sexta-feira, junho 23, 2017

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Pedro Pimpão, deputado

Para Pedro Pimpão o soldado da GNR de castanheira de Pera é membro do governo e António Costa deve ser responsável por tudo o que qualquer agente da autoridade faça.

«Os deputados do PSD que estiveram no terreno e nas zonas afetadas pressionaram o partido — na reunião da bancada social-democrata desta quinta-feira — a enfrentar a “propaganda” do Governo, apesar de o momento ser de luto. “Já chega!”, disse emocionado um dos deputados. Outro optou, também ainda abatido, por contar que a própria filha foi encaminhada pela GNR para a estrada da morte, mas decidiu seguir outra alternativa. Foram várias as vozes da bancada a insistir que está na hora de começar a escrutinar a ação do Governo.

O deputado Pedro Pimpão, eleito por Leiria e que esteve desde o primeiro dia no terreno, emocionou-se na reunião de bancada enquanto garantia aos outros deputados que o discurso oficial do Governo não bate com a realidade. “Custa-me ver toda esta propaganda sem respeito pelo que aconteceu. Sei que o PSD deve respeitar o luto mas já chega, é preciso que as pessoas saibam a verdade“, afirmou o deputado na reunião à porta fechada, de acordo com declarações recolhidas pelo Observador e que o Expresso também noticiou. A direção da bancada e a direção do partido estão a preparar-se para não dar tréguas ao Governo na busca de responsabilidades pelo que aconteceu.» [Observador]

 Sugestão

Se nos próximos dias aparecerem "especialistas", professores universitários ou políticos  a argumentarem em defesa das celuloses, com argumentos de que as críticas ao eucalipto não têm fundamento científico, que o problema é dos abusos e que o setor é fundamental para a economia, exijam-lhes que façam as suas declarações de interesses, que nos digam se de alguma forma ganham dinheiro com os eucaliptos.

 Estradas da morte

Vivemos num país onde muitas centenas de polícias e funcionários municipais se dedicam à caça às multas do estacionamento, somos perseguidos a toda a hora por agentes muito diligentes na hora de passar o aviso das multas, as instituições do Estado multa o cidadão comum por tudo e por nada.

Mas parece que o rigor no estacionamento não se aplica quando está em causa a proteção da ida, da mesma forma que em Lisboa se multa muito por estacionamento e muito pouco por desrespeito pelas passadeiras de peões, há centenas de quilómetros de troços de estradas onde a zona de segurança em que a lei proíbe a florestação não se respeita. É óbvio que os donos desses terrenos não querem prescindir neles, são os de mais fácil acesso e ao a madeira é só lucro. Mas as leis, os fiscais e os polícias servem para que o país não seja uma selva.



A imagem mostra a agora mal afamada EN236, que ficou conhecida por "estrada da morte". Trata-se de um troo na zona onde se registaram as mortes numa imagem do Google Maps anterior ao incêndio. Quem quiser pode percorrer essa estrada recorrendo ao Street View. Em muitos troços, como o da imagem os eucaliptos chegam à beira do asfalto, estando separados por uma vala de meio metro.

Ninguém viu isto na estrada EN236, o mesmo sucedendo em centenas de troços de estrada deste país? Quem fiscalizou a EN236, quem são as suas chefias imediatas que fizeram de conta que davam ordens para cumprir e fazer a cumprir a lei? O que levará a que muitos responsáveis e agentes da autoridade ignorem a lei num país com tantos e tão violentos incêndios.

O mínimo que se exige é que os responsáveis pela fiscalização deste troço sejam acusados de homicídio involuntário. Aposto que nas semanas seguintes vão chover multas e ordem para abater eucaliptos que estão na beira da estrada.

Não faria sentido aumentar aquela distância para vinte metros? Imagino que os madeireiros e as celuloses não gostariam, mas que se danem, à frente dos seus interesses está a segurança dos portugueses.

      
 Não deixar morrer
   
«Toda a gente está a falar da tragédia de Pedrogão. Muitos se lembram da última vez que se falou da última tragédia. Exprimem-se indignação, revolta, angústia e desespero. Às forças da inércia, da preguiça, do statu quo, do deixa-andar que acaba por dar em deixa-arder, basta esperar que tudo passe. Até acontecer outra tragédia e começar tudo outra vez.

Como se pode impedir este sistema cómodo e assassino de sobreviver? As forças do deixa-arder, para disfarçar, erguem-se a protestar também, para não destoar. As forças do deixa-arder tudo fazem para deixar desabafar quem quiser. É desabafando que eventualmente perderemos o fôlego. Depois do desabafo - contam esses poderes instalados - virão o cansaço, o abatimento, a desistência e a aparência externa, politicamente crucial, de indiferença e esquecimento.

Malfeitores são também os que não fazem nada ou só fazem o mínimo para parecer que respondem aos protestos. Malfeitores são também os que, no momento da tragédia, prometem fazer o que ainda não fizeram. Esses são os primeiros a esquecer as promessas. Só se lembram delas para voltar a fazê-las: as mesmas promessas com que nos calaram da última vez.

Como se há-de manter este saudável sobressalto em que tantas vozes discordantes se levantam? Como se há-de manter esta heróica teimosia em repetir o que já se gritou tantas vezes em vão?

É a quantidade de vozes que importa, até mais do que dizem ou divergem. É preciso que não se calem, para que não contem com o nosso silêncio.» [Público]
   
Autor:

Miguel Esteves Cardoso.

quinta-feira, junho 22, 2017

O eucalipto da Quinta da Coelha



O país tinha acabado de entrar na CEE, iria receber milhões de ajudas para o setor agrícola que durante mais de meia década beneficiaria de um regime de transição. Estava em causa uma profunda revolução na política agrícola. Portugal tinha uma economia atrasada, com grandes problemas na qualificação de uma população ativa excessiva, sem uso de tecnologias, com grandes problemas na estrutura da propriedade fundiária. 

Cavaco Silva era primeiro-ministro e escolheu um engenheiro civil da Soporcel, a grande empresa do setor da celulose, para o cargo de ministro da Agricultura do IX Governo Constitucional, que tomou posse em 1983, tendo sido renovado na pasta nos X e XI Governos Constitucionais, isto é,  foi o ministro da Agricultura do Cavaquismo, tendo assumido o cargo ainda antes da entrada de Portugal na CEE, condicionando, desde logo, todo o processo de transição. 

Com a entrada na EU deu-se início a um processo de transformação forçada e acelerada no setor agrícola. Nada se fez na estrutura fundiária, quase nada se fez na promoção do setor agroindustrial, nada se fez na promoção do regadio (Cavaco boicotou de forma militante o projeto de Alqueva), nada se fez na qualificação dos trabalhadores e empresários agrícolas, nada se fez no domínio das universidades e investigação no setor.

Assistiu-se muito simplesmente a uma redução acelerada da população ativa que envelheceu ou foi absorvida pelo próspero setor da construção e obras públicas, os agricultores ou emigravam ou iam para serventes de pedreiro. Se nas cidades Cavaco elogiava o crescimento do setor dos serviços e, em especial, a banca, na agricultura apontava-se a redução brutal da população ativa como símbolo da sua modernização.

Só que esta redução da população agrícola, que levou á desertificação do interior, não resultou do aumento da produtividade no setor, mas sim a uma aposta no setor dos cereais em prejuízo de quase todos os outros, designadamente, das carnes. Contado com o apoio da poderosa CAP os cereais foram os grandes ganhadores. Por outro lado, compensava-se o abandono das terras com a plantação de eucaliptos. A busca de ajudas para alimentar a máquina de propaganda cavaquista levou os governos de Cavaco a aproveitarem as compensações que a CEE dava a tudo o que era abandono de produções agrícolas e da pesca.

Para ter dinheiro para estradas feitas à pressa, como a IP5, que eram inauguradas antes das eleições, de que hoje Cavaco se gaba de ter sido um campeão, destruíam-se os setores da agricultura e da pesca. Matavam-se dois coelhos com uma cajadada, Cavaco ganhava as eleições e a SOPORCEl transformou-se num império, transformando um pequeno país do Sul num grande exportador de papel.

Hoje Cavaco está tranquilamente aos incêndios na sua luxuosa e fresquinha vivenda na Quinta da Coelha, certamente orgulhoso da sua obra e a culpar os seus sucessores pelos incêndios que por aí vão queimando os seus queridos eucaliptos. Só é pena que o eucalipto mais resistente ao fogo seja aquele que em tempo ganhou a alcunha de eucalipto da classe política.

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Nuno Serra, deputado desconhecido especialista em incêndios

É preciso alguma imbecilidade para que um político vá visitar as operações de combate aos incêndios com o único objetivo de se aproveitar da presença de jornalistas para questionar a competência ou maturidade de quem está a combater os incêndios. É preciso também ter pouca vergonha na cara,

«deputado do PSD Nuno Serra afirmou esta manhã em Avelar, junto ao posto de comando da Proteção Civil, que viu "alguma descoordenação e desorientação" no processo de combate às chamas no norte do distrito de Leiria.

"Apercebemo-nos do forte empenho de todas as forças da autoridade, forças policiais e bombeiros no terreno, apercebemo-nos da fantástica solidariedade de todos que querem ajudar, mas também vimos algo que nos preocupou: alguma descoordenação ou desorientação neste processo", disse o deputado Nuno Serra, que fez parte de um grupo de deputados social-democratas que esteve hoje a acompanhar a situação no norte do distrito de Leiria, afetado pelo incêndio que começou no sábado, em Pedrógão Grande.

Em declarações aos jornalistas, Nuno Serra não quis apontar responsabilidades, mas assegurou que os deputados do PSD viram "muitas falhas de comunicação e alguma desorientação" na zona do posto de comando.» [Expresso]

      
 Ao especialista instantâneo em incêndios
   
«É solitário não se ser especialista instantâneo em incêndios por estes dias. Eu não sabia que vocês eram tantos na nossa vida: às vezes parece que por detrás de cada telemóvel e de cada teclado, de cada microfone e página de jornal, de cada câmara e em cada estúdio, há um especialista instantâneo em incêndios. A convicção de cada um é grande, as certezas fulminantes. Às vezes gostaria de fazer uma troca: ouvir-vos menos agora para ouvir mais os especialistas não-instantâneos (também conhecidos por "aqueles e aquelas que se deram mesmo ao trabalho de estudar e pensar prolongadamente sobre um determinado tema") durante o resto do ano.

Mas não. Nós sabemos as regras do jogo. A sazonalidade dos fogos determina a dilatação do perímetro de especialistas e a multiplicação dos espécimes opinativos. São eles o preço a pagar por podermos ouvir também os especialistas não-instantâneos (ou, como eu lhes prefiro chamar, "aqueles e aquelas com quem se aprende qualquer coisa") que estão cada vez melhores. Distingo-os à maneira possível aos pobres não-especialistas como eu: aquelas e aqueles com quem se aprende alguma coisa, além de não costumarem aparecer no resto do ano, são menos definitivos nas suas respostas, repetem muitas vezes que "é complicado" (para desespero dos entrevistadores) e têm, em geral, um ângulo ou abordagem que perseguem há anos, metodicamente: sabem que proteção civil não é idêntica a proteção ambiental, que o ângulo da desertificação não é o mesmo das alterações climáticas, que a prevenção e o combate não têm os mesmos princípios nem os mesmos objetivos, etc. Sabem que precisam uns dos outros para avançar no conhecimento e nos resultados.

Já o especialista instantâneo não precisa de mais ninguém. Fala ou escreve como se a sua torrente de opiniões apagasse os fogos. Quem dera. Mas a torrente de opinião muda de rumo todos os dias. No primeiro dia, choque e consternação. No segundo dia, escândalo e indignação. Ao terceiro dia, a sentença: nada vai mudar a não ser para pior, vai continuar a haver incêndios e mortes, o país é uma esterqueira. É aí que estamos agora.

Esta profecia tem a vantagem, para quem a profere, de não poder falhar. E, no entanto, eu acho que, na sua certeza, ela está errada. Porquê? Como não-especialista que sou, procedo por analogia.

Em tempos Portugal tinha altíssimos níveis de sinistralidade rodoviária. Sou suficientemente velho para me lembrar de quando os cintos de segurança se tornaram obrigatórios, de quando os testes de alcoolemia se tornaram banais, de quando as rotundas começaram a pipocar nas vilas e cidades do país. Em cada um destes momentos houve especialistas instantâneos que proclamaram instantaneamente a inutilidade destas e outras medidas semelhantes. Não pensem que exagero: lembro-me de um colunista importante e definitivo que, então nas páginas deste jornal, jurava que continuaria a guiar em excesso de velocidade porque a culpa dos acidentes era dos outros condutores piores do que ele. Mas a verdade é que, por virtude de muitas pequenas boas medidas, a sinistralidade rodoviária em Portugal diminuiu e muito. Fala-se pouco disso hoje: deixámos de ser uma mancha negra nas estatísticas. Desenvolvemo-nos.

Pois bem. Há uma variável na equação dos incêndios em Portugal que nós podemos mudar: desenvolvermo-nos mais. E, contra a torrente opinativa, acredito que queremos mudar essa variável, e que o vamos fazer. Um dia haverá menos fogos incontrolados (sim, apesar das alterações climáticas: é uma questão de nos prepararmos melhor para elas) e muito menos mortes em incêndios em Portugal. Esse dia será devidamente anotado pelas estatísticas e talvez passe no fim de um noticiário, dando um nó na garganta a quem perdeu os seus amados nos fogos e nunca os esquecerá. Sei disto porque os especialistas não-instantâneos (ou, como lhes deveríamos chamar, os especialistas) têm dito muitas coisas sensatas e implementáveis. Quanto aos especialistas instantâneos (ou, para ser preciso, não-especialistas) deveriam talvez ouvir mais. Para não dizer, como é costume deles, que podem sempre ir limpar matas.» [Público]
   
Autor:

Rui Tavares.
      
 Falta de respeito
   
«As mortes do fim de semana, vítimas do incêndio violento, ainda não estão resolvidas na cabeça de muitos moradores de Pedrógão Grande e Castanheira de Pêra, cansados da excessiva cobertura mediática da tragédia.

Em Vila Facaia, Maria, 86 anos, diz que já deu "quatro ou cinco entrevistas". Agora, "deixem-me em paz, que quero chorar a minha vizinha" que morreu, carbonizada, perto da Estrada Nacional 236-1, que todos agora chamam de "estrada da morte".

Não quer falar e refugia-se no xaile negro, à espera que a deixem. O cansaço é evidente, dantes pelo fogo que rondava as casas e agora pelo bulício diário de operadores de proteção civil, assistentes sociais e jornalistas.» [DN]
   
Parecer:
O trabalho dos jornalistas envergonha o jornalismo.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Vomite-se.»
  
 Debater a floresta
   
«O Parlamento sai esta quarta-feira do luto por Pedrógão Grande com uma sessão de homenagem às vítimas e uma certeza: há pressões, do Presidente da República e do Governo, para que os deputados aprovem antes das férias um novo pacote legislativo global com medidas que deem resposta às situações que a tragédia destes dias voltou a evidenciar.

Marcelo Rebelo de Sousa já articulou com António Costa e Ferro Rodrigues que o Parlamento não deve ir de férias sem legislar nesta área. O Presidente quer deixar os diplomas promulgados e o processo vai mesmo ser acelerado.

Terça-feira, no Fórum da TSF, Amândio Torres, secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, confirmou que o Governo quer ter as novas leis aprovadas pelo Parlamento "antes das férias". E o Presidente da República espera um pacote que cubra as várias vertentes em jogo, desde as questões penais às do ordenamento do território. "Sobre tudo, mas tudo é tudo", confirmou o Presidente da República ao Expresso.» [Expresso]
   
Parecer:

É preciso adoptar leis e medidas para corrigir um modelo florestral promovido pela dupla formada por Cavaco Silva e Álvaro Barreto, que se veio a revelar desastroso
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Aprove-se.»

 E ao quarto dia o homem pensou
   
«O presidente da Liga dos Bombeiros acredita que o incêndio que lavra desde sábado em Pedrógão Grande, Leiria, teve origem criminosa.

“O incêndio já estava a decorrer há cerca de duas horas quando se desenvolveu o problema com raios, que provocaram um conjunto de ignições a acrescer, efetivamente, aquele incêndio que já era de uma violência extraordinária”, declarou Jaime Marta Soares no Fórum TSF, esta manhã.

“Eu tenho para mim, até que me provem o contrário – e não sou eu que tenho de provar, têm que me provar que eu é que não terei razão –, que o incêndio teve origem criminosa”, acrescentou.» [Expresso]
   
Parecer:

Como é possível que só agora o presidente da Liga dos Bombeiros tenha sabido a hora a que começou o incêndio, depois de todas as intervenções que já fez.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se ao presidente da Liga qual é o seu papel nas operações.»

quarta-feira, junho 21, 2017

Tanatose política



A vida política portuguesa é dominada pelo empirismo, alguns dos nossos especialistas nessa nova ciência política fazem constatações, que rapidamente se transformam em regras inquestionáveis do funcionamento do sistema político. Um exemplo disso era a regra segundo a qual nas eleições os portugueses não metiam todos os ovos no mesmo cesto, quando um partido ganhava as legislativas o outro ganhava as presidências. A grande vítima desta verdade absoluta foi Fernando Nogueira, Cavaco Silva que ambicionava ser presidente acreditou na tese e fez tudo para o seu sucessor perdesse as legislativas. Afinal, estava errado, Nogueira perdeu as legislativas e ele teve de esperar mais dez anos para ganhar as presidenciais.

Outro principio inquestionável desta ciência política saloia é a de que não são os partidos da oposição que ganham as eleições, são os partidos que estão no governo que as perdas. É por isso que alguns “líderes da oposição” chegam a dizer que um sabem que vão ser primeiro-ministro, só não sabem quando. A oposição acaba por ser um par de anos de jantares de lombo assado, a não ser que o diabo esteja para vir, como sucedeu com a troika, ser líder da oposição é não fazer asneiras e esperar que quem governa as faça ou seja vítima de uma qualquer circunstância imprevisível.

A estas regras inquestionáveis junta-se ainda uma terceira que que terá sido estabelecida pelo Salazar. Conta-se que certo dia Salazar deu um conselho a um jovem político ambicioso, disse-lhe se queria ir longe na carreira política que fizesse de morto. É a versão salazarista de um dito popular que nos diz que “quando se abre a boca ou entra mosca, ou sai asneira”. Passos Coelho, que nos tempos de primeiro-ministro chegou a ser fotografado sentado sobre uma biografia de Salazar, parece seguir este princípio e desde o maldito relâmpago de Pedrogão Grande que anda a fazer de morto, ainda por cima tem a vantagem de no meio da confusão ninguém dar por ele, até ao momento não se sentiu a sua falta, ninguém lhe pediu para ajudar com a sua experiência e saber..

Passos cumpriu a sua obrigação, apareceu na Proteção Civil de Lisboa, longe da fumarada, só para marcar presença e para dizer que espera que tudo passe para ver se armar em madeireiro e ver se faz negócio com a madeira queimada. Até lá não fala, não telefona, não tuge nem muge, não corre o risco de dizer o que pensa, não vá sair-lhe alguma asneira, resguarda-se fazendo de morto. Até dá jeito suspender alguns compromissos autárquicos em solidariedade com os que sofrem, esta é a pior ocasião para falar, até porque não convém falar em autarquias não vá algum jornalista mais distraído questioná-lo sobre o que se terá passado lá para os lados de Oliveira de Azeméis.

A estratégia é manhosa e aparentemente inteligente, mas uma coisa é fazer de morto perante uma questão de lana caprina, outra é fazê-lo perante uma crise de dimensões nacionais. O mesmo que chamava piegas aos portugueses pode estar a passar a imagem de um político cobardolas e oportunista. Alguns animais têm a capacidade de se fazerem de mortos para escaparem de predadores, s animais que têm esta capacidade costumam virar-se de ventre para cima, alterar a sua coloração e por vezes até exalam o cheiro a cadáver, esta capacidade designa-se por tanatose. O comportamento de Passos Coelho é um caso típico de tanatose política.
  

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Assunção Cristas, ex-ministra da Agricultura

Assunção Cristas vai pareceu finalmente, talvez porque o seu colega Amaral achou que Marcelo estava a dar beijinhos no dói dói. Diz que vai fazer todas as perguntas, faz muito bem, pode começar por perguntar-se a si própria o que fez durante os 4 anos em que foi ministra da Agricultura e teve a responsabilidade pelas florestas.

«Para Assunção Cristas, este "é tempo de luto", em que o partido "partilha a dor" e está solidário com quem perdeu familiares e amigos e com quem está ainda a combater as chamas.

Depois, "a seu tempo", afirmou ainda, haverá um debate sobre o que se passou nestes últimos dias e também para evitar que situações deste tipo se repitam.

Assunção Cristas garantiu ainda que o CDS está a seguir uma estratégia já definida pelo partido logo após o início dos incêndios, evitando a questão de dizer se estaria a seguir o pedido do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para que se evitasse outra "frente" de debate.» [DN]

 José Miguel Júdice 

Um político enciclopédico, quem o ouviu chega à conclusão de que o incêndio na sua dimensão e local era previsível. Para ele o governo devia ter bombeiros e equipamentos de prevenção à espera de uma trovoada seca, devia ter esclarecido os que tinham ido à praia fluvial e que estavam passando o fim de semana prolongado na zona de que não deveriam ir para a estrada 236 porque iria ficar em chamas.

O seu tema de antena combinado na TVI24 foi uma montagem, a Judite Sousa começou por dizer que ios incêndios seriam um tema central, de seguida foi o próprio Júdice que disse perante uma jornalista atrapalhada que isso foi o que a TVI lhe pediu. Isto é, a TVI24 pediu o espetáculo a Miguel Júdice e este fez o frete. Era necessário lançar a dúvida depois da entrevista de António Costa.

Enfim, há muitas formas subtis de ajudar a direita a conseguir uns votos miseráveis. Desta vez a encenação combinada entre a Judice Sousa e Júdice nada teve de subtil.



 E agora

Extintos os fogos e enterradas as vítimas subsistirá uma questão, como recuperar o ambiente, ajudar os que viram a sua forma de vida destruída e ajudar os concelhos que já eram pobres e agora ficaram devastados? O mais certo é que quando os diretores de informação das televisões concluírem que o assunto já não atrai telespetadores vão ignorar o assunto. Se agora há uma grande avidez por informação de mistura com uma curiosidade mórbida, daqui a uns dias quem não sofreu com os incêndios fará o luto esquecendo e não querendo ser confrontado com o problema. A curiosidade dará lugar ao enjoo e os diretores de informação preocupar-se-ão com novos temas "de interesse".

Mas os que ficaram com as casas queimadas continuarão sem casa, os que viram os seu esposo, a sua esposa, os seus sogros, os seus filhos, os seus genros serem queimados continuarão a suportar a dor e para muitos além de terem partido os entes queridos terão de sofrer durante muitos anos as consequências económicas e ambientais do desastre. Mas serão esquecidos, as boas almas deixarão de fazer chamadas de valor acrescentado e ignorar os NIB de solidariedade, os jogos de futebol deixarão de ter  minutos de silêncio e os jogadores deixarão de usar faixas de luto, tudo voltará à normalidade e ninguém quererá saber da desgraça alheia. Dentro em breve estaremos todos na praia desejando que nesses dias volte a sentir-se o calor que se sentiu em junho.

É fácil apagar incêndios mas devemos exigir a este governo, bem como aos próximos que não se esqueçam dos que ainda vivem nas aldeias devastadas de Pedrogão Grande, que não os deixem de apoiar na luta que terão de travar com os diretores oportunistas das companhias de seguros, que os ajudem a reconstruir as suas vidas, quer no plano social quer económico.

Mais importante do que o exorcismo das causas ou o debate político oportunista a que já se assiste é perguntar o que vai ser feito e não apenas nos próximos dias ou semanas, mas sim nos próximos anos. Pergunta que também é válida para as vítimas dos incêndios na Madeira. Enquanto os políticos e jornalista procuram obter lucros no rescaldo da catástrofe,  nos concelhos atingidos pelos incêndios há pessoas sem comida e sem cozinha, animais domésticos abandonados, gado por alimentar, crianças para entreter. É um trabalho lono e pesado que não se esgota com os incêndios da comunicação social.



 A propósito do editorial do El Mundo


O editorialista do El Mundo, jornal de direita espanhol, está esquecido de quando os bombeiros portugueses foram importantes no combate a um dos maiores incêndios ocorrido em Espanha.

      
 A vez de Mourinho
   
«O fisco espanhol apresentou uma denúncia contra o treinador português. José Mourinho é acusado de lesar o fisco em 3,3 milhões de euros, no período entre 2011 e 2012, quando era treinador do Real Madrid.

A notícia está a ser avançada pela imprensa espanhola. De acordo com o El País, dos 3.304.670 euros, 1.611.537 milhões de euros dizem respeito ao ano de 2011 e 1.693.133 milhões de euros ao ano de 2012.

Segundo as autoridades fiscais espanholas, o treinador português serviu-se de uma sociedade estruturada, cuja data de criação não se conseguiu apurar, com o “objetivo de tornar fisicamente opacos os benefícios dos seus direitos de imagem”. O contrato entre José Mourinho e o Real Madrid foi assinado a 31 de Março de 2010, cidade que passou a ser a sua residência permanente. Perante esta mudança, adquiriu o estatuto de residente fiscal em Espanha.» [Observador]
   
Parecer:

Veremos se com Mourinho também vamos ouvir as vozes indignadas que se fizeram ouviir no caso de Ronaldo.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Prepare-se um grande exército para invadir Espanha.»
  
 Empreendedorismo à portuguesa
   
«Numa curta nota à imprensa, a Segurança Social faz saber que “tem conhecimento de que existem situações de falsas visitas de indivíduos no terreno que se fazem passar por técnicos da Segurança Social”, "apesar do momento de infortúnio que se vive, causado pelos incêndios de Pedrógão Grande e Góis”.

“Assim sendo, o Instituto da Segurança Social alerta as populações que os técnicos da Segurança Social no terreno estão devidamente identificados”, garante o organismo.» [Expresso]
   
Parecer:

Há sempre alguém com sentido para o negócio.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Lamente-se.»

 Temos candidata!
   
«A vice-presidente do PSD Teresa Leal Coelho, que falava aos jornalistas no final da reunião da Comissão Política Nacional na sede do partido, anunciou que os sociais-democratas vão desafiar os outros partidos a juntar-se nesta proposta.

"Esperemos que todos os partidos se juntem a nós para obtermos respostas irrefutáveis", afirmou, acrescentando que se trataria de uma comissão de peritos e não parlamentar, que seria constituída apenas por técnicos e funcionaria de forma independente do Governo e da administração pública.» [DN]
   
Parecer:

Digamos que esta candidata cuja candidatura já era defunta renasceu das cinzas.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se à senhora se acha que vai ganhar com os incêndios.»

terça-feira, junho 20, 2017

O diabo chegou a Pedrógão Grande



Ainda o incêndio fazia vítimas e já alguns jornalistas, certamente seguindo ordens dos seus diretores de informação procuravam pistas para culpas que alimentassem as labaredas do debate político. Se tudo tinha falhado por causa de uma falhas nas telecomunicações. A TVI até mandou a Judite Sousa explorar o drama e a sua subdiretora de informação não desiludiu, foi em busca de cadáveres e de familiares das vítimas e foi o que se viu, fez o que pediu que não fosse feito com a morte do seu filho, mas gente do povo não merece tais pruridos. 

Passos Coelho esperou e quando achou oportuno fez uma visita de circunstância aos serviços da Proteção Civil em Lisboa, não foi falar com nenhum bombeiro a cheirar a fumo, visitar algum ferido na unidade de queimados ou a ver alguma aldeia devastada pelo fogo. Convocou as televisões para a sua comunicação e no conforto citadino foi marcar a agenda política dizendo que ainda não era o tempo para o fazer. Este é o mesmo Passos que disse não se aproveitar de casos judiciais e que depois o fez sem qualquer pudor.

Se quisermos saber o que Passos quer que a nós pensemos que é o que ele pensa devemos esperar pelo fim do dia, mais oou menos à hora dos jantares de Leitão assado, que ele aparece. Mas se quisermos saber o que realmente ele pensa ou, muito mais certo, o que ele vai pensar, devemos ler os seus ideólogos de jornais como Rui Ramos, Helena Matos e José Manuel Fernandes, que escrevem no Observador, ou João Miguel Tavares que mantém uma coluna de espuma no Público. Se os lermos ficamos a saber qual a mensagem que Passos está a propagar ou que vai fazer sua, que o país vive de de propaganda e que os incêndios são a realidade resultante da competência.

Depois de todas as estratégias terem falhado, o défice foi controlado, o BE e o PCP não se deixaram seduzir por uma estratégia de coligação espontânea no parlamento, a direita europeia não veio em auxílio de Passos, a extrema-direita foi derrotada no Reino Unido e em França, as taxas de juro da dívida estão em queda, a notação vai deixar de ser lixo. Depois da aposta na vinda do diabo em Setembro de 2016 eis que parece que a vida do diabo, tão desejada por Passos Coelho, ocorreu em Junho de 2016 em Pedrógão Grande.

Passos e os seus ideólogos da extrema-direita chique não perderão a oportunidade de se aproveitarem da desgraça alheia, com notícias relativas a corrupção autárquica de altos dirigentes do PSD para abafar, há que centrar o debate das autárquicas nos incêndios.