quinta-feira, julho 20, 2017

A última sardinha

Não falta muito para que o país lance um novo concurso nacional para saber quem foi o português que comeu a última sardinha que foi encontrada na costa portuguesa. E mesmo quando não tiver sido visto uma sardinha nos últimos meses os armadores defenderão que já podem ter licença para pescar, enquanto o nosso secretário de Estado das Pescas irá a Bruxelas com uma comitiva de especialistas nacionais tentar convencer o mundo de que as quotas de pesca da sardinha são demasiado rigorosas.

Cresci no meio de sardinhas, levei muita palmatoada por ir para as traineiras e voltar para casa a cheirar a sardinhas, vi serem descarregadas muitas toneladas de sardinha. Em Vila Real de Santo António quando a primeira traineira já estava em mar alto a última ainda estava a sair da doca, cada traineira era acompanhada por duas enviadas para trazer o pescado, durante todo o dia a marginal era uma azáfama de descarga de sardinhas.

Nesse tempo a rede de uma traineira dava para cobrir um quarteirão da Baixa de Lisboa, fazia dois ou três lances e carregava as enviadas e todo o espaço disponível na própria traineira, o peixe era medido em botas. Hoje entre Olhão e Vila Real de Santo António haverão duas ou três traineiras que calcorreiam toda a costa em busca de meia dúzia de caixas de sardinhas.

Quando ouço o secretário de Estado das Pescas José Apolinário dizer que a falta de sardinha “é uma consequência direta das alterações climáticas visto que não tem havido um aumento do esforço de pesca” só posso soltar uma grande gargalhada. Tal declaração só pode ser gozo, ainda que não perceba se o homem está a gozar dele próprio ou de quem o ouve. Infelizmente o secretário de Estado não está a gozar, está defendendo os armadores, precisamente os que têm destruído a costa portuguesa.

Os nossos armadores de pesca não têm o mais pequeno respeito pelo ambiente, na busca de dinheiro a qualquer custo nem respeitam os cabos submarinos quando arrastam na pesca do lagostim. Enquanto existir uma caixa de sardinhas com que possam ganhar dinheiro continuarão a pescar, pouco lhes importa as consequências, estando em causa uma espécie fundamental na cadeia alimentar dos nossos mares.

Enquanto os nossos governantes do sector das pescas não perceberem que o seu cargo existe para defenderem os interesses a longo prazo do país, e arrendarem em Bruxelas armados em representantes dos predadores da costa há um sério risco de os nossos mares continuarem a ser delapidados. Mas o José Apolinário pode ficar descansado, nessa ocasião ninguém vai pedir ao licenciado em direito que explique melhor a sua tese imbecil e oportunista das alterações climáticas.

Quando for pescada a última sardinha espero que a sirvam ao Dr. José Apolinário com talheres de ouro, porque bem a merece, está fazendo um grande esforço para que o país consiga pescar essa sardinha tão brevemente quanto possível.
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