sexta-feira, janeiro 24, 2014

Estranha forma de oposição

Esta semana o líder do PS teve vária oportunidades para intervir, melhor, para desempenhar o seu papel de líder da oposição. 

Em Davos Durão Barroso falou em crise internacional o que permitia ao líder do PS questionar a tese da direita segundo a qual todos os males portugueses são o resultado do governo do seu partido. Mas Seguro parece ficar quietinho sempre que está em causa de defender o seu partido quando isso significa defender o seu antecessor. 

No final da semana o governo divulgou a execução orçamental fazendo passar a ideia e mais um sucesso, escondendo que o aumento da receita fiscal foi feito à custa da transformação de um subsídio de todos os trabalhadores em  receita de IRS, para além de uma boa parte do suposto sucesso ter sido alcançado à custa de receitas extraordinárias e artificiais. Mas Seguro não respondeu, parece que ficou tolhido perante tão grande sucesso governamental, calou-se e permitiu mais uma vez ao governo passar a ideia de oásis.

Toda a semana foi marcada pela pouca vergonha nas bolsas de investigação, onde o governo além de ter favorecido amigos promoveu um corte brutal no apoio estatal à investigação e às universidades. A situação foi tal que o próprio governo se sentiu atrapalhado, começou por falar da necessidade de investir em investigação útil às empresas para acabara a gaguejar perante factos incómodos. Seguro teve aqui uma grande oportunidade para denunciar um dos lados mais negros deste governo e um dos traços em que o PS mais se distingue da direita. Mas, tal posição significaria elogiar a aposta dos governos de Sócrates na ciência e como já se, entre não fazer oposição e defender uma bandeira do PS que tenha sido bandeira de Sócrates o líder do PS prefere ficar calado e favorecer a direita.

Ainda durante esta semana o país ficou a saber que o mesmo governo que inventou concursos para, supostamente, tornar a Administração Pública independente dos aparelhos partidários, exige agora que os que concorrem a lugares de directores-gerais e subdirectores-gerais tenham trabalhado directamente com membros do governo. Isto é, só podem concorrer os assessores e adjuntos ou os anteriores dirigentes, que foram escolhidos pelo governo ainda antes da lei dos concursos entrar em vigor. Isto significa que o próximo governo vai ter que suportar os boys do PSD até ao fim dos mandatos pois estes irão dizer que foram escolhidos por concurso. Parece que Seguro concordou com a manobra e nada disse.

Então, que oposição fez Seguro?

No meio de milhões de portugueses que acedem  ao SNS ocorreu um incidente, situação em que uma organização da dimensão deste sistema será sempre fértil, por mais que se gaste ou por melhor que seja gerido, a comunicação social sempre teve aí um filão para manchetes dramáticas.  De forma oportunista Seguro apontou baterias para o único sector do governo onde uma parte significativa dos cortes foram suportados pelos interesses instalados, tendo-se evitado a penalização da qualidade dos serviços de saúde. Mas como o braço direito de Seguro é médico, um rapazola que em tempos disse que acabava com a ADSE na hora e sem mais, o líder do PS lá foi, já com uma semana de atraso. Passear-se num qualquer hospital para dizer umas banalidades aos jornalistas.

Até parece que ou António José Seguro concorda com quase tudo o que o governo faz ou faz de propósito para passar a mensagem de que é mais incompetente do que Passos Coelho e que com ele tudo ficará na mesma. Esta é a mensagem que o PSD faz passar, mas a verdade é que pelo comportamento do líder do PS até se fica com a impressão de que combinou com Passos Coelho a melhor forma de a direita o derrotar. Provavelmente terá as suas razões, assim como outros preferem o conforto de alguns cargos tranquilos a liderar a oposição Seguro parece ter percebido que é bem mais confortável ser líder do PS na oposição do que primeiro-ministro.
 
 
 
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