segunda-feira, novembro 11, 2019

O XARABANECO




Quem tivesse distraído e ligasse a televisão neste fim de semana pensaria que estava a festejar-se uma espécie de Halloween político dedicado ao governo de Passos Coelho. Primeiro foi o morto vivo dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, a aparecer a dar uma entrevista, uma forma de tornar público que acabava de ressuscitar. No domingo abriram as portas do cemitério do governo de Passos Coelho e foi o que se viu na apresentação do Monte de negro, só lá faltava o Cavaco Silva.

Nunca a apresentação de um candidato à liderança do PSD foi tão claro quanto às ideias, propostas e gente para governar, aliás, tudo aquilo foi perda de tempo e de dinheiro, o candidato não passa de um xarabaneco. Tudo aquilo não passou de uma peça de um teatro de xarabanecos e até lá estava o próprio Passos Coelho, mas como era ele a manipular os xarabanecos não era visível, por estar atrás da cortina.

Estava lá o xarabaneco do grupo paralemntar, a xarabenca das finanças e vários outros xarabanecos do governo de Coelhos, defuntos da nossa vida política ressente, que ganharam vida neste Halloween fora de época, graças a esta encenação de xarabanecos.

Mas se tudo aquilo foi ridículo não deixa de ter alguma utilidade, os portugueses sabem agora que há um PSD que quer acabar a obra inacabada de Passos Coelho, quer voltar a cortar nas pensões, voltar a cortar nos vencimentos do Estado e aplicar o mesmo corte dos trabalhadores do privado. Voltou a ladainha das duas legislaturas e são não disseram o que defendem porque todos os sabemos.

Este regresso de Passos Coelho escondido atrás do xarabaneco que era líder parlamentar tem muito de positivo e se Rui Rio for derrotado o governo de António Costa tem muito a ganhar. Desde logo porque o PCP e o BE percebem que ainda não é tempo de derrubar um governo do PS e que o cenário do passado se repete, se o derrubarem terão de enfrentar a política de Passos Coelho. E o Presidente da República dificilmente sonhará com a hipótese de usar o segundo mandato para ajudar o PSD a regressar ao poder.



sexta-feira, novembro 08, 2019

JUMENTO DO DIA


   
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República


O triste espetáculo proporcionado por Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, a proposto da criança recolhida no contentor de papel justifica o relançamento da rubrica do Jumento do Dia. Desta vez o populismo, o surf nas notícias, o aproveitamento da miséria social pelo político Marcelo Rebelo de Sousa foi longe demais e só pode ser entendido se o Presidente da República imagina ser possível ter mais votos numa democracia que os monarcas da dinastia Kim conseguem na Coreia do Norte.

O PR interrompeu a sua agenda para aparecer ao Aldo do sem abrigo e com a jornalista da CMTV a recolher imagens implica montar a situação. Alguém procurou o sem abrigo, disse-lhe que o PR ia vê-lo e de seguida combinou com pelo menos uma televisão para lá estar. Estava tudo bem enquadrado e iluminado, o sem abrigo de um lado, o PR do outro, o buraco amarelo do contentor no meio, mais o micro da CMTV e uma jornalista que o agarrava em silêncio ao mesmo tempo que ouvia um diálogo, que mais parecia uma entrevista do comentador Marcelo armado em jornalista, fazendo perguntas e quase sugerindo as respostas.

Foi deprimente demais para ser verdade, uma péssima atuação presidencial, um jornalismo bacoco e uma exposição miserável de um sem abrigo como que a apelar á generosidade nacional e à cunha no SNS para que o senhor seja operado com urgência. Não é difícil de adivinhar que na segunda-feira já a ministra da Saúde terá posto um assessor em contacto com a Presidência da República para saber o telefone do sem abrigo, a fim de combinar a cirurgia.

E a jovem mãe de 22 anos que fez o parto no chão de uma rua, a meio de uma noite fria e húmida, muito provavelmente sem a ajuda de alguém, quase de certeza cortando o cordão umbilical com uma faca suja? Será que o Presidente que se preocupa tanto com os sem abrigos se preocupou com ela?

O que terá levado uma jovem de 22 anos a ser sem abrigo, a partir só no chão de uma rua de Lisboa no santo ano de 2019? Será uma mera assassina como a tratou um Ministério Público que a prendeu a meio do dia e o juiz que a mandou logo para a cadeia?

Pois é, perguntar o que levou uma jovem portuguesa a este extremo não dá votos nos tempos que correm, nisto não parece haver grande diferença em relação ao Chega, o populismo tem destas coisas. Mas a seguir à criança não há mais nenhuma vítima, apenas há um herói útil para engrandecer a imagem presidencial?

Obrigado senhor presidente, a assassina está presa, o herói tem casa e vai ser brevemente operado, a criança será entregue ao cuidado de uma família cheio de amor e todos podemos começar a preparar as filhoses para o natal, o país nunca foi tão feliz e graça ao Marcelo podemos voltar a viver tranquilos.

segunda-feira, outubro 28, 2019

ESTÃO BEM UNS PARA OS OUTROS


Não há qualquer diferença entre ir à Assembleia da República fazendo-se acompanhar de um homem vestindo saias ou defender a redução de deputados, são duas formas, uma mais original do que outra, de chamar a atenção. É-me tão indiferente o que diz um ou o que vestem os outros, são formas populistas de fazer palhaçada.

Neste momento os amigos do senhor que usa saias vociferam contra a entrada da extrema-direita no parlamento, enquanto os do Chega brincam com piadas sobre a utilização das saias. À esquerda multiplicam-se os se mostram indiferentes às saias e vomitam contra a entrada da extrema-direita no Parlamento, enquanto na direita já se esqueceram do PAN e agora diabolizam o Livre.

O populismo é assim, nem o país fica rico de diminuírem os deputados, nem fica mais democrático se todos acharmos normal os homens desatarem a andar de saias, desde que não seja o Castelo Branco a fazê-lo é algo de democrático, senão mesmo de revolucionários. Um 25 de Abril na indumentária.

E em vez de estarmos a discutir os problemas do país parece que o tema é a altura das saias ou se os sapatos combinavam bem com o resto ou se para se sentar o deputado do Chega tem ou não de se roçar na sua colega do CDS que até bem mais gira vestindo fato de macaco do que o assessor do Livre, mesmo que se apresente de bikini.

Estão bem  uns para os outros, a extrema-esquerda e a extrema-direita promovem o circo, chamando a atenção para os seus e em vez de discutirmos problemas importantes que deviam ser resultado do trabalho parlamentar, discutimos o acesso dos deputados aos lugares ou as majorações de tempo com que se deve compensar a gaguez.

quarta-feira, outubro 23, 2019

SEM O BOMBO DA FESTA NÃO HÁ FESTA


Desde os tempos em que Miguel Cadilhe informou o país de que haviam 150.000 funcionários públicos a mais e Cavaco Silva criou listas de disponíveis com vista ao seu despedimento que todos os males dos país são provocados pelos funcionários públicos. De vez em quando andam distraídos, com ciganos, africanos, gays, gagos e obstetras mas rapidamente voltam ao mesmo, o bombo da festa é sempre o funcionário público.

Não há nada em Portugal que não desague no Estado e todos os incidentes e crises, sejam financeiras ou da saúde, depressa alguém prova por dois e dois que a responsabilidade é do Estado e não tarda um qualquer político descobre logo que tudo se resolve com mais umas pancadas no bombo.

Ganham demasiado, a média salarial de médicos e de engenheiros é maior do que a média se salários na fábrica de parafusos? Cortam-se nos vencimentos, congelam-se aumentos e promoções. É preciso mais dinheiro para a Saúde? A solução é óbvia, aumentam-se os horários de trabalho, exigem-se mais consultas por hora, multiplicam-se os truques para aumentar a produtividade.

O modelo deu resultado, mas está sucedendo ao Estado o mesmo que sucedeu ao burro que se habituou a viver sem comer. Descobre-se que o vencimento de um professor não dá para pagar duas rendas de casa mais os transportes para as deslocações, que os médicos estão cansados com tantas horas e urgências, que os enfermeiros estão a ir-se embora, que em muitos serviços do Estado a maioria dos funcionários estão à beira da reforma.

Depois de quase trinta anos de festa em que se entretiveram a bater no bombo chega-se à conclusão que o bombo está à beira de rebentar e sem bombo deixa de haver festa. Mais um par de anos deste oportunismo político, deste processo de difamação dos funcionários públicos e iremos ver muita gente pagar com língua de palmo o ter andando a encontrar falsos culpados e falsas soluções.

Os serviços de urgências fecham porque faltam médicos jovens, os pais manifestam-se nas escolas por falta de polícias ou de funcionários auxiliares, os alunos estão sem aulas por falta de professores, os emigrantes não se legalizam por falta de recursos humanos no SEF, é impossível renovar o cartão do cidadão porque nos registo não há quem o faça. Um pouco por todo o lado o Estado rebenta. Afinal o burro precisava mesmo de comer.

terça-feira, outubro 22, 2019

PERCEBERAM OU É PRECISO FAZER UM DESENHO?


Depois de alguns comentários de amigos decidi ir ver o programa “Sexta às 9”. Tenho de confessar que não vi o programa até ao fim, antes da entrevista propriamente dita não vi nada de ilegal ou qualquer fato relevante que se pudesse acrescentar ao que já se tinha divulgado e que não passavam de insinuações.

Mas valeu a pena ver a primeira parte, onde o ex-presidente da autarquia Nuno Cardoso fez de conta que recebeu um telefonema que não estava à espera, dando uma entrevista telefónica dizendo coisas que certamente a jornalista ouvia pela primeira vez. A entrevista deu para perceber alguns pormenores que desconhecia e deu para perceber o que estava em causa.

A tal empresa que tinha sido criada era afinal o resultado de uma divisão entre sócios e o que estava em causa era uma tentativa de impedir uma decisão governamental com argumentos que habitualmente cabe aos tribunais dirimir. E onde entra essa personagem de nome Nuno Cardoso? É um homem bondoso, amigo do seu amigo e tendo de um lado um amigo empresário e do outro um amigo político decidiu, num gesto de generosidade, ajudar os dois. No meios de tantos milhões eis que temos uma alma bondosa que acorreu a Lisboa mais o seu amigo empresário, numa tentativa de salvar o seu amigo político e ex-aluno. Tanta bondade é coisa rara no nosso meio político.

A própria jornalista foi sensível ao gesto pois repara que o governo tomou uma decisão a favor de um sócio que se fazia acompanhar de alguém do PS, mas não reparou que estava produzindo uma notícia tentando favorecer o outro sócio que também se fazia acompanhar de alguém do PS, igualmente um ex qualquer coisa do poder. Tem os de um lado uma empresa perigosa e um político oportunista, do outro lado um sócio bom e um senhor cheio de generosidade, no meio e quase a afogar-se nos muitos milhões estava uma jornalista generosa que decidiu quem tinha razão e colocou a televisão ao serviço do sócio bom.

Temos portanto um sócio malandro, um político oportunista, uma jornalista justa, um sócio bom e um senhor movido a generosidade ilimitada para com os seus amigos.
Perceberam?

Um conhecido político e governante do PSD, já retirado da vida política, costumava dizer que há os amigos, os inimigos e os gajos do partido que são os piores. Este caso ilustra bem essa opinião. Apenas acrescentaria que com gente bondosa como vimos neste processo quase fico a admirar os mais velhacos.

Agora conto-vos outra história: um empresário que perdeu um litígio num negócio sabendo que o governo é de um determinado partido procurou alguém influente que conhecesse bem o ministro. Depois foi combinar a estratégia, marcou-se uma reunião com o ministro muito à pressa, sabiam que a decisão que queriam contraria estava por dias e era preciso impedir. Qual o argumento: cuidado porque há aí confusão entre sócios zangados. Falhada a tentativa havia uma única esperança, impedir a nomeação do secretário de Estado promovendo um escândalo. Isso era trabalho para um jornalista de investigação, lançava-se a suspeita de corrupção num primeiro programa, se não fosse suficiente fazia-se um segundo programa, já com a personagem mistério, que para justificar o serviço teria de dar a cara.

Pronto, o desenho está feito para o caso de não terem entendido. E assim se faz política, negócios e jornalismo em Portugal.

segunda-feira, outubro 21, 2019

O FRETE


Apesar da simpatia e confiança que deposito em João Galamba confesso que não me dei ao trabalho de me inteirar sobre o conteúdo do suposto caso que foi criado. Houve quem se tivesse queixado de que a interrupção do programa da RTP foi intencional e para proteger o Governo, mas a verdade é que a questão não existe e na campanha eleitoral já os magistrados do MP se tinham antecipado.

Pelo pouco que sei do processo este não tem substância e foi lançado apenas com um intuito, o de reverter uma decisão em que a intervenção de um governante recém nomeado foi diminuta. É óbvio que há grandes interesses envolvidos e isso significa que os muitos milhões que uns ganharão, foram perdidos por outros. Estando tantos milhões em causa e não havendo fórmula jurídica para reverter o processo, importaria lançar uma campanha para criar um caso político.

A intenção era clara, criando um escândalo que impedisse a recondução de João Galamba no cargo de secretário de Estado poder-se-ia inverter o processo, com o sucessor a revogar as decisões anteriores, dando esperança aos até aqui. O esquema é fácil de montar, há governantes anteriores envolvidos no processo, diretores-gerais ansiosos por se vingarem da destituição e até funcionários a fazer de toupeiras.

É fácil recolher matéria insidiosa capaz de fundamentar notícias e como em Portugal não há vacinas contra a corrupção, tanto de pode comprar políticos como jornalistas, aliás, estes até são mais baratos pois ganham mal e são menos vigiado. Estando muitos milhões em causa é possível comprar políticos para falarem mal de outros políticos, advogados e informadores.

Agora que os secretários de Estado já foram propostos ao Presidente da República veremos se há mais matéria ou se a Felgueiras dá o caso por encerrado se se dedica a um qualquer outro frete que lhe tenha sido encomendado.