sexta-feira, maio 22, 2015

Teoria económica da pobreza

Nas primeiras décadas do capitalismo o princípio económico em relação ao valor do trabalho era simples, quanto menos ganhasse o trabalhador mais ganharia o patrão, quanto mais ganhasse o patrão mais capital estaria ao seu dispor e quanto mais capital fosse investido mais cresceria a economia de um país. Em conclusão, quanto mais pobres houvessem mais cresceria a riqueza de uma nação.
  
Nesses tempos não se exigia a qualificação dos trabalhadores, o horário de trabalho era aquele que os trabalhadores aguentassem, a alimentação e as horas de descanso deveriam ser as suficientes para assegurar a manutenção dos trabalhadores com um mínimo de saúde. Pouco importava a mortalidade, a alta taxa de natalidade dos pobres e os recursos humanos ilimitados dos impérios coloniais garantiam que a simpática lei da oferta e da procura estivesse sempre contra os trabalhadores. E se algo falhasse recorria-se à polícia que tinha o direito de reprimir e agredir sem limites.
  
É este o modelo económico que está sendo implementado pela Dra. Maria Luís, a assistente, e por Passos Coelho, o jovem promissor em que a assistente apostou. É um modelo económico abandonado em todo o mundo e que na Europa actual conduzirá o país ao colapso económico. Apesar de já serem evidentes as consequências nefastas deste retrocesso civilizacional imposto pelos que acham que o país evoluiu em demasia no domínio dos direitos e bem-estar sociais, os partidos do governo e algumas das elites da treta hoje bem representadas no Observador insistem neste modelo. Pouco lhes importa que a miséria aumente ou que o país empobreça, este modelo garante equilíbrio financeiro ao Estado e enriquecimento fácil a uma classe empresarial preguiçosa.
  
O problema deles é que ignoram uma realidade que lhes nega o sucesso, o país não vive em autarcia, não é aceitável reduzir os direitos sociais dos trabalhadores portugueses aos dos criados de Passos Coelho na sua juventude, já não se pode recusar a instalações de estações da CP em localidades do Alentejo para impedir a fuga dos trabalhadores locais e muito menos proibir a emigração. Aliás quem promove este modelo económico e ao mesmo tempo sugere aos portugueses que emigrem evidencia uma total ignorância.
  
Dentro de menos de uma década Portugal não terá jovens quadros que renovem os que entretanto alcançarão a idade da reforma e a combinação da aposta em trabalho não qualificado com a redução dos impostos sobre o capital conduzirá à bancarrota do Estado e à destruição de qualquer intervenção social do Estado, o dinheiro mal dará para financiar as polícias e o exército. 
  
Passos Coelho e a sua ministra das Finanças ainda não entenderam que as suas teorias são inviáveis no quadro da actual EU, das suas regras económicas, dos seus valores e do seu padrão e bem-estar social. Os que defendem este modelo com o argumento de que sem ele teríamos de sair do euro escondem que o sucesso desta estratégia apenas é viável no curto prazo, no médio e longo prazo Portugal obriga à reposição de fronteiras sem as quais será impossível impedir os portugueses de emigrarem em massa.
  
Passos Coelho pode sonhar que com muita miséria humana o nosso modelo de capitalismo continuará a ser viável, mas não pode obrigar os portugueses a viver num país sem direitos laborais ou sociais, sem regras e onde se aumentam brutalmente os impostos ou se cortam indiscriminadamente os salários cada vez que seja necessário libertar riqueza para assegurar a manutenção do estatuto dos mais ricos.

A regra das sociedades é procurar que haja mais riqueza e que esta seja melhor distribuída, mas por cá alguns imbecis descobriram que era o contrário, aumentar a pobreza, tornar o mercado interno exíguo e exportar produtos de baixo valor acrescentado e produzidos com matérias-primas importadas. Descobriram que a fiscalidade não serve para redistribuir a riqueza mas para complementar a desvalorização do trabalho conseguida com a promoção da lei da selva nas relações laborais e à exploração pura e dura acrescentaram a desvalorização fiscal dos trabalhadores. Vales de tudo para promover a pobreza de forma a aumentar a riqueza de uns quantos.
  

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