terça-feira, outubro 05, 2021

O TENDÃO DO RICARDINHO



Não sei se teria andado mais ocupado a ler os relatórios diários da DGS sobre as estatísticas daCovid-19, se assuntos como o Afeganistão ou mesmo o cachão dentro da doca do Alfeite, não me terão distraído de assuntos de grande importância nacional.

Mas fiquei a saber que o país discutiu um assunto nacional de grande importância, o tendão do Ricardinho. Desde o Aquiles o mundo não tinha parado por causa do tendão dos artelhos, nem mesmo os artelhos do António Costa mereceram grande discussão por causa da rotura no tendão do Medina.

Aqui ficam as minhas desculpas por nunca ter aqui dado a devida importância ao tendão do Ricardino. O que nos ale é que podemos dormir descansados, temos sempre um Presidente da República que cuida de nós, ajuda-nos a superar as crises nacionais, incluindo a provocada pelo tendão do Ricardinho.



domingo, outubro 03, 2021

INDICADORES DE ALERTA

Na economia há sinais que antecipam as alterações dos ciclos económicos, são indicadores de alerta que permitem aos decisores alterarem as políticas.

É uma pena que os políticos não façam o mesmo e em vez de decidirem em função das sondagens, optem por terem sentido crítico. Mas, em vez de perceberem os pequenos sinais que apontam para o descontentamento, preferem persistir no autismo, vendo grandiosas vitórias onde as derrotas começam a ser evidentes.

É pena que em vez de terem lido os resultados eleitorais das últimas autárquicas, muitos tenham achado que a perda de Lisboa foi largamente compensada pela conquista de Monchique.

Se em vez de pensarem um pouco optarem por alimentar o autismo com sondagens simpáticas, que provocam ondas de alegria nas redes sociais é bem provável que um dia destes aconteça ao nível nacional o que não quiseram perceber que podia acontecer em Lisboa.



sexta-feira, outubro 01, 2021

QUEM FOI O GARGANTA FUNDA?

No caso do cachão provocado pelo problema da troca no almirantado, o grande problema do Rui Rio nem foram os salpicos, mas sim quem fez o vento, tornando pública a intenção do governo.

Se o Presidente da República não sabia, o que é pouco provável, já que sendo o comandante supremo das forças armadas é bem capaz de ter conversas ao pé da orelha com os comandos das Forças Armadas, restam duas fontes possíveis, o governo e o chefe do Estado Maior da Armada, bem como os que souberam através destes.

Quem tinha interesse em deixar o governo em dificuldades? O ministro da Defesa que não gosta do Almirante, o Almirante que não gosta da política de defesa? Aceitam-se palpites. 

quinta-feira, setembro 30, 2021

O QUÊ?


 

Todo o país percebeu que ali para os lados de Belém o mar estava com cachão por causa dos ventos vindos de São Bento. Mas é uma pena que o nosso comandante supremo das Forças Armadas não use farda, como sucede com os reis de Espanha, senão, em vez de trajes de comentador televisivo, Marcelo teria vestido a farda de almirante, a lembrar O rei Juan Carlos a falar aos golpistas do 23F.

Mas em vez de um almirante vimos um comentador explicar aos 10 milhões de alunos que essa coisa da promoção do contra-almirante já estava agendada. Ficámos desiludidos, afinal, aquilo que se pensava ser um prémio pela última batalha das Forças Armadas, já estava combinada.

Mas o que mais chamou à atenção foi um pormenor que escapou a muita gente. O atual Chefe do Estado Maior da Armada anteciparia a sua saída do cargo, para que outros pudessem ascender ao cargo, antes que fossem navegar para as águas tranquilas da reserva naval.

Isto é, os cargos de topo das nossas Forças Armadas não são para comandantes militares, mas sim para pré pensionistas poderem ter mais uma promoção. E tudo devidamente explicado no meio de um recado ao comandante supremo ao grumete do ministro da Defesa.

terça-feira, setembro 28, 2021

NOVOS TEMPOS EM BELÉM


 

Nos tempos de Cavaco Silva o que o então PR queria que constasse era comunicado aos jornais sob a forma de “fonte de Belém”. Quando as coisas corriam mal Cavaco Silva apressava-se a esclarecer que só o que ele dizia contava.

O regabofe das fontes de Belém chegou a um ponto tal, que quando Marcelo ganhou as presidenciais apressou-se a dizer que lhes tinha silenciado com uma rolha. E acabaram, o que é fácil de se perceber, com um PR a falar de manhã à noite, a fonte de Belém é mesmo o presidente, ainda que às vezes pareça menos credível do que as fontes de Cavaco.

Mas parece que as coisas mudaram, com as últimas eleições autárquicas as fontes de Belém ressuscitaram. Ninguém fale em fontes, não vá alguém perguntar ao Marcelo se contratou o Fernando Lima, o antigo jornalista que fez de Cavaco um político e depois de durante tantos aos ao serviço da carreira de Cavaco, foi descartado por causa das famosas escutas em Belém. Enfim, ironia do destino, a fonte de Belém foi dispensada por causa das escutas a Belém...

Agora, usa-se nova terminologia, quando querem que saibamos o que pensa Marcelo sem que o PR assuma a responsabilidade pelo que terºá dito ou terá mandado dizer dizem que será o que se ouve ou pensa "em Belém". Isto é, já não há um “garganta funda oficiosa no palácio”, agora falam alto nas salas do palácio e um qualquer jornalista, que por coincidência passe junto de uma das muitas janelas abertas, ouve os funcionários dizerem o que por ali todos dizem, o que o Presidente quer que se ouça fácilmente nas janelas que dão para a rua.

Estarei enganado ou depois dos “novos tempos” em Lisboa, vamos ter também ter “novos tempos” em Belém? Parece que sim. É como cantou José Mário Branco "Mudam-se os tempos, mudam as vontades".


PS: Na foto aparece um encontro casual entre Marcelo e o agora presidente da CM de Lisboa. Um encontro tão casual como o que aconteceu nas últimas autárquicas entre o mesmo Marcelo e a então candidata do PSD. Enfim, parece que sou o único português que não tem uma selfie com o Presidente , nem se encontrou casualmente com ele.





segunda-feira, setembro 27, 2021

O CASE STUDY

Se este governo cegar ao fim da legislatura sem qualquer remodelação e ganhar as próximas eleições legislativas, sendo um governo minoritário e com alguns ministros “espanta votos” estaremos perante um fenómeno político.

Ainda não percebi se António Costa está sugerindo que o consideramos um case study, mas começo a desconfiar de que sim, talvez estejamos perante um fenómeno político merecedor de atenção de analistas e dos cientistas da ciência política.

Para já, parece que o primeiro-ministro está muito empenhado nesta ideia, tão empenhado que até correu o risco de ir a votos nas autárquicas, partindo do princípio de que armado de uma bazuca evitava o fogo dos tanques inimigos.

Para já, o balanço não foi muito negativo, perdeu algumas câmaras, ganhou outras e continua a ser o maior partido autárquico. Perdeu Lisboa e Coimbra, isso não representa grande custo, afinal, conquistou Monchique  e mais algumas minudências autárquicas. Estatisticamente, neste saldo de derrotas e vitórias seria tão grave perder Alcoutim como Lisboa, as contas são simples na escolha do presidente da associação dos municípios cada câmara vale um voto.

Se António Costa perdeu Medina, mas em contrapartida não atirou o Eduardo Cabrita pela borda fora, antes pelo contrário, até ajeitou o orçamento familiar com um cargo para a esposa. Um balanço deveras positivo, perdeu Medina um autarca que vale tanto como o presidente de Barracos ou de Alcoutim, em contrapartida, manteve umas das famílias mais nobres da corte.

António Costa está de parabéns ganhou as eleições. Só espero que não se recorde dos políticos que tiveram carreiras que terminaram em cargos de primeiro-ministro ou de Presidente da República, depois de terem conquistado essa câmara municipal que na contabilidade eleitoral vale tanto como Alcoutim. 

quinta-feira, julho 29, 2021

BABOSEIRAS ORÇAMENTAIS

Rui Rio foi recebido pelo Presidente da República na ronda de audição dos partidos a propósito do OE 2022. Não sabemos se falou de OE ou se preferiu discutir o tempo com o Presidente da República. Mas terminada a audiência teve direito ao seu momento de fama, concentrando a atenção dos jornalistas de serviço em Belém. 

Ficámos a saber o que pensa Rui Rio do principal instrumento de política económica e um dos poucos que é alvo de um debate sério no parlamento, porque a sua aprovação é competência do parlamento. 

Rui Rio disse o que defendia em matéria de política orçamental aproveitou para defender o seu projeto económico e dizer o que pensa nesta matéria? Não, começo por assumir que é uma carta fora do baralho, explicou a sua aritmética e concluiu que o PS não contava com ele, como se alguma vez ele tivesse sido confiável. 

É triste e mesmo deprimente ver um líder do PSD fazer sucessivas intervenções que não passam da vulgar baboseira.

domingo, julho 25, 2021

OBRIGADO PÁ

 


Não, não vou vomitar sobre o gajo rasca que sonha subir na vida à custa de dizer patetices, não vou falar das muitas lágrimas de crocodilo dos que o ignoraram e desprezaram quando ele mais precisou, nem vou discutir se o comunicado do PCP é ou não uma obra prima do cinismo.

Vou dizer apenas “Obrigado pá”.


quarta-feira, julho 14, 2021

PARA QUE SERVIRÁ A CONSTITUIÇÃO SEGUNDO MARCELO?

 Imaginemos que um juiz sabe que vai condenar um arguido a uma pena de prisão, mesmo sabendo que o arguido não cometeu o crime e estando certo que depois do recurso o preso será colocado em liberdade. 

Questionado por uma jornalista da RTP 3 o juiz disse estar contente já que mesmo que o inocente esteja em liberdade, a verdade é que o seu acórdão teve efeitos práticos, ficou preso tal como ele gostaria de ver. 

Foi este o caso que me veio à cabeça ao ouvir os comentários do Presidente da República a propósito do acórdão do Tribunal Constitucional a propósito dos apoios sociais que promulgou apesar de violarem a lei em matéria de despesas públicas. 

Aquele que jurou prometer a Constituição parece considera uma vitória uma lei inconstitucional ter tido os seus efeitos práticos apesar do acórdão do Tribunal Constitucional. Enfim, é a melhor justificação jurídica que já ouvi para defender um golpe de estado, os fins justificam os meios.

domingo, julho 11, 2021

PELOURINHOS

Às vezes fico com a impressão de que a nossa justiça recuperou os pelourinhos como forma de castigo público daqueles que os magistrados consideram, desconfiam ou tiveram um palpite de que terão cometido algum crime. Uma justiça que até 194 não teve qualquer credibilidade e que desde então nunca conseguiu ter grande imagem, tenta agora exibir-se perante a opinião pública, levando ao pelourinho personalidades caídas em desgraça. 

Com jornalistas, humoristas e políticos a ignorar de forma oportunista o princípio da presunção da inocência, os nossos magistrados levam personalidade que o povo odeia depois de um longo período de bajulação, para sessões de exorcismo coletivo, em pelourinhos instalados na rua, junto dos gabinetes dos juízes de instrução. 

Pouco importa se as vítimas da ida ao pelourinho vão ser ilibados um ou dois anos depois, ou que as acusações venham a ser reduzidas a quase nada, há que matar as saudades do povo dos espetáculos das fogueiras e dos suplícios no pelourinho. Arranjam-se umas acusações com base em palpites, depois de um trabalho de investigação em bases de dados conduzida por um qualquer manga de alpaca e levam-se as novas “bruxas de Salem” ao juiz de instrução. 

Pouco importa a Constituição ou que um dos principais papeis dos juízes de instrução seja defender dos cidadãos dois abusos dos investigadores policiais, agora os juízes de instrução são justiceiros famosos e como disse um advogado carimbam o que lhes diz o MP. Pior, estamos num tempo em que alguns juízes de instrução fazem eles próprios de mandantes do pelourinho. 

Os que devem à banca que se cuidem, porque se as bases de dados tiverem informação que com palpites criativos podem ser transformados em acusações carimbáveis, vão parar ao pelourinho. Antes disso, o espetáculo tem de ser montado como deve ser e terão de ser mantidos detidos e expostos ao povo, com fugas de informação a informar a população do libelo acusatório que justifica o suplício. 

A nossa justiça está com tanta vontade de fazer justiça que primeiro tortura e condena e só depois vai ver se acertou nos palpites a que agora designam por “fortes indícios”.