sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Quem torto nasce...

“Eu não vejo razão para que não seja reduzida a comissão que é cobrada a Portugal pelos empréstimos que recebeu do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, matéria que aliás penso que já tinha sido falada há algum tempo. Tal como não vejo razão para que não seja alargado o período de reembolso dos empréstimos do Fundo de Europeu de Estabilidade Financeira” Declarações de Cavaco feitas em Dezembro de 2012, quando a Grécia conseguiu alterações de taxas e de prazos.

Este é o mesmo Cavaco que sugere “come e cala" aos gregos, o Cavaco que sugere que o seu país ganhou apenas com austeridade e obediência à troika. É o mesmo Cavaco que sugere do alto sua sabedoria sugere ao primeiro-ministro grego que aprenda sobre o funcionamento da Europa que em Julho de 2013 defendia a recomposição da troika com a saída do FMI, isto é, dizia precisamente o que defende o seu mau aluno grego. O mesmo Cavaco que se dizia candidato presidencial por ser professor de economia, mas qie na hora de explicar lucros chorudos com um negócio de acções pouco transparente disse ser um pobre que nada sabia dessas coisas sobre acções escritas em inglês.

“É chegado o tempo de reflectir sobre se a composição e o papel da troika é adequado nesta fase de implementação dos programas de ajustamento. Talvez seja preferível – mas é apenas uma opinião pessoal – se a responsabilidade não deve ficar plenamente – quer no desenho, quer no acompanhamento, quer nos ajustamentos – nas instituições europeias, na medida em que os objectivos da União Europeia são bem diferentes do FMI”

O Presidente que sugere aos gregos que respeitem os tratados e os acordos é o mesmo presidente que ao longo dos dois mandatos só se empertigou na defesa da Constituição quando a usou por recear que o governo regional dos Açores lhe estava a retirar poderes, que aprovou uma série de medidas em relação às quais o Tribunal Constitucional não teve quaisquer dúvidas. E se o governo grego lhe disser, como ele disse aos portugueses, que encomendou muitos estudos que provam que as suas exigências não violam os acordos e os tratados, mesmo que isso seja descaradamente mentira?
 
Mas não deixa de ser interessante ver alguém que tão maltrata uma Constituição ser tão competente na hora de cumprir e fazer cumprir tudo o que acorde com a troika. Mas será mesmo assim, o seu governo tem cumprido com tudo ou graças à intervenção do BCE Portugal teve acesso aos mercados e a troika fechou aos olhos ao desempenho de Portugal? Que se saiba Portugal não cumpriu com uma boa parte do que se comprometeu no ou depois do memorando e ainda recentemente a Comissão Europeia se queixava disso. 

Se é de princípios de que estamos falando nem Cavaco Silva nem Passos Coelho, para não referir personagens absurdas como um tal Maçãs, têm qualquer autoridade moral para criticar quem quer que seja. Como é que um primeiro-ministro que enganou o seu eleitorado, que se fez eleger com base em mentiras pode dizer ao governo grego que deve respeitar os eleitores e contribuintes dos parceiros europeus?

O mesmo governo que há pouco tempo queria excluir de um acordo laboral os trabalhadores que não eram sindicalizados ou que pertenciam a sindicatos que não assinaram esse acordo é o mesmo governo que depois de não alinhar com irlandeses e gregos apressou-se a beneficiar das cedências a reivindicações com que não foi solidário.

Temos um governo e um presidente quem Portugal e os portugueses numa posição pouco diga, a de um aluno graxista que espera beneficiar pelo facto de não ser solidário com os colegas, como um pendura oportunista que quer viajar mas na hora de pagar o bilhete deixa a tarefa para gregos e irlandeses.

De repente, vem-me à memória uma famosa ficha dos arquivos da PIDE onde alguém tentava conquistar as simpatias da polícia política do regime escrevendo sem que ninguém o solicitasse no espaço de “observações” que “O sogro casou em segundas núpcias com Maria Mendes Vieira, com quem reside e com quem o declarante não priva.”. É esta a cultura que hoje é a imagem externa de Portugal, porque quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita.

Como pode o país sair desta cepa torta liderado por gente sem grandeza, sem coragem, seguidista e receosa de tudo?
   
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