÃO ANIMAL

sábado, setembro 27, 2008

Divórcios, casamentos e deputados

É irónico que no parlamento mais macho do mundo, onde predominam os homens e nenhum deles assumiu até agora ter um pé no galho, todos dão a entender que os seus órgãos genitais são usados segunda a lei natural (que Deus lhes proteja essa bânção divina!), se tenha discutido quase em simultâneo o casamento gay e a lei do divórcio. Irónico porque se no divórcio os que defendem que este seja eterno são os mesmos que o querem restringir aos que foram bafejados pela sorte de pertencerem à ordem natural das coisas, já no casamento gay são os mais desvalorizam o casamento os que dão maior importância ao casamento gay.

Pelo meio assiste-se a uma grande confusão, em privado cada deputado leva a sua vida e mantém uma relação amorosa com cada um dos seus eleitores, em público são todos machos reprodutores e a maioria aceita a lealdade em relação ao chefe.

No casamento a direita continua dependente dos votos ganhos nas homilias e insiste em que seja o casamento civil, aquele que a Igreja nem sequer reconhece enquanto tal, obedeça a regras que tenham o resultado que o temor aos representantes de Deus na Terra já não assegura. As normas do Código Civil, que até poderiam constar num capítulo do Código Comercial, ganham transcendência divina e alterar na lei civil aquilo que a Igreja já nem consegue obrigar os seus fiéis é pecado. A lógica é simples, já que não respeitas a lei divida da Igreja que abraçaste levas com a lei civil, não é bem a mesma coisa mas vai dar na mesma, se casaste ficas casado quer queiras quer não, é Deus que assim o deseja. E se não és crente pagas pela mesma moeda, vives num país de crentes.

Na esquerda há quem tenha descoberto que o casamento é pouco mais do que um contrato comercial e na hora do divórcio é preciso fazer as continhas, assegurado o bem-estar das crianças o importante é assegurar que o negócio seja encerrado sem prejuízo para as partes. Mas ao mesmo tempo que se preocupam com o negócio de uns dizem aos outros que para que haja negócio é necessário sócios de sexo diferente.

Não me admiraria nada que daqui a uns tempos em vez de casamentos os futuros conjugues optem por constituir empresas de responsabilidade limitada, por exemplo a José & Maria Lda, a António & Rui Lda ou a Joana & Rita Lda. Não é nada de absurdo, já há sociedades anónimas para evitar impostos sem património, quando o filho casa ocupa a vivenda que corresponde às suas acções, quando o pai acha que um dia destes vai desta para melhor procede a uma redistribuição do capital, tudo sem sisas e livres de impostos sobre o capital. Afinal, seria tudo mais claro, as regras dependeriam do humor dos deputados ou da generosidade do cardeal, e apenas os filhos dariam trabalho aos políticos e aos tribunais.

Quem pretendesse que o casamento emanasse de uma vontade divina sujeita a regras bíblicas iria à Igreja, e os que, assumindo serem crentes mas não praticantes, recorreriam ao casamento civil, que alguns pretendem que seja a versão light do casamento religioso.

Umas no cravo e outras tantas na ferradura

FOTO JUMENTO

Caloiros de Psicologia no Terreiro do Paço

IMAGEM DO DIA

[Natalia Kolesnikova/Agence France-Presse ]

«In Moscow, a Russian officer displayed a new military uniform created by the fashion designer Valentin Yudashkin for the Russian Army. » [The New York Times]

JUMENTO DO DIA

Manuela Ferreira Leite

Depois de uma ausência de uma semana Manuela Ferreira Leite decidiu reaparecer em Braga para fazer uma importante declaração política, que o comício do PS foi demasiado ostensivo para a pobreza que circunda a região.

Numa semana em que o mundo aguarda a solução para a crise financeira, em que sobre este tema Cavaco Silva produziu importantes declarações, em que se discutiu o papel dos reguladores, em que se fala de um boicote ao abastecimento de combustível, em que houve um debate parlamentar, em que Sócrates teve várias declarações públicas, Manuela Ferreira Leite preocupou-se com o acessório, exigiu que da próxima o comício fosse na Quinta da Atalaia, gentilmente emprestada pelo PCP, e que Sócrates se apresente vestido com roupa doada pela Santa Casa da Misericórdia.

Para Manuela Ferreira Leite este foi o tema que mais a preocupou durante a semana e como solução defendeu que as instituições adoptem as regras fransciscanas, os pobres continuam pobres mas, ao menos, ficam com a sensação e a tranquilidade de saber que todos são pobres.

Discurso político demasiado miserável para que Manuela Ferreira Leite seja solução para o governo.

NÃO TEM NADA A DIZER SOBRE A DÚVIDA DO CAVAC IV...

A brilhante pergunta de uma jornalista (da TVI?) a José Sócrates. Enfim, para se ser jornalista não basta ter bom corpo e meio palmo de cara para passar nas televisões.

UMA PERGUNTA A LOUÇÃ

Se o BE sempre foi a favor do casamento gay porque razão esperou pelo último ano da legislatura para agendar o debate? Porque estava preocupado com as desigualdades ou porque aproveitou estas para conquistar votos com a proximidade das eleições?

A DRAMÁTICA FALÊNCIA DE UM MODELO

«Tudo indica que o modelo económico vigente está em fim de ciclo. Não será o capitalismo que se extingue. Mas também não será a "renovação" do capitalismo como o pretendem alguns preopinantes. De um e de outro lado (à Esquerda e à Direita) toma-se como evidência o que é, somente, desejo. A necessidade de se reformular, com urgência, as grandes categorias económicas nasceu da crise financeira nos Estados Unidos.» [Jornal de Notícias]

Parecer:

Por Baptista Bastos.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

NÃO HÁ BEM QUE SEMPRE DURE, NEM MAL QUE NUNCA ACABE

«Desaparecidas estas instituições na sua forma original, regressa-se a modelos mais tradicionais, menos alavancados, mais conservadores e menos inovadores. Muito embora os bancos europeus não se defrontem com as dificuldades dos seus congéneres americanos, enfrentam igualmente uma insidiosa desconfiança instalada no sistema desde Agosto de 2008. O mercado monetário interbancário não funciona normalmente e os bancos centrais estão a substituir-se-lhe. Têm actuado de modo a assegurar fundos às instituições financeiras, mas os bancos permanecem renitentes em emprestar entre si. Diariamente, assiste-se à subida paulatina das taxas Euribor. E, até final do ano, deverão continuar a aumentar. Contudo, existe liquidez, pois as taxas de juro de curto prazo de dívida pública continuam a cair, chegando a atingir, pontualmente, no caso dos EUA, valores negativos.» [Jornal de Notícias]

Parecer:

Por Cristina Casalinho.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

WALL STREET, MAIN STREET

«O espírito de contradição está instalado de modo indelével na alma portuguesa. A semana negra da finança mundial permitiu que alguns prestigiados comentadores pudessem revelar uma acrisolada paixão pelo liberalismo económico no preciso momento em que menos pareceriam fazer sentido os panegíricos. É claro que os amigos são para as ocasiões e, além disso, deve ser nos momentos mais críticos - em que se corre o risco de deitar fora o bebé com a água do banho - que se deve cautelarmente separar águas ou separar o bebé da água suja. Por isso louvo - entre outros - Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente pelas palavras que escreveram e que demonstram coragem e consistência ideológica. Como, pelo menos num caso (com V.P.V.), o que escrevi na passada semana serviu de pretexto para esse tipo de defesa, justifica-se o direito de revisitar o tema.

Sou favorável ao sistema capitalista como enquadramento global para a actividade económica. Nunca fui (excepto de algum modo antes do 25 de Abril quando defendia soluções próximas da autogestão jugoslava com um certo grau de direcção central) defensor de soluções do universo do socialismo. Nada do que se está a passar me faz converter serodiamente a paixões que no tempo da minha juventude muitos outros tiveram. Não acredito excessivamente nos reguladores e no seu sucesso. Se acreditasse, pensaria que a existência da Polícia Judiciária evitaria crimes e abusos. Não creio, aliás, que a culpa do que estamos a viver seja sobretudo de falta de regulação (como recordava lucidamente um colunista, no Herald Tribune, os bancos de investimento são muitíssimo regulados nos EUA) e, ainda que estivesse, também não acho que burocratas em fraco número e mal pagos sejam capazes de vigiar os mais brilhantes e mais motivados dos criadores de loucos produtos financeiros.

Mas por isso mesmo é que me indignei com o que se passou. Quando a Wall Street abusa, a Main Street sofre sempre mais, para usar a habitual dicotomia da sociedade americana. Defender o liberalismo económico, como atenuante para o que se está a passar, apesar ou por causa dos seus defeitos e dos seus excessos, parece-me ser um mau serviço a prestar à causa do mencionado liberalismo.

O liberalismo económico permitiu o excepcional progresso e a melhoria profunda do nível de vida das populações. Favoreceu a inovação e a criatividade, gerou energias novas e trouxe em cada geração para a linha da frente pessoas que num sistema diferente nunca teriam as mesmas oportunidades. Não há bela sem senão, dizia-se antigamente. E dizia-se bem. O liberalismo económico gera subprodutos que o contradizem e que o prejudicam. Esse o inevitável custo ou preço de qualquer sistema social.

O problema - em termos macrossociais - não está no facto de tais custos ou preços existirem. O problema, como num organismo humano, está no facto de por vezes e a partir de certo momento os tecidos vivos começarem a gerar células cancerosas que acabam por destruir o sistema. A minha tese é que estamos a assistir, em Wall Street, a uma evolução que tem aspectos semelhantes ao processo de desenvolvimento de um cancro e que pode acabar por matar o que, sem ele, seria um organismo cheio de energia. Mais, essa energia infelizmente ajuda a que o cancro se desenvolva e expanda. Mais, ainda, certas terapêuticas que são aplicadas podem ter o efeito perverso de contribuir para o processo cancerígeno. Por isso o título do meu texto na passada semana era "qualquer dia a casa vai abaixo", assumindo-se como um alerta e um apelo.

Como há dias, bem melhor do que eu seria capaz, escrevia um amigo meu (cujo nome não menciono apenas porque o texto era privado), "o papel do analista não é necessariamente o de apresentar soluções. Esse é o papel dos policy makers. E se cada um - analistas e policy makers - cumprirem os respectivos papéis, todos teremos a ganhar. Os analistas apresentam os cenários prováveis, justificando-os. E os policy makers, tendo essa informação em conta, aplicam-se a pôr em prática as medidas necessárias para evitar ou suavizar as consequências previstas. O que acontece frequentemente é que os analistas - sobretudo quando trazem notícias de que se não gosta - são desvalorizados e são rejeitados os seus alertas e depois temos todos que nos confrontar com consequências piores do que seria necessário se tivesse sido dada atempada atenção aos avisos. Ou seja, nesses casos, os analistas cumprem o seu papel, mas os policy makers não, e no fim somos nós todos que pagamos o preço desse incumprimento."

Apesar disso, procuro muitas vezes arriscar passar do plano analítico para o das propostas de policy. Foi por isso que avancei com a tese de que uma das formas de lutar no futuro contra este tipo de evoluções cancerosas passa pelo plano fiscal que, de um modo geral, favorece a riqueza criada em Wall Street sobre a gerada em Main Street. Como é óbvio, isto não pode ser uma espécie de radioterapia ou hormonoterapia para atacar a doença, mas deve ser visto como um dos instrumentos de profilaxia e de prevenção. E a proposta não pode ser vista como uma panaceia nem como uma solução que por si só resolva a questão.

A questão da regulação é evidentemente importante. Mas é errado pensar que seja o factor essencial, porque isso significaria continuar com a ilusão de que se a regulação fosse mais forte e presente os problemas teriam sido evitados. Investir nessa errada convicção é meio caminho andado para errar nas terapêuticas.Até porque falhou a decência e a moral. E não há regime que precise mais desses valores do que o regime capitalista.» [Público assinantes]

Parecer:

Por José Miguel Júdice.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

VIVEMOS NAS NUVENS

«Pela primeira vez na história americana recente, a campanha presidencial é interrompida por causa de uma crise económica. Claro que John McCain, que tomou a iniciativa (com o acordo parcial de Obama), também tenta ganhar votos com um gesto dramático. O eleitorado considera o Partido Republicano, e sobretudo Bush, há oito anos no poder, culpados do desastre e Obama está à frente nas sondagens. Nada melhor do que uma exibição de patriotismo - a América acima da política - para reequilibrar as coisas. Mas não se trata só disso, tanto McCain como Obama querem proclamar e acentuar a gravidade da situação e não permitir que o Presidente, a três meses de se ir embora, fabrique, como de costume, outra catástrofe, de que um deles seria com certeza a vítima.

O problema imediato é garantir a autorização do Congresso para o "empréstimo" de 700 mil milhões de dólares, com que Bush aparentemente resolveu "salvar" o mercado financeiro. Ao contrário do que por aí insinua, com grande gozo ideológico, uma certa esquerda, o Congresso não está inclinado para a "nacionalização dos prejuízos" da banca e dos seguros. Fazer o contribuinte pagar a irresponsabilidade dos "privados" não é uma ideia popular. Obama pôs quatro condições. Primeira: que o Congresso decida quem recebe quanto. Segunda: que os beneficiários terão de pagar o que lhes derem até ao último tostão. Terceiro: que nenhum dinheiro, sob forma alguma (indemnizações, pensões, gratificações), irá parar às mãos do pessoal dirigente, responsável pela catástrofe. E quarto: que uma nova lei de habitação compense, ou alivie, os milhões de americanos prejudicados pelo subprime. McCain, pelo menos no essencial, concorda com isto.

A crise não é "o fim do mundo como o conhecemos". Mas causou estragos e, provavelmente, causará mais. Não justifica a complacência da direita, nem o entusiasmo da esquerda. Obama e McCain pararam a campanha para procurar uma posição comum. Em Portugal, esta quarta-feira, no debate da Assembleia da República, o eng. Sócrates não achou necessário explicar os riscos que o país corre e que medidas se tomaram (ou não tomaram) para os diminuir ou eliminar. A Assembleia discutiu a criminalidade e, à saída, o eng. Sócrates lamentou brevemente a falta de "supervisão dos mercados" e falou no horrível pecado da "ganância". O PSD e o PP não disseram nada. Vivemos nas nuvens.» [Expresso assinantes]

Parecer:

Por Vasco Pulido Valente.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

QUEM NÃO SABE O QUE FAZER FAZ COLHERES DE PAU

«A líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, considerou quinta-feira o comício do PS, realizado no fim-de-semana em Guimarães, como "uma "manifestação de opulência", considerando a iniciativa como "lastimável". » [Correio da Manhã]

Parecer:

Ridículo demais para ser verdade.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se se vai fazer os seus comícios num convento franciscano.»

A ANEDOTA DO DIA

«A nova versão do polémico Estatuto Político-Administrativo dos Açores foi ontem aprovada por unanimidade na Assembleia da República. Mas o braço-de-ferro vai continuar. Apesar de ter votado a favor do diploma, o PSD já informou que irá pedir a fiscalização sucessiva do documento, por considerar que há uma norma inconstitucional. Posição que mereceu o apoio do PCP.» [Correio da Manhã]

Parecer:

O PSD vota mas está contra.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se a Manuela Ferreira Leite se aprovou o voto do grupo parlamentar.»

HÁ UM BOY CANDIDATO A PRESIDENTE DA TAP?

«Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que já anda por aí um putativo sucessor a preparar o caminho para a presidência da companhia aérea. Trata-se de José Mourato, que actualmente é assessor do ministro da Defesa para assuntos imobiliários. Isto depois de ter sido presidente da Empordef, a holding das indústrias de Defesa, e de ter abandonado o cargo antes do fim do mandato para ir para uma empresa imobiliária do conhecido empresário Stanley Ho. » [Correio da Manhã]

Parecer:

Não me admiraria nada.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «»

CHEQUE ESTRANHO DE SANTANA LOPES

«A Câmara de Lisboa (CML) reteve um cheque de cinco mil euros de Santana Lopes durante quatro anos. O valor diz respeito a gastos que o ex-presidente da autarquia fez, nessa qualidade, numa deslocação a Paris. Durante a viagem, Santana Lopes efectuou pagamentos com o cartão de crédito da Câmara, cujas operações os serviços camarários não terão considerado despesas de representação, segundo apurou o CM.» [Correio da Manhã]

Parecer:

Já na Figueira da Foz aconteceu um incidente do género.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Investiguem-se os serviços camarários.»

LUÍS FILIPE MENEZES COMEÇA A TER RAZÃO

«O presidente da Câmara de Gaia, Luís Filipe Menezes, considera que as sondagens mostram que "não chega uma equipa de salamaleques e pessoas profissionalizadas no cocktail" para dirigir o PSD.» [Jornal de Notícias]

Parecer:

Por este andar o PSD ainda vai ter outro líder antes das próximas legislativas.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Espere-se para ver.»

SARAH PALIN TEM MEDO DO DIABO

«La candidata republicana a la vicepresidencia de EE UU, Sarah Palin, tiene miedo de Satán. Al menos eso es lo que se deduce de un vídeo colgado en Youtube, en el que puede verse como un sacerdote bendice a la que número dos de John McCain para protegerla de la "brujería".

"Habla con Dios sobre esta mujer, sálvala de Satán", dice el obispo kenyata Thomas Muthee en una iglesia de Alaska, mientras sujeta las manos de Palin y le pide a Jesucristo que la proteja de la "brujería". » [20 Minutos]

O JUMENTO NOS OUTROS BLOGUES

  1. O "À Sombra do Convento" destaca o post dedicado ao último debate parlamentar.
  2. O "Politikae" gostou da escolha de João Salgueiro para Jumento do Dia.
  3. Para o "Cu-Cu" era uma obrigação ir ao concurso "Top Culos 2008".
  4. O "Direito de Opinião" sugere o post "a queda de uma ponte vinha mesmo a calhar".

ELENA KALIS

NOVA NOTA DE UM DÓLAR

SASHA COEN (BORAT) INVADIU UM DESFILE DE MODA

DOCE DE MORANGO 100% NATURAL

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