sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Marcelo

Marcelo vinha no avião e, agora que se pode usar o telemóvel nas aeronaves da TAP, alguém lhe telefonou a dizer-lhe “ó professor aquilo no Coliseu está uma ganda bandalheira, até parece que ficou tudo bêbado por festejarem os 40 anos. Apareça lá que sai logo candidato presidencial!”. Marcelo pensou, pensou enquanto sobrevoava o Atlântico, o avião vinha de norte e com o vento a vir dessa direcção teve que ir dar a volta pela Caparica. Aí Marcelo lembrou-se que em tempos tinha sido o Dux do PPD e que até já tinha praxado o Passos Coelho obrigando-o a ir a um casting ao Politeama. Mas quando estava mesmo por cima do Tejo pensou com os seus botões “se eu já mergulhei ali num tempo em que os esgotos eram despejados no rio e haviam mais cagalhões do que mujos, e e se fui capaz de mergulhar no meio deles para tentar ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa, então sou capaz de me atirar de cabeça para qualquer merda só para chegar a Presidente da República. 
  
Aí o Marcelo encheu o peito, deu umas boas goladas no mata-bicho, escolheu uma roupa informal e foi de seguida para o Coliseu, onde Passos Coelho já sabia que o velho Dux ia aparecer, e foi o que se viu. O congresso ficou a saber que o velho Marcelo é um sentimentalão, que não conseguiu ignorar o partido agora que ia entrar na fase da crise dos quarenta, que não podia deixar o líder sozinho numa fase tão difícil e se estavam lá todos menos a Manela é porque o ambiente era o da Festa de Chão da Lagoa, só que em vez da poncha a bebida deveria ser champanhe.
  
Marcelo ainda pensou na hipótese de levar o velhinho chapéu que guardou nos tempos em que ficava bem a qualquer político fazer-fotografar ao lado do Alberto João, um tempo em que o país parou para reflectir sobre se o líder madeirense devia abandonar os seus para se candidatar a Presidente da República, mas optou por não o fazer. O ambiente fazia lembrar  as bebedeiras de poncha mas como chapéus há muito o ,melhor era habituar-se à ideia de que agora a festa eram mais para os lados de Massamá. E lá foi.
  
Marcelo discursou, fez rir o congresso, cumpriu a obrigação de atacar e tentar ridicularizar o Seguro e quando já se equacionava a possibilidade de distribuir fraldas para incontinentes ao pessoal da primeira fila o Dux saiu em apoteose, depois do baptismo dos cagalhões acabava de receber o baptismo do Coliseu que o habilitou a candidato presidencial. De um momento para o outro uniu a família partidária, que melhor poderia o PSD dar ao país depois de ter recolocado Relvas como contramestre do partido, senão dizer ao país que no estado em que está o melhor já não é escolher alguém capaz de mergulhar em águas profundas, mas sim quem já demonstrou ser capaz de mergulhar em todo o lado.
  
O PSD ganhou Relvas, o país ganhou Marcelo, podemos estar descansados, depois do pós-troika, da reeleição de Passos Coelho continuaremos a ter o Jardim na Madeira e o Marcelo vai para Belém. Já só falta saber onde colocar o Dias Loureiro e com um bocado de sorte ainda se manda o Duarte Lima para embaixador no Brasil. O mais grave disto tudo é que alguém vai ao congresso do PSD, faz umas palhaçadas, conta umas anedotas, mostra os seus conhecimento do calão da Quinta da Marinha e sai de lá candidato presidencial.

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