quarta-feira, abril 25, 2007

Cinco heranças do 24 de Abril


Neste 25 de Abril em vez de celebrar o que mudou em ou desde 1974 proponho como reflexão o que não mudou desde 24 Abril daquele ano, as herança da ditadura que persistem na sociedade portuguesa. São muitas e eu sugiro cinco:

Uma direita que ainda fez a rotura com o passado

Enquanto a direita europeia é a direita do pós guerra da luta contra Hitler e o fascismo que dominou a Europa a direita portuguesa resultou da formação de formações partidárias que herdaram uma boa parte dos políticos da ditadura. O PPD herdou a ala liberal do regime em Lisboa e os membros mais discretos da ANP e da Legião Portuguesa fora de Lisboa; no CDS ficaram os que não quiseram aderir ao PPD. A direita portuguesa tem ainda hoje uma grande dificuldade em conviver com o passado, uma parte dela ainda hoje é democrata mais por opção do que por convicção.

O autoritarismo

Como se tem visto recentemente há uma percentagem significativa de portugueses para quem a solução de todas as crises da sociedade é o autoritarismo, o bom primeiro-ministro é o “chefe”. É um tique que encontramos tanto à direita como à esquerda, basta ver como o PS de hoje compara Guterres com Sócrates para se perceber isso, a grande qualidade de Sócrates não é a competência, a capacidade política, a sua visão para o país, é o seu lado autoritário que é sistematicamente louvado como a sua grande qualidade. O próprio Sócrates cultiva alguns tiques há muito conhecidos, o líder discreto, autoritário e austero são qualidades muito apreciadas num país onde o ruralismo tem raízes profundas.

O Estado paternalista

Os portugueses continuam a ver no Estado a solução de todos os seus problemas, da competitividade das empresas à qualidade do ensino tudo tem que ser resolvido pelo Estado, mesmo em democracia limitam o exercício da cidadania ao mínimo bastando-lhes o voto para transferirem para os governos a responsabilidade por todos os males do país.

As boas maneiras

Apesar de a corrupção e outros males dominarem a sociedade portuguesa os portugueses são apegados às boas maneiras, tratamos o Valentim Loureiro por “senhor Major”, o Público foi condenado porque prejudicou a imagem de um clube desportivo ao divulgar que este tinha dívidas ao fisco. Muitos dos valores do salazarismo subsistiram desde o respeitinho pelos “senhores” até às virtudes da pancada como método educativo, ainda recentemente defendido num acórdão do Supremo. Basta comparar a linguagem do debate político em democracias como a americana ou a britânica para percebermos que por cá ainda há quem defenda as boas maneiras do tempo da ANP e um bom exemplo disso são as referências de Sócrates ou do Procurador-Geral da República aos blogues.

Uma sociedade não competitiva

A ditadura dispensou os portugueses de serem ambiciosos e a democracia não lhes ensinou o contrário, valoriza-se mais o resultado do sucesso do que a forma como este foi alcançado. Da economia às escolas a competitividade quase foi banida, umas vezes por ser pecaminosa e outras por dispensar as soluções mais fáceis. A lei do menor esforço tornou-se a regra de uma sociedade, os empresários procuram o sucesso escapando aos impostos, a corrupção dos autarcas é elogiada se os seus resultados se traduziram em benefício para os municípios, o Alberto é um herói porque se aproveita de uma democracia onde as regiões mais pobres financiam a sua autonomia e os canudos fáceis das universidades privadas resolveram o défice de licenciados.

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