sexta-feira, janeiro 03, 2014

Manda quem pode e obedece quem deve

Esta máxima da Administração Pública sintetiza a forma de exercício da austeridade, os chefes mandam, os subordinados obedecem. Infelizmente esta fórmula de obediência cega não raras vezes cobarde está a generalizar-se à sociedade portuguesa, em particular ao mundo do jornalismo.
 
Quando o Expresso produziu sucessivas notícias sobre o processo de corrupção que no Brasil ficou conhecido por “mensalão” Ricardo Salgado, o agora atrapalhado presidente do BES, ameaçou o semanário de o excluir dos seus investimentos publicitários. Os responsáveis e donos do Expresso encheram o peito para afirmar a independência do jornalismo mas a verdade é que o assunto mensalão desapareceu das páginas do Expresso e da generalidade da comunicação social portuguesa.
 
O mensalão serviu para demonstrar quem manda na comunicação social e nos jornalistas portugueses. Os jornais são financiados pelos grandes orçamentos publicitários e enquanto as empresas que financiam os jornais e televisões assim o desejarem a comunicação social obedece-lhes. Procure-se uma notícia negativa para empresas como a EDP ou os grandes bancos e logo se percebe quem manda nos jornalistas. Alguém acredita que o grande protagonismo de Eduardo Catroga na comunicação social resulta dos seus dotes de comentador ou do valor intelectual de baboseiras como a dos pentelhos?
 
Veja-se o caso do novo golpe decidido pelo governo, o alargamento da taxa adicional de IRS sobre as pensões que o governo cinicamente designou por contribuição de solidariedade, como se quem precisa de solidariedade é o país e não os idosos. Algum jornalista explicou a decisão, denunciou a criação de um novo imposto?
 
Os nossos jornalistas optaram por intoxicar a opinião pública com a mensagem governamental de que se evitou um aumento dos impostos. A maioria dos jornais nem sequer pôs a afirmação na boca dos ministros, fizeram sua a mensagem governamental e a maioria dos jornais noticiaram a ideia como se tivesse sido um grande favor feito pelo governo aos portugueses.
 

Manda quem pode e obedece quem deve, os jornalistas defendem o seu próprio ordenado, os lugares nas comitivas governamentais e presidenciais, os investimentos publicitários, a presença nos jantares pagos com cartões Visa dando mostras de obediência. Enquanto as EDPs continuarem a beneficiar de milhões, enquanto os patrões da comunicação social continuarem a ter benesses governamentais sob a forma de um novo canal ou de constrangimentos à RTP, enquanto tudo isso suceder quem manda na comunicação social e nos jornalistas é quem pode e quem pode é o governo.
  


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