terça-feira, julho 25, 2017

Indecência democrática

Passos Coelho sempre recorreu à propaganda para gerir a agenda política e já se deu bem com a estratégia, chegou ao poder com a preciosa ajuda de jornalistas, bloiggers jornalistas e jornalistas bloggers. A situação financeira do país, a crise financeira internacional e a personalidade de Sócrates foram uma preciosa ajuda. O seu governo integrou aqueles que ficaram conhecidos pelas “arrastadeiras”, os gabinetes ficaram cheios de blogger, Álvaro Santos Pereira chegou mesmo a ministro.

O medo de uma nova crise financeira seria o ideal para uma campanha de propaganda, Passos Coelho ainda chegou a ter essa esperança mas o diabo trocou-lhe as voltas. Passos ficou sem agenda, sem programa e sem medos para explorar. A oportunidade surgiu com o incêndio de Pedrógão Grande, não tardou a a fazer as malas e ir para o local acrescentar mortos ao desastre. Inventou-os sob a forma de suicidas, mas a manobra falhou, o líder do PSD ficou mal na fotografia como se confirmou nas sondagens.

O assalto a Tancos permitiu a Passos fazer esquecer os suicídios, o grande assalto era uma nova oportunidade e Passos agarrou-se a ela como se fosse mais uma oportunidade de se salvar. Mas a montanha pariu um rato, o grande assalto ao paiol que punha em causa a segurança nacional não passou de uma ficção e Passo teve de voltar a Pedrógão Grande, agora o problema não tinha chegado às vítimas.

Mas, afinal, não era bem assim e a nova ajuda para a campanha negra veio do Tio Balsemão, um qualquer estagiário do jornal Expresso descobriu que um morto por acidente não tinha sido considerado como vítima de queimaduras, haviam dúvidas quanto ao número de vítimas. De um momento para o outro lança-se a falsa ideia de que Costa estaria a esconder mortos, não se percebendo muito bem porquê. Afinal a estratégia dos mais mortos não era nova, Passos já os tinha inventado com os suicídios, mas na ocasião a coisa correu mal.

Surge uma nova personagem, uma empresária não se sabe bem do quê fez um levantamento de mortos a partir dos jornais, fala-se agora em quase 100 ou mais. Isto é, em São Bento estão mais de trinta mortos escondidos, provavelmente no galinheiro dos pavões. Desta vez Passos evita dar a cara, manda a Teresa Morais e o recém-eleito líder parlamentar, um tal Soares com linguagem de taberneiro. (*)

Não importa a falta de respeito pelas vítimas e pelos familiares ou que o governo não tenha a mais pequena competência ou papel na matéria, o processo corre no MP. O que interessa é criar um falso fato político, uma realidade alternativa que possibilite a Passos ressuscitar à custa dos que morreram. Hugo Soares, o tal taberneiro do PSD exigiu a Costa um mínimo de decência democrática, logo ele que estava a promover a indecência.

O governo devia perguntar a Passos Coelho de quantos mortos está precisando para reanimar a sua vida política, talvez se conseguissem arranjar alguns em Lisboa ou mesmo num qualquer cemitério, onde não faltam finados com identidade desconhecida, a questão estaria apenas em saber se os queriam na São Caetano à Lapa ou no gabinete do taberneiro, no Parlamento.

(*) Certa vez, o falecido Professor Sousa Franco referiu-se um conhecido governo de António Guterres que este falava como um cavador. Hugo Soares, pelas suas cores rosadas e bochechas rechonchudas e pela linguagem grosseira, lembra um taberneiro.

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