domingo, dezembro 30, 2007

Semanada


Os senhores da comunicação social

Com o dr. Macedo a caminho da administração do BCP, a disputa pelas primeiras páginas da comunicação social ficou entregue a Pinto Monteiro, o beirão que ganhou o gosto pelo estatuto de jet set da justiça, e ao presidente da ASAE que apostou forte armando-se em exterminador de restaurantes. Com quase todos os políticos de férias os dois campeões das entrevistas aproveitaram para serem os protagonistas principais da sociedade portuguesa, um a viver à custa da falta de higiene dos restaurantes e o outro da sujidade da própria sociedade. Parece que os males do país estão a dar lugar a um novo tipo de vedetas, já tinha sucedido com o dr. Macedo, agora foi a vez de Pinto Monteiro e do senhor da ASAE.

Luís Filipe Menezes não foi de férias

Menezes lembra-me as lojas chinesas que abrem à hora que as outras estão fechadas porque dessas forma sempre fazem alguma receita, o líder do PSD, talvez aconselhado pelo senhor Vaz, fez o mesmo, aproveitou o “descuido” da concorrência e teve uma semana politicamente intensa, nem sequer teve a disputa do Ribau e do Santana Lopes que, pelos vistos, alguém os aconselhou a sair de cena pois estavam a fazer sobra a Menezes, que já de si é uma sombra por mais holofotes que o iluminem.

Vítor Constâncio sempre é o governador do Banco de Portugal

Quando já se pensava que Constâncio tinha transformado o Banco de Portugal num salão de chá, onde o pessoal do mundo da banca aparecia pontualmente para o chá das cinco, eis que o governador se irritou, chamou lá os amigos do BCP e deu-lhes uma chazada. Digamos que a água já estava a ferver mas só agora que começou deitar para fora é que Constâncio se sentiu incomodado.

É evidente que o governador do BdP nunca tinha reparado, pensava certamente que o pessoal do BCP ia às off-shores para cerimónias íntimas da Opus Dei, talvez umas sessões de introspecção ou mesmo de auto-flagelação.

Com esta intervenção Constâncio salvou a honra do convento, justificou as mordomias de que beneficia e até se excedeu pois sem qualquer processo concluído decidiu quem poderia e quem não poderia administrar o capital dos accionistas do BCP.

Procura-se uma Carla Bruni para Menezes

Logo agora que Menezes disse que queria ser como Sarkozi o presidente francês subiu-lhe a parada, arranjou a Carla Bruna e foi com ela para Luxor, viajando num jacto privado emprestado por um milionário francês. Se já era difícil a Menezes arranjar uma Bruna, Carlas ainda há umas quantas por aí, ainda mais difícil será arranjar um jacto para ir a Luxor, já que para fazer campanha pela liderança nos Açores ainda houve quem lhe emprestasse. Com o MP a propor uma multa de quatrocentos mil euros por causa do pagamento de uma factura pela SOMAGUE, se Menezes conseguir imitar o Sarkozi lá terá que tirar o passe da Carris e levar a sua Carla Bruna a passear até ao Parque das Nações.

Troca de prendas no governo

Parece que alguns ministros andavam perdidos o que explica que como prenda de Natal para os seus empregados Sócrates tenha escolhido um GPS, para melhor se orientarem no próximo ano, pois arriscam-se a não encontrar o caminho para a próxima legislatura.

Em contrapartida os ministros ofereceram uma viagem a Sócrates, todavia, ignoramos se a viagem incluía ida e volta e se Sócrates foi equipado com GPS. De uma coisa estamos certos, levou o telemóvel com que perguntou a Cavaco Silva qual o cavaquista que o PR queria ver à frente da CGD.

Umas no cravo e outras na ferradura

FOTO JUMENTO

Óbidos

IMAGEM DO DIA

[Reuters]

«Los ecuatorianos despedirán el año 2007 y darán la bienvenida al año nuevo con la quema de monigotes que representan a políticos o personajes famosos que la costumbre popular arroja a la hoguera como simbólica protesta ante promesas o esperanzas fallidas.» [El Mundo]

JUMENTO DO DIA

O exterminador de restaurantes

Ao presidente da ASAE, cada vez mais vaidoso e viciado na comunicação social, já não basta o espectáculo das operações acompanhadas de batalhões de polícias e jornalistas, agora dá entrevistas e arma-se em exterminador de restaurantes. Agora diz que 50% dos restaurantes vão fechar porque não verificam as regras comunitárias ou porque não têm viabilidade.

Alguém fecha a boca a este senhor?

FARIA DE OLIVEIRA NA CGD

Com a escolha de Faria de Oliveira para a CGD o governo matou dois coelhos com uma cajadada, calou Luís Filipe Menezes, cumprindo um velho acordo não escrito entre o PSD e o PS, e agrada a Cavaco Silva. É evidente que o que Menezes pretendia era ser consultado na escolha ou que o novo presidente da CGD foi alguém próximo da actual liderança, a escolha de Faria de Oliveira acabou por ser um sapo aplaudida pelo líder do PSD. Ao mesmo tempo Sócrates agradou a Cavaco Silva, dando o lugar a um seu velho amigo que nada tem que ver com o actual PSD.

É aquilo a que se chama matar dois coelhos com uma cajadada ou, melhor ainda, tratar o cão com o pêlo do próprio cão.

A LOGOTERAPIA DE VIKTOR FRANKS

«Num tempo em que o mundo é atravessado por enormes perplexidades e as pessoas são assaltadas pela dúvida, pelo desânimo e até pelo niilismo, quereria, no décimo aniversário da sua morte, deixar uma homenagem a um homem que, na situação mais degradada e degradante dos campos de concentração nazis, mostrou como e porquê é possível manter a dignidade. Refiro-me a Viktor Frankl, fundador da chamada terceira corrente de psicoterapia de Viena: a logoterapia.» [Diário de Notícias]

Parecer:

O padre Anselmo Borges presta homenagem a Viktor Frankl.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

DA OPUS DEI À MAÇONARIA: A INCRÍVEL HISTÓRIA DO BCP

«Em países onde o capitalismo, as leis da concorrência e a seriedade do negócio bancário são levados a sério, a inacreditável história do BCP já teria levado a prisões e a um escândalo público de todo o tamanho. Em Portugal, como tudo vai acabar sem responsáveis e sem responsabilidades, convém recordar os principais momentos deste «case study», para que ao menos a falta de vergonha não passe impune.

1 Até ao 25 de Abril, o negócio bancário em Portugal obedecia a regras simples: cada grande família, intimamente ligada ao regime, tinha o seu banco. Os bancos tinham um só dono ou uma só família como dono e sustentavam os demais negócios do respectivo grupo. Com o 25 de Abril e a nacionalização sumária de toda a banca, entrámos num período ‘revolucionário’ em que “a banca ao serviço do povo” se traduzia, aos olhos do povo, por uns camaradas mal vestidos e mal encarados que nos atendiam aos balcões como se nos estivessem a fazer um grande favor. Jardim Gonçalves veio revolucionar isso, com a criação do BCP e, mais tarde, da Nova Rede, onde as pessoas passaram a ser tratadas como clientes e recebidas por profissionais do ofício. Mas, mais: ele conseguiu criar um banco através de um MBO informal que, na prática, assentava na ideia de valorizar a competência sobre o capital. O BCP reuniu uma série de accionistas fundadores, mas quem de facto mandava eram os administradores - que não tinham capital, mas tinham «know-how». Todos os fundadores aceitaram o contrato proposto pelo “engenheiro” - à excepção de Américo Amorim, que tratou de sair, com grandes lucros, assim que achou que os gestores não respeitavam o estatuto a que se achava com direito (e dinheiro).

2 Com essa imagem, aliás merecida, de profissionalismo e competência, o BCP foi crescendo, crescendo, até se tornar o maior banco privado português, apenas atrás do único banco público, a Caixa Geral de Depósitos. E, de cada vez que crescia, era necessário um aumento de capital. E, em cada aumento de capital, era necessário evitar que algum accionista individual ganhasse tanta dimensão que pudesse passar a interferir na gestão do banco. Para tal, o BCP começou a fazer coisas pouco recomendáveis: aos pequenos depositantes, que lhe tinham confiado as suas poupanças para gestão, o BCP tratava de lhes comprar, sem os consultar, acções do próprio banco nos aumentos de capital, deixando-os depois desamparados perante as perdas em bolsa; aos grandes depositantes e amigos dos gestores, abria-lhes créditos de milhões em «off-shores» para comprarem acções do banco, cobrindo-lhes, em caso de necessidade, os prejuízos do investimento. Desta forma exemplar, o banco financiou o seu crescimento com o pêlo do próprio cão - aliás, com o dinheiro dos depositantes - e subtraiu ao Estado uma fortuna em lucros não declarados para impostos. Ano após ano, também o próprio BCP declarava lucros astronómicos, pelos quais pagava menos de impostos do que os porteiros do banco pagavam de IRS em percentagem. E, enquanto isso, aqueles que lhe tinham confiado as suas pequenas ou médias poupanças viam-nas sistematicamente estagnadas ou até diminuídas e, de seis em seis meses, recebiam uma carta-circular do engenheiro a explicar que os mercados estavam muito mal.

3 Depois, e seguindo a velha profecia marxista, o BCP quis crescer ainda mais e engolir o BPI. Não conseguiu, mas, no processo, o engenheiro trucidou o sucessor que ele próprio havia escolhido, mostrando que a tímida “renovação” anunciada não passava de uma farsa. E descobriu-se ainda uma outra coisa extraordinária e que se diria impossível: que o BCP e o BPI tinham participações cruzadas, ao ponto de hoje o BPI deter 8% do capital do BCP e, como maior accionista individual, ter-se tornado determinante no processo de escolha da nova administração... do concorrente! Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o presidente do BPI dá uma conferência de imprensa a explicar quem deve integrar a nova administração do banco que o quis opar e com o qual é suposto concorrer no mercado, todos os dias...

4 Instalada entretanto a guerra interna, entra em cena o notável comendador Berardo - o homem que mais riqueza acumula e menos produz no país - protegido de Sócrates, que lhe deu um museu do Estado para ele armazenar a sua colecção de arte privada. Mas, verdade se diga, as brasas espalhadas por Berardo tiveram o mérito de revelar segredos ocultos e inconfessáveis daquela casa. E assim ficámos a saber que o filho do engenheiro fora financiado em milhões para um negócio de vão de escada, e perdoado em milhões quando o negócio inevitavelmente foi por água abaixo. E que havia também amigos do engenheiro e da administração, gente que se prestara ao esquema das «off-shores», que igualmente viam os seus créditos malparados serem perdoados e esquecidos por acto de favor pessoal.

5 E foi quando, lá do fundo do sono dos justos onde dormia tranquilo, acorda inesperadamente o governador do Banco de Portugal e resolve dizer que já bastava: aquela gente não podia continuar a dirigir o banco, sob pena de acontecer alguma coisa de mais grave - como, por exemplo, a própria falência, a prazo.

6 Reúnem-se, então, as seguintes personalidades de eleição: o comendador Berardo, o presidente de uma empresa pública com participação no BCP e ele próprio ex-ministro de um governo PSD e da confiança pessoal de Sócrates, mais, ao que consta, alguém em representação do doutor «honoris causa» Stanley Ho - a quem tantos socialistas tanto devem e vice-versa. E, entre todos, congeminam um «take over» sobre a administração do BCP, com o «agrément» do dr. Fernando Ulrich, do BPI. E olhando para o panorama perturbante a que se tinha chegado, a juntar ao súbito despertar do dr. Vítor Constâncio, acharam todos avisado entregar o BCP ao PS. Para que não restassem dúvidas das suas boas intenções, até concordaram em que a vice-presidência fosse entregue ao sr. Armando Vara (que também usa ‘dr.’) - esse expoente político e bancário que o país inteiro conhece e respeita.

7 E eis como um banco, que era tão independente que fazia tremer os governos, desagua nos braços cândidos de um partido político - e logo o do Governo. E eis como um banco, que era tão cristão, tão «opus dei», tão boas famílias, acaba na esfera dessa curiosa seita do avental, a que chamam maçonaria.

8 E, revelada a trama em todo o seu esplendor, que faz o líder da oposição? Pede em troca, para o seu partido, a Caixa Geral de Depósitos, o banco público. Pede e vai receber, porque há ‘matérias de regime’ que mesmo um governo com maioria absoluta no parlamento não se atreve a pôr em causa. Um governo inteligente, em Portugal, sabe que nunca pode abocanhar o bolo todo. Sob pena de os escândalos começarem a rolar na praça pública, não pode haver durante muito tempo um pequeno exército de desempregados da Grande Família do Bloco Central.

Se alguém me tivesse contado esta história, eu não teria acreditado. Mas vemos, ouvimos e lemos. E foi tal e qual.» [Expresso assinantes]

Parecer:

Por Miguel Sousa Tavares.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

O INACREDITÁVEL DO ANO

«O processo de escolha da administração do BCP, a confirmar-se, tal como tem sido anunciado, não conseguirá disfarçar a crua realidade de que se trata da governamentalização do maior banco privado português.

Por mais argumentos e explicações que se avancem, não é possível vir a acreditar na sua independência e o que resta é um desanimador recuo no tempo de um sector de que nos orgulhávamos.

É um abalo inqualificável no sistema financeiro provocado por práticas de gestão só possíveis pela incompreensível distracção das Entidades Reguladoras e que o Governo está a aproveitar a favor do Partido que o apoia, sem se preocupar com as consequências, internas e internacionais, de uma decisão aberrante.» [Expresso assinantes]

Parecer:

Manuela Ferreira Leite esqueceu-se de que foi ministra das Finanças.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

A CULTURA DO BLOGUE NACIONAL

«Mostruário da nossa pobreza, da nossa rudeza, da falta de independência que caracterizam o nosso "Portugalinho"

Os blogues, a blogosfera, são um facto cultural novo nos últimos cinco anos. Não abunda assim tanto a novidade no domínio lato da cultura, para que possa passar despercebida, ou melhor, notada mas não percebida, ou erradamente percebida. Muita coisa nos blogues vem em continuidade do passado, existia noutros meios e sob outras formas, mas mesmo a que apenas fez a transmutação dos media clássicos para os blogues como media mudou também com o meio. Mudou e continua a mudar.

Existe por isso uma nova "cultura de blogue", com traços comuns com idênticas culturas da Rede urbi et orbi, mas também com traços nacionais próprios. Não é por se usar a mesma ferramenta de software que os americanos, brasileiros, japoneses e chineses que deixamos de ser portugueses, de levar para lá o nosso mundo exterior. Não somos ricos na Rede se somos pobres cá fora, não somos sofisticados em linha, se somos trogloditas cá fora, não sabemos mais e pensamos melhor nas páginas do Blogger do que pensamos cá fora, nos cafés de província, ou no Bairro Alto ou no Lux ou nas páginas dos jornais, não se é cosmopolita lá dentro se se é provinciano cá fora, não se é subserviente cá fora e independente no ecrã diante do computador, não se é burro cá fora e inteligente lá dentro.

O que se passa é que esse verdadeiro mostruário em linha, feito de mil egos à solta, revela mesmo a nossa pobreza, a nossa rudeza, a falta de independência face aos poderosos, grandes, pequenos e médios, os péssimos hábitos de pensar a falta de estudos e trabalho, de leitura e de "mundo", que caracterizam o nosso "Portugalinho". Nem podia ser de outra maneira. Com a diferença que nos blogues o retrato é mais brutal porque mais arrogante e mais solto, ou pelo anonimato, ou pela completa falta de noção de si próprio de quem, por poder escrever sem edição para os milhões de leitores potenciais da Rede, acha que é crítico de cinema instantâneo, engraçadista brilhante, analista político, escritor genial de aforismos, herói único da denúncia dos males do mundo, e portador de todas as soluções que só não são aplicadas porque os outros, a começar pelo blogue do lado e a acabar no fim do mundo, são todos corruptos, vendidos e tristes. Como os blogues são viveiros de elogios mútuos e de complacência, estes traços alastram como um vírus e tornam-se comunitários, definidores do meio. Mas, até porque nos dá um retrato único da mesquinhez da vida intelectual e cultural nacional, o lado do não dito, do não enunciado no Jornal de Letras, no Ipsilon, nas notícias culturais do Diário de Notícias e no contínuo que vai das novas colunas sociais disfarçadas de sociologia do presente e no jornalismo light até às revistas do jetset, a blogosfera é interessante e única.

Eça, se fosse hoje, poderia escrever sobre os blogues o que escreveu sobre os jornais: "A tua ideia de fundar um jornal é daninha e execrável. (...) tu vais concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os juízos ligeiros, se exacerbe mais a vaidade, e se endureça mais a intolerância. Juízos ligeiros, vaidade, intolerância - eis três negros pecados sociais que, moralmente, matam uma sociedade!

(...) Foi incontestavelmente a Imprensa que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de tudo afirmar, de tudo julgar, mais enraizou no nosso tempo o funesto hábito dos juízos ligeiros.

(...) É com impressões fluidas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, (...) apenas nos basta folhear aqui e além uma página (...) . Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos "Este é uma besta! Aquele é um maroto!" Para proclamar "É um génio!" ou "É um santo!" oferecemos uma resistência mais considerada (...) Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda."

Tudo isto é certeiro, mas, se ficássemos por aqui, não percebíamos a novidade, a mesma, aliás, que Eça defrontava com o papel crescente da imprensa. Mesmo assim, e até por isso, os blogues são coisa nova, são um fenómeno de per si. Trazem a quantidade, a lei dos grandes números, trazem as "massas". É verdade que apenas uma escassíssima minoria escreve blogues que caibam nesta categoria para além do puro confessional, e que apenas uma minoria os lê, mas nunca na história tanta gente se revela assim no espaço público, acompanhando mutações de geração e de hábitos culturais que vai no mesmo sentido de, por exemplo, a desvalorização da privacidade, do tempo lento, do silêncio, da palavra escrita em relação às imagens em movimento. E isso é uma novidade que está para ficar e evoluir. Evoluirá a partir daqui, desta logomaquia, mas evoluirá acrescentando uma nova dimensão ao retrato das diferentes sociedades e mentalidades, incluindo Portugal.

É ainda cedo para medir o papel dos blogues em Portugal enquanto consumo cultural e mediático, como fonte quase única de conhecimentos "dinâmicos", envolventes, para as gerações que se estão a "educar" mais fora da escola do que dentro dela. Mas há indícios, principalmente nos mais jovens, do aparecimento de uma "cultura de blogue", de uma aproximação cultural ao mundo feita de pouco mais do que a leitura de blogues e de outras páginas da Rede, que têm mecanismos de social networking como as variantes nacionais do Facebook, ou o Hi5, o Second Life, e o mecanismo de trocas de "favoritos" que vai dar ao YouTube. Em Portugal, a absorção do mundo - política nacional, internacional, produtos culturais da moda, discuros e julgamentos, escolhas de podium e de agenda - pelos blogues difere da que se poderia obter através dos media tradicionais.

Para uma geração de jovens que só lê escassamente os jornais, para além dos desportivos e dos gratuitos, a "cultura de blogue" começa a deixar os seus traços próprios: redução da temática considerada "importante" ao que é discutido nos blogues, valorização do posicionamento comprometido, de "prós e contras", maior radicalismo político e opinativo, mecanismos de identidade grupais ou tribais, para além da absorção generalizada dos males que o Eça atribuía aos jornais: "juízos ligeiros, vaidade, intolerância", "impressões fluidas" e "maciças conclusões". Está longe de ser uma boa escola, mas é a escola, mais intolerante, mais a preto e branco, mais agressiva nas opiniões e menos ponderada, mas também mais democrática, no sentido em que envolve muito mais gente do que a que em qualquer altura teve sequer a veleidade de ter uma opinião, muito menos dá-la. Não é um fenómeno "mau" por si só, tem também aspectos "bons", na proporção desigual que é habitual para Portugal nestas coisas, mas caminha para ser um instrumento suplementar que reforça as duas tendências em curso nos nossos dias: a da substituição da democracia pela demagogia e a espectacularização da sociedade.

A blogosfera é tão avessa à crítica como os media tradicionais, com a agravante de que o envolvimento narcísico é tão forte que, mesmo dentro de blogues colectivos, a mais pequena fractura se torna explosiva. Os blogues não gostam de ser objecto de críticas e, como é obvio, tem uma alta noção de si próprios e estão tão cheios de autocomplacência e de elogios mútuos que consideram um anátema qualquer discurso que lhes pareça exterior e que os ponha em causa, a eles e às regras do jogo que estabeleceram. Desde o início da popularização da blogosfera o chamado "metabloguismo" era considerado um desvio da genuinidade do discurso em linha, mas, sem reflexão crítica sobre o próprio meio, sobre o meio em Portugal, que introduza critérios de qualidade e exigência que os blogues são lestos a exigir a outros mas não a aplicar a si próprios, os blogues serão apenas mais uma câmara de ressonância da pobreza da nossa vida cívica.

Como também tenho um blogue, deixo aos leitores o julgamento do que se me aplica do que aqui digo.» [Público assinantes]

Parecer:

JPP descobriu que os blogues não são diferentes do país e povo que somos.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

QUEM ESTÁ PROIBIDO DE ADMINISTRAR O BCP

«A polémica rebentou na semana passada quando, na quinta-feira, Vítor Constâncio chamou ao início da tarde Filipe Pinhal e Christopher de Beck, respectivamente, presidente e vice-presidente do BCP, para os informar de que não se podiam recandidatar aos órgãos sociais do banco. No dia seguinte, Vítor Constâncio reuniu com os principais accionistas do BCP e alertou para a necessidade de haver alternativas à gestão de Filipe Pinhal por existirem fortes indícios de ilícitos contra-ordenacionais suficientemente graves, dando a entender que poderia haver inibições dos membros de órgão sociais do banco entre 1999 e 2007. Constâncio admitiu ainda a necessidade de um consenso alargado entre os accionistas para resolver a crise de liderança que se vive no banco. Perante esta exposição, os accionistas reuniram logo no dia seguinte e convidaram Santos Ferreira a liderar uma lista que acabou por reunir o apoio do núcleo duro de accionistas do BCP, que entretanto ontem foi entregue ao presidente da mesa da assembleia geral. Poucos minutos antes de terminar o prazo legal para entrega de listas candidatas aos órgãos sociais do BCP, Miguel Cadilhe apresentou uma reclamação do prazo que entretanto já aceite - até às 24 h de domingo podem entrar listas alternativas. » [Diário de Notícias]

Parecer:

Cadilhe e Talone tês razão, este modelo de justiça sumária de Constâncio suscita muitas dúvidas.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Sugira-se a Constâncio que esclareça as dúvidas de Cadilhe e Talone.»

FARTURA DE CHEQUES CARECAS

«Os portugueses passaram 1724 milhões de euros em cheques ‘carecas’ nos primeiros 11 meses deste ano. Em média, por dia, chegaram aos bancos cerca de 5,161 milhões de euros em cheques sem cobertura. No total, foram passados mais de 600 mil cheques sem provisão.
Segundo os números fornecidos pelo Banco de Portugal, este total está ainda abaixo dos mais de 1900 milhões registados no ano passado e muito distante do recorde de 2700 milhões de euros atingido em em 2002.»
[Expresso assinantes]

Parecer:

Não pensem que são apenas de pequeno montante, umn dos cheques devolvidos era de 95 milhões de euros.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Adoptem-se medidas para aumentar a segurança nos negócios.»

PSD ARRISCA-SE A MULTA DE 400 MIL EUROS

«O Ministério Público já enviou há mais de um mês para o Tribunal Constitucional a sua proposta de penalização do PSD e da Somague, por infracção à lei do financiamento dos partidos políticos. Caberá agora ao Tribunal Constitucional (TC) a última palavra sobre os valores das coimas a cobrar, mas a lei prevê penas que poderão fazer mossa, sobretudo nas finanças, já deficitárias, dos sociais-democratas.

Este foi o caso de financiamento partidário ilegal mais conhecido e bombástico até agora e o que menos dúvidas deixou às autoridades. O TC, num acórdão de Junho passado, afirmava terem sido confirmados, "de forma cabal", os indícios de que o PSD havia recebido um donativo indirecto - e ilegal - por parte da Somague, através da liquidação de uma despesa de 233.415 mil euros à firma Novodesign, que produziu diverso material propagandístico para o partido, no âmbito das eleições autárquicas de 2001.» [Público assinantes]

Parecer:

Bem merece.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se a Menezes se já pôs a sede do PSD à venda.»

RTEAL MADRID DISPOSTO A PAGAR 70 MILHÕES POR CRISTIANO RONALDO

«Según escribe el periodista Tomás Roncero en el diario As, Cristiano Ronaldo (Manchester United) es el próximo gran fichaje que desea realizar el Real Madrid para el año 2008. Es un asunto ya anunciado, pero al parecer hay alguna novedad.

Esta información apunta que se le ficharía en verano por unos 70 millones de euros y que habría dinero suficiente en las arcas blancas, pues se realizarán varias ventas de jugadores en el mercados estival.» [20 Minutos]

FISCO JÁ PENHORA SUBSÍDIOS DAS AUTARQUIAS

«O subsídio de 503,8 mil euros que a Câmara de Matosinhos vai dar ao Leixões Sport Club para pagar as obras de beneficiação já feitas no Estádio do Mar esteve em risco de ser penhorado pelo Fisco. Anteontem, a Autarquia recebeu um ofício da Repartição de Finanças de Matosinhos informando que a verba a atribuir ao Leixões ficaria cativa por conta da dívida do clube às Finanças. Mas, ao final da tarde de ontem, o problema ficou resolvido, com o clube de Matosinhos a regularizar as contas de um dia para o outro. » [Jornal de Notícias]

Parecer:

Que mais irá penhorar o fisco?

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se ao ministro das Finanças.»

MICHAEL MENEKLIS

A. HUNT

NIKOS VASILAKIS

VALERY LEMBER

ALINE NEDELEC

DIE BURGER

[2]

Advertising Agency: FCB Cape Town, South Africa
Creative Director: Francois de Villiers
Art Director: Anthony de Klerk
Copywriter: Marius van Rensburg
Photographer: Chad Henning

MINI

[2][3][4]

Advertising Agency: D'ADDA,LORENZINI,VIGORELLI,BBDO, Milan, Italy
Creative Directors: Luca Scotto di Carlo, Giuseppe Mastromatteo
Art Directors: Velia Mastropietro, Pietro Mandelli
Copywriter: Sonia Cosentino

GEGEN MISSBRAUCH

Advertising Agency: Grabarz & Partner, Germany
Creative Directors: Ralf Heuel, Patricia Pätzold, Ralf Nolting
Art Director / Illustrator: Julia Elles
Copywriter: Laura Müller-Rossbach

sábado, dezembro 29, 2007

As nódoas de 2007


Nódoa da Função Pública: Margarida Moreira (Dren) – A directora da DREN não só nos mostrou as semelhanças evidentes entre um boy descontrolado e um pitbull sem sono como conseguiu em muito pouco tempo dar a visibilidade a um obscuro deputado do PSD que enquanto roçou o dito pelas cadeiras do hemiciclo ninguém tinha reparado nele, quase ia transformando um boy do PSD num mártir da democracia portuguesa digno de ter direito a fotografia emoldurada no gabinete de Jerónimo de Sousa.

Nódoa dos reguladores: Vítor Constâncio (BdP) – Constâncio terminou no ano forçado a fazer o que devia ter feito há muito, mexer o dedo miminho em relação ao que se estava suceder no BCP. No mesmo comunicado Constâncio tenta explicar o inexplicável, porque nada fez nos últimos anos. Constâncio, tal como todos os governantes e outras entidades envolvidas, incluindo Teixeira dos Santos quando estava na CNVM nada fizeram por uma razão simples, porque os políticos portugueses veneram os senhores do dinheiro.

Nódoa da Administração Pública – António Nunes (ASAE) – O uso e abuso da comunicação social por António Nunes, que parece ter aprendido com a actuação do Macedo do fisco, levou a que os portugueses andem mais preocupados com as investidas da ASAE do que os americanos com as baixas no Iraque ou os ataques dos Talibans no Afeganistão. Enquanto na Europa os cidadãos preocupam-se com coisas importantes, em Portugal é a ASAE que ocupa as primeiras páginas e as aberturas dos telejornais. Perante as reacções negativas o presidnete da ASAE adoptou uma estratégia manhosa ao atirar o odioso sobre a EU, assegurando que a instituição apenas faz de pitbull na defesa das normas europeias.

Nódoa das empresas: Vaz Guedes (SOMAGUE) – Vaz Guedes notabilizou-se com as idas a São Bento e a Belém em defesa dos centros de decisão nacionais, mas não hesitou em vender a empresa logo que os espanhóis se propuseram comprá-la por bom preço. Andou pelo Compromisso Portugal armado em puritano da política portuguesa, acabando por ser apanhado a pagar as facturas do PSD e ainda por cima sem ter o mais pequeno cuidado em disfarçar o financiamento ilegal. Agarrado ao destino do PSD ainda teve o descaramento de vir a público defender um pacto entre partidos para programar os futuros investimentos públicos. Não é nada descarado este modelo da gestão empresarial portuguesa, pior do que temos visto só no Uganda.

Nódoa do Governo: Mário Lino – Pior do que Manuel Pinho, que foi elogiar os baixos salários e a mansidão dos portugueses junto dos comunistas chineses, só mesmo Mário Lino que deverá ter olhado ara o espelho e devido aos vapores de um almoço bem regado conseguiu ver um camelo a pastar na margem sul, acabando por se convencer que para além do Tejo era só deserto.

Nódoa do Parlamento: João Cravinho – Desassossegou o país falando de corrupção, um tema que dá sempre resultado quando se busca protagonismo político, mas acabou por abandonar o parlamento e os eleitores que os escolheram ara viver silenciosa e confortavelmente em Londres graças ao alto cargo numa instituição financeira da EU.

Nódoa ecológica: Paulo Portas – O balanço da sua passagem pelo governo acabou por ser feito em 2007, a meia dúzia de eucaliptos que terão sido necessários para produzir o papel usado nas mais de sessenta mil fotocópias de documentos do ministério da Defesa. Preocupado com o passado decidiu correr com Ribeiro e Castro, resguardando-se atrás da liderança do CDS.

Nódoa na televisão: Marcelo Rebelo de Sousa – Sem influência no PSD, escasso de imaginação e, em consequência, incapaz de produzir factos políticos o antigo líder do PSD arrasta-se pelo seu tempo de antena onde tem por única admiradora a jornalista que faz o ruído das palmas de fundo, quando o comentador é obrigado a parar para respirar. Está a transformar-se rapidamente num trapo velho da política portuguesa.

Nódoa Pascal: Pedro Santana Lopes – Ressuscitou para ser de novo crucificado.

Nódoa da Justiça: Pinto Monteiro – O Procurador-Geral da República disputa a liderança no papel dos jornais ao presidente da ASAE, convencido de que quanto maior for o número das suas fotografias nas primeiras páginas melhor combate o crime. O rapaz das Beiras ficou rapidamente famoso, recebeu em audiência responsáveis de bancos envolvidos na Operação Furacão, mandou a Maria José Morgado transformar o livro da Carolina Salgado em peça de acusação, aprovou e reprovou a reforma do direito penal e acabou derrotado a defender o corporativismo do MP pois o Constitucional não confundiu as magistraturas.

Nódoa do desporto: Luís Filipe Menezes – Desde que assumiu a liderança do PSD, função que acumula com as de treinador de bancada de Pedro Santana Lopes, Luís Filipe Menezes só marcou golos na sua própria baliza. Mais valia não ter saído do campo de treinos que o FCP construiu no seu concelho, Vila Nova de Gaia.

Nódoa autárquica: Marques Mendes – À alta de melhor o ex-líder do PSD decidiu assumir o papel de presidente sombra da autarquia Lisboa com os resultados que ficaram à visita. Marques Mendes, ele próprio uma sombra, acabou por ser uma sombra da sua própria sombra, desapareceu.

Umas no cravo e outras na ferradura -

FOTO JUMENTO

Pintando na Rua Augusta

IMAGEM DO DIA

[Jack Guez/AFP]

«LUXOR, EYGPT - French President Nicolas Sarkozy and his partner Carla Bruni visit The Queen Valley in Luxor on 27 December 2007. Sarkozy flew in to the Egyptian city of Luxor on Christmas Day aboard a private jet accompanied by his new love to spend Christmas on the banks of the Nile. » [Tiscali]

JUMENTO DO DIA

Estás perdoado Constâncio

O Banco de Portugal emitiu um comunicado tranquilizando o país que paga ao seu governador e funcionários, foi aberto um processo de contra-ordenação às trafulhices do BCP. Mas, sabe-se lá porquê, o comunicado explica as razões de tanta inércia no passado, ao que parece sempre que foi inspeccionado o banco nada lhes disse sobre as operações manhosas.

Ficámos a saber que as inspecções do Bdp devem ser umas sessões de chás e bolachas durante as quais o banco inspeccionado mostra o que quer e os inspectores do BdP dão-se por felizes. Estás perdoado Constâncio, uma coisa são as inspecções da ASAE a um qualquer comerciante e outra são as inspecções do Bdp aos senhores da massa.

POR CIMA DE VULCÕES

«Max Weber imortalizou o seu nome, entre outras razões, por ter ligado de forma clara o espírito do capitalismo com os valores éticos que caracterizavam o protestantismo. E creio que tinha razão na forma como explicava as causas da impressionante evolução económica a que se assistiu durante a chamada Idade Moderna na Europa. Desde então que se sabe: capitalismo sem ética é apenas um caminho para o desastre.

Há quinze dias, Michel Rocard, numa entrevista em que explicava o seu profundo pessimismo sobre a evolução de economia global, colocava na base da anunciada crise mundial a deriva do sistema capitalista num sentido em que os princípios éticos deixaram de estar tão presentes, trucidados por lógicas que não ponderam nenhuns valores que não seja o sucesso sem limites e sem regras.

A crise em que se está (estava?) a afundar o BCP fez-me recordar tudo isso. E, no entanto, talvez ingenuamente, poder-se-ia pensar que esta instituição de crédito seria, por definição, uma das mais imunes a essa evolução. Jardim Gonçalves - que ali mandou sem limites nem rivais - é um destacado membro do Opus Dei, que seguramente se revê em conselhos como o 636 de "Caminho" ("se vierem às tuas mãos as riquezas, não ponhas nelas o teu coração. Anima-te a empregá-las generosamente").

O Opus Dei quis sempre demonstrar que a procura da santidade pode ser prosseguida neste mundo e que a criação de riqueza e o sucesso empresarial podem ser excelentes caminhos para Deus. Por isso atraiu tantos empresários católicos. Sendo assim, como encontrar em Portugal - a não ser no BCP - um exemplo mais cimeiro do que deverá ser o capitalismo respeitador das regras e dos valores éticos?

Mas, a ser verdade o que é mencionado pela CMVM, o que o Banco de Portugal fez saber (mas é extraordinário que nunca tenha reparado...) e até o que aparentemente o BCP reconheceu, durante anos este banco actuou em desrespeito profundo das normas legais e regulamentares e dos códigos éticos de conduta que - quiçá mais do que qualquer outro banco, pela sua dimensão, pela sua juventude no sistema, pelos apregoados valores morais do seu fundador - deveria seguir.

Agora há que não transigir no que Rocard chama o "ataque ético" e investigar até ao fim (incluindo os reguladores), dentro dos prazos para evitar prescrições, acusar se for caso disso quem seja responsável e punir exemplarmente quem prevaricou, praticando actos que se não podem admitir a banqueiros e ainda menos a banqueiros cristãos.

Só que isto não basta. Como afirmei na altura em que surgiu o chamado "caso Casa Pia", e por isso em absoluta coerência, declaro agora que não chega punir os culpados, se o sistema político e regulatório não assumir a sua parte de responsabilidade. Não tenhamos ilusões: por trás da criação de um ambiente propício à pedofilia e aos delitos económicos que terão sido praticados, está muito mais do que a simples maldade, vício ou ganância de algumas pessoas. Está uma cultura que é propícia a que isso aconteça e que, se não for erradicada, fará repetir muitas vezes mais o que nos escandalizou num certo momento.

Centrando-nos nos delitos económicos, o problema reside numa sociedade civil que não censura, e muitas vezes até aplaude, o sucesso que seja feito sem respeito pelas regras e pelos códigos éticos, num Estado regulador que se demite da sua função e da sua responsabilidade, que faz de conta que não vê, que quando é avisado se recusa a investigar, até ao momento em que já nada pode fazer para evitar o escândalo.

Este tipo de atitude é gravíssimo por razões éticas, económicas, políticas e sociais. Por razões éticas, visto que deste modo é toda a sociedade que se corrompe, aumentando em cada dia os que passam a fronteira que deveria ser intransponível, atraídos pela impunidade de que gozam os que foram à frente. Por razões económicas, porque assim se destroem centros de racionalidade económica, se fragiliza o tecido empresarial, se coloca em risco um sistema tão sensível como é o creditício. Por razões políticas, porque este tipo de situações é gasolina lançada para as chamas que os demagogos populistas ateiam na esperança de um dia conseguirem pegar fogo ao sistema liberal a que devemos o progresso e em que podemos depositar esperança de melhor futuro para os nossos filhos. Por razões sociais, visto que é insuportável que processos de despedimentos e de exigência de rigor financeiro aos pequenos sejam acompanhados por este tipo de facilidade e de prevaricações a alguns muito grandes.

Háquem diga que uma das causas para que o colapso do anterior regime tivesse ocorrido de um modo tão radical, que nos fez recuar anos e destruiu riqueza e centros de racionalidade, esteve no capitalismo português na altura, que, inconscientemente, actuava como se tudo fosse possível e eterno. Tenha ou não sido assim, por vezes interrogo-me sobre se sectores relevantes do poder económico em Portugal terão aprendido alguma coisa com a vida e os tempos. A fragilidade do tecido social português, o acentuar latino-americano das desigualdades sociais, a desagregação das classes médias, a falta de sentido cívico de muitos dos poderosos, os maus exemplos que insistem em ir dando, a sensação de que por vezes se julgam acima do bem e do mal e não obrigados pelas normas legais e regulamentares e pelos códigos de conduta éticos, tudo isso me preocupa como Cidadão.

E me faz sentir cada vez mais calor debaixo dos pés. Estaremos todos por cima de vulcões que se julgava estarem instintos. A tragédia sisifiana da Humanidade é talvez essa. Mas conviria que alguns não insistissem em brincar com o fogo: até porque, se tudo rebentar, não serão eles os engolidos, mas muitos que nada fizeram para isso e tão-somente andavam por ali. Já passei por isso em 1974. Não me apetece voltar a viver o mesmo. (Escrito, evidentemente, no dia de Natal).» [Público assinantes]

Parecer:

José Miguel Júdice analisa os acontecimentos recentes no BCP.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

HOMENS DO ANO, E DE ANTEONTEM

«José Sócrates - Nunca ninguém como ele acumulou, em democracia, tanto poder: no partido, no Estado, no país. No partido, tirando a figura monumental de Manuel Alegre, a vida inteligente, na prática, acabou. No Estado e no Governo, só existem instrumentos do primeiro-ministro, que o primeiro-ministro usa, mas que por si próprios não pesam. Talvez por isso Sócrates transborda de uma vaidade quase embaraçante. A favor dele tem o défice (3 por cento), uma coisa fácil de conseguir pela força, e um pequeno crescimento do PIB (1,8 por cento do PIB), provavelmente efémero. Os portugueses, por enquanto, e à falta de melhor, lá o vão engolindo. De qualquer maneira, não há dúvida que dominou o ano político.
Luís Marques Mendes - Perdeu o partido, por causa de uma intriga menor, quando começava a adquirir alguma autoridade e alguma direcção. Já hoje muita gente o lamenta.

Luís Filipe Menezes - É raro assistir a uma queda tão rápida como a de Luís Filipe Menezes. Num dia o salvador das "martirizadas" bases do PSD, no outro uma desilusão. Desorientado, aflito, extravagante, avança, recua, guina para a esquerda ou para a direita, ou simplesmente para uma ideia de momento, absurda e supérflua. O país não o ouve e, não o ouvindo, não espera nada dele. Isto para não falar da ressurreição de Santana Lopes, que mete medo ao português mais morno.

Paulo Portas - A esquerda e uma certa direita não perdem uma oportunidade de, literalmente, o "desumanizar". A quem lê o que se escreve sobre ele, parece que Portas juntou nele toda a perversidade indígena. Não lhe reconheceram a autoria do novo modelo do debate com o primeiro-ministro. Não lhe reconhecem uma real autoridade na Assembleia da República. E levaram tempo a perceber a eficácia da "campanha" contra a "ditadura fiscal" de Sócrates.

Francisco Louçã - Sem ideologia, sem doutrina, sem causas (mesmo do género "fracturante"), sem sequer um "famoso" simpático (e, de preferência, esperto) na televisão, o Bloco desapareceu. Para um terço do que faz, basta o PC. Para o resto, basta o PS.

Jerónimo de Sousa - O PC continua, como sempre, a ser o PC. Jerónimo também.António Costa - Correu um grande risco, mas saiu limpamente da alçada de Sócrates. A Câmara de Lisboa é um bom lugar para um exílio provisório.» [Público assinantes]

Parecer:

Vasco Pulido Valente avalia o desempenho dos líderes partidários.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

FIDEL DIZ QUE JÁ NÃO ESTÁ AGARRADO AO PODER

«El líder cubano, Fidel Castro, afirmó este viernes que ya no se aferra al poder, como ocurrió en el pasado "por exceso de juventud y escasez de conciencia", en un mensaje leído en la Asamblea Nacional, reunida en el décimo período de sesiones. Ya antes del triunfo de la revolución, agregó, pensaba que su deber es luchar por los ideales "o morir en el combate".

Castro se refirió al críptico mensaje del pasado 17 de noviembre en el que señaló que su "deber elemental" no es aferrarse a cargos y "mucho menos obstruir el paso a personas más jóvenes, sino aportar experiencias e ideas cuyo modesto valor proviene de la época excepcional" en la que vivió. El máximo dirigente aseguró que sin preceptor alguno, iba saliendo de "mi ignorancia política y me convertí en socialista utópico".» [20 Minutos]

Parecer:

Pudera, agora está mais agarrado à corda que vai descer a sua urna para o buraco.

VAI SER VENDIDA PARTE DA GALP EM 2008

«As Finanças esperam um encaixe de 900 milhões de euros no próximo ano e a Galp é a empresa que está na calha para venda depois de o primeiro-ministro, José Sócrates, ter travado a segunda fase de privatização da REN (Redes Energéticas Nacionais). Ao preço do fecho de ontem, 19,03 euros por acção, a participação de 7% do Estado, via Parpública, na petrolífera tem um valor de mercado superior a 1,1 mil milhões de euros. Um especialista de bolsa explicou ao DN que "não há grandes dúvidas, em termos financeiros, de que o Estado devia vender a sua posição já em Janeiro. Mas a questão também tem uma importante envolvente política". » [Diário de Notícias]

Parecer:

Esta venda de parte da GALP recorda-me a venda do Cristiano Ronaldo ao Manchester.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se ao ministro das Finanças se é bom negócio vender a GALP nesta altura.»

MÁRIO SOARES MUDOU DE OPINIÃO A PROPÓSITO DO REFERENDO

«Mário Soares defende hoje que o Tratado de Lisboa deve ser ratificado pela Assembleia da República, sem o recurso ao referendo prometido no programa eleitoral socialista de 2005 e por outras forças políticas, à esquerda (PCP e BE) e à direita (CDS). Mas o fundador do PS nem sempre pensou assim. Há 15 anos, quando era Presidente da República, Soares foi um acérrimo defensor do referendo europeu, utilizando argumentos similares aos que hoje são invocados pelos que advogam uma consulta popular. E chegou mesmo a criticar Cavaco Silva, então primeiro-ministro, por não convocar o referendo em 1992, a propósito do Tratado de Maastricht, que abriu o caminho à união monetária. » [Diário de Notícias]

Parecer:

Mário Soares muda de opinião com muita facilidade, digamos que é um homem de convicções fortes e opiniões fracas.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se a Soares o que o levou a mudar de opinião.»

BCP JUSTIFICA-SE?

«O Banco de Portugal (BdP) abriu um processo de contra-ordenação ao BCP e a membros dos seus órgãos sociais, com base em factos relacionados com 17 entidades off-shore, e acusa o banco de ter sempre ocultado informação relacionada com esta matéria.

"Na sequência das averiguações em curso, o Banco de Portugal procedeu, em 26 de Dezembro, à abertura de um processo de contra-ordenação ao BCP e a membros dos seus órgãos sociais, com base em factos relacionados com 17 entidades off-shore cuja natureza e actividade foram sempre ocultadas pelo BCP ao Banco de Portugal, nomeadamente em anteriores inspecções", diz a entidade reguladora em comunicado. » [Jornal de Notícias]

Parecer:

O curioso do comunicado do BdP está na preocupação em justificar nada ter sido feito no passado.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se a Constâncio se as inspecções do BdP apenas incidem sobre o que os bancos contam.»

AS NOVA ESTRATÉGIA POLÍTICA DE MENEZES

«Se voltar a governar, o PSD promete reabrir boa parte dos serviços de atendimento permanente (SAP), urgências e maternidades encerrados pelo actual Governo por todo o país, disse, ontem, ao JN Arlindo Carvalho, vice-presidente do partido. "Temos uma visão diferente da do PS relativamente ao Serviço Nacional de Saúde. Assistimos ao desmantelar do SNS sem mais nem menos, e com isso não concordamos", afirmou o antigo ministro da Saúde.» [Jornal de Notícias]

Parecer:

Ridícula!

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se a Menezes se também tenciona entregar o Mosteiro dos Jerónimos aos monges da ordem.»

A ANEDOTA FINANCEIRA DO DIA

«Paula Teixeira da Cruz, advogada e dirigente do PSD, da linha Marques Mendes, é um dos nomes propostos para integrar o Conselho Geral e de Supervisão (CGS) do BCP, e que será alargado.» [Público]

Parecer:

O que terá Menezes a dizer, será mais um passo na opa que o PS lançou sobre o BCP?

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se a Menezes.»

ALBERTO JOÃO RECORRE A EMPRÉSTIMO PARA PAGAR VENCIMENTOS

«A Madeira contraiu mais um empréstimo, a curto prazo, no valor de 50 milhões de euros, elevando para 515 milhões os empréstimos aprovados pelo governo de Alberto João Jardim no quarto trimestre de 2007. Esse valor corresponde à remuneração mensal e subsídio de Natal a serem pagos nessa altura aos funcionários da administração pública regional que representam uma despesa anual de 350 milhões de euros, cerca de 24 por cento do orçamento madeirense.» [Público assinantes]

Parecer:

O que diria o PSD se fosse o Governo do Continente.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Solicite-se uma posição oficial ao PSD.»

BURRA PROTAGONIZA "MILAGRE DE NATAL"

«Hasta hace poco, la llegada del 31 de diciembre era motivo de preocupación para las gentes humildes. Como me recuerda mi suegro, Leo, hombre sabio de la tradición oral leonesa, "San Silvestre, con tu amo cabestre [acabas]. A comer en casa del amo, y a cenar en casa del diablo". Ante mi cara rara me lo explica paciente: "Los obreros del campo antes sólo se ajustaban para el año y el último día se quedaban sin trabajo". Por suerte los tiempos han cambiado. Y en estas fechas lo suyo es contar bellas noticias que nos recuerden el amor y la fraternidad supuestamente propios de la Navidad.

De salami a estrella mediática. Así lo han entendido en el tabloide británico Daily Mail, donde el pasado viernes se dedicó una página completa al milagro de Lady, una burrita que tras haber estado a punto de convertirse en salami ha terminado de estrella mediática teatral. El animal había sido encontrado abandonado en una carretera del sur de Gales, desnutrido y lleno de parásitos. Se había escapado de un barco alemán que le iba a llevar directamente al matadero y de allí a una fábrica de embutidos. Salvada de una muerte segura, fue trasladada a la Isla Farm Donkey Sanctuary en Wallingford, Oxfordshire, donde fue limpiada, desinfectada y alimentada. Y ahora es toda una celebridad.» [20 Minutos]

BAIXARAM RECEITAS FISCAIS DO TABACO

«A receita do imposto de tabaco pode apresentar no final do ano um desvio negativo de cerca de 174 milhões de euros em relação às previsões feitas pelo Governo no Orçamento do Estado para 2007. A confirmar-se é o segundo ano em que as contas relativas à receita do imposto sobre o tabaco não batem certo com as previsões do Orçamento, seja porque se verifica um recuo no consumo, seja porque há também mais fraude fiscal. Não há dados sobre as vendas deste ano, mas em 2006 o mercado nacional vendeu menos 10% de tabaco. » [Diário de Notícias]

Parecer:

O curioso é que ninguém parece saber porquê.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se ao ministro das Finanças se é assim tão difícil saber as causas de uma redução tão significativa nas receitas fiscais.»

NO "ANTEROZÓIDE"

Roubei estes dois excelentes momentos de humor:

OS VÍDEOS MAIS POPULARES DO YOUTUBE EM 2007 [Link]

AS MELHORES FOTOS DE 2007 NO "20 MINUTOS" [20 Minutos]

ACIDENTE PROVOCADO PELA CHUVA

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Art Director: Florence Bellisson
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