segunda-feira, abril 07, 2014

Os fretes

Num país onde a política está transformada num jogo sujo, a fonte de uma boa parte do jornalismo é a sargeta e o exercício do poder assenta na manipulação, é natural que o frete seja transformado numa instituição e que já poucos se incomodam com esta realidade miserável.
  
Um bom exemplo de um frete foi o famoso briefing em que os jornalistas garantiram que não denunciariam a fonte a troco de uma primeira página que sabiam ser uma pura manobra de propaganda. A forma como todos os intervenientes reagiram evidencia a consciência de todos sabiam ao que iam, daí que o ministro Marques Guedes disse o que bem quis dos jornalistas e nenhum destes se sentiu ofendido, da mesma forma que o primeiro-ministro humilhou o secretário de Estado e este manteve-se firme e hirto no desempenho das suas elevadas funções.
  
Não deixa de ser uma ironia do destino de o frete ter sido encomendado a alguém que durante anos velou pelo desempenho rigoroso das funções do Estado na qualidade de Inspector-Geral de Finanças. Mas o mais irónico é que aquele que há poucos anos aceitou a tarefa encomendada pelo então director-geral da DGCI de vasculhar nos emails de todos os funcionários do fisco na tentativa de apanhar fugas de informação para os jornais, venha agora a convocar jornalistas a quem dá informações supostamente secretas e com a garantia de não identificação da fonte.
  
Outro bom exemplo de frete, desta vez em dose semanal, é o papel desempenhado por Marques Mendes na SIC. Curiosamente o briefing do secretário de Estado mais não foi do que o esclarecimento de uma notícia divulgada por Marques Mendes. É uma vergonha ver alguém que foi governante tantos ano e que chegou a líder do PSD aceitar agora ser transformado em moço de fretes de Passos Coelho. Cada vez que Passos pretende lançar mais uma manobra de propaganda o primeiro frete cabe precisamente a Marques Mendes, que desencadeia as operações a partir do seu tempo de antena na estação de televisão do militante n.º 1 do PSD.
  
OS exemplos de fretes multiplicam-se na comunicação social, veja-se o caso do Rodrigues dos Santos que por encomenda ou por iniciativa própria achou que devia chamar a si o papel de jornalista justiceiro e meter Sócrates na linha. O comentário de opinião de Sócrates deixou de o ser e aquilo que o jornalista da RTP faz nem sequer é uma entrevista como ele sugere armado em jornalista britânico, o que o funcionário da RTP faz é uma tentativa sistemática de destruir a opinião do ex-primeiro-ministro. 
  
O país está podre, enquanto empresários e trabalhadores fazem o que podem para sobreviver e superar a crise financeira do país, as elites de merda da capital fazem jogos sujos para manterem esquemas de poder e de acesso a riqueza fácil. Os corredores do poder, do jornalismo e da alta finanças alimenta-se cada vez mais de fretes que apenas visam manipular a opinião e o poder em favor de uns quantos.

um dia saberemos qual o preço de todos estes fretes, se é que já não o sabemos pelo empobrecimento forçado a que os portugueses estão sendo sujeitos para assegurar a viabilidade de banqueiros duvidosos e empresários preguiçosos.


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