domingo, novembro 02, 2014

Umas no cravo e outras na ferradura



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"Eles "andem" aí", marinheiros russos em Santa Apolónia
Fragata Neustrashimyy (2004), Lisboa
  
 Jumento do dia
    
Marco António, o pequeno imperador do PPD

Pobre Marco António quer um suplemento de alma para um partido cuja alma irá para o inferno nas próximas eleições legislativas. O estado do PSD é tão mau que o governo já gasta o dinheiro dos contribuintes a fazer um road-show destinado a convencer os militantes da bondade de um OE mal feito, que sobrecarrega a austeridade e que goza com os portugueses.
  
«Mobilizar o partido e dar-lhe o suplemento de alma para que possa defender as políticas do governo no país, a caminho das legislativas de 2015, são a razão de ser da carta que o vice-presidente coordenador do PSD, enviou ontem às distritais laranja. Na missiva, a que o DN teve acesso, Marco António Costa pede para passarem a mensagem de que "Portugal está em boas mãos" e que "voltar para trás seria um desastre nacional".

Nesta carta - que precede o rood show de ministros a explicar às distritais do PSD o Orçamento do Estado para o próximo ano -, Marco António Costa frisa que é preciso que os portugueses percebam através da "ação política e partidária no terreno as sólidas e concretas perspetivas positivas que este OE apresenta e as conquistas coletivas que fizemos para fugir à bancarrota".» [DN]

      
 As libélulas e o estado da Nação
   
«– Houve uma invasão de libélulas.

– O quê?

– Uma invasão de libélulas na zona ribeirinha de Lisboa.

– E depois?

– Ao menos isso.

– A invasão de libélulas?

– Sim. Os bichos são inofensivos, simpáticos, parecem helicópteros.

– …

– Aparecem nas gravuras japonesas, nos haikais, em Vítor Hugo…

– …

– “Um pimentão, dai-lhe umas asas, uma libélula vermelha!”

– O que é que te deu?

– Bashô.

– Eu sei. O que é que te deu? Picaram-te?

– As libélulas não picam ninguém. São almas.

– O quê?

– Les âmes, libellules de l'ombre...

– O quê?

– Victor Hugo. Um amador de libélulas. E há Tennyson…

– Mas isso é para as dragonflies…

– A living flash of light. E depois há as libelinhas, as libélulas em versão namorados.

– Onde é que tu já vais!

– Ainda nem sequer parti.

– Mas o que é que têm as libélulas?

– Bons olhos. Precisamos de bons olhos.

– Não me parece que sejam os olhos das libélulas que te interessam.

– Porque é que tu achas que vêm para cá?

– Porque isto parece um charco.

– Enlouqueceste.

– Sim. Passei a semana a ver os nossos governantes vestidos com a farda da Mota Engil; passei a semana a aturar o Portas a saracotear-se no México com uma corte de jornalistas com a viagem paga para lhe darem espaço televisivo todos os dias, primeiro ia almoçar com o Carlos Slim (soam as trombetas), depois o Slim não apareceu (flautim); passei a semana a ouvir o ministro da Economia a elogiar uma subida de Portugal num ranking em que afinal desceu; passei a semana a ouvir mentiras sobre o Orçamento do Estado, a ouvir mentiras sobre o BES, a ouvir mentiras sobre as previsões económicas, tão ficcionais como a fada dos dentinhos; passei a semana a ouvir o primeiro-ministro a ler um discurso escrito que negou logo a seguir quando passou à oralidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo dizer coisas diferentes com intervalo de minutos, ainda por cima sobre o bolso de centenas de milhares de pessoas (quem é que liga a isso?); passei a semana a ver um enorme vazio onde devia estar a oposição, com António Costa a comportar-se como primeiro-ministro putativo, em vez de assumir o papel de líder da oposição que é o dele até ganhar eleições; passei a semana a assistir àquela cena patética, de verdadeiros “amarelos”, na UGT, a dar legitimidade ao Governo que mais combateu o mundo do trabalho, com Passos Coelho a fustigar os trabalhadores num cenário “sindical”; passei a semana a ver imagens de Nuno Crato passeado pela UGT a bater palmas como se o masoquismo na moda fosse engolir alegremente uma manifesta provocação; passei a semana a ler jornalistas preguiçosos a repetirem os argumentos do poder sobre como foi bom o negócio do Novo Banco, passando do tudo ao nada no BESA, de como não é importante o chumbo do BCP nos testes de stress, como está sempre tudo bem quando os interlocutores são os que importam, os do clã, os que estão no “lugar certo” de Portugal, empresas, bancos, gestores, povo da economia “empreendedora”; passei a semana a ver sempre proteger os que mandam, Passos, Maria Luís, Carlos Costa, Stock da Cunha, e a considerar que tudo o que eles fazem é o “menos mau”, o “que podia ser feito”, uma “boa solução num contexto difícil”, etc., etc.; passei a semana a ver comparar realidades más com previsões boas, como se fossem a mesma coisa; passei a semana a ouvir silêncios, sobre as últimas estatísticas da pobreza, das penhoras, das dificuldades económicas, aquilo que não interessa ao “Portugal positivo”; passei a semana a ver apontar uns putativos culpados pela “sabotagem” do Citius, quando durante meses ouvimos técnicos sobre técnicos, distintos professores (será que Tribolet também faz parte da conspiração sabotadora?) a dizer que aquilo era desastre certo; passei a semana ver imagens de cãezinhos de Pavlov a abrir os dentes ao som de “Sócrates”, como se o homem ainda estivesse no poder, para esquecer que de 2011 a 2014 foram outros que aprofundaram as desgraças que ele deixou, numa indigência política assustadora do que vai ser o ano de 2015; passei uma semana a ouvir tudo o que era gente séria a contar como está a ser cheio o Estado, as fundações ligadas ao Governo, as empresas, tudo quanto é lugar seguro e bem pago e com poder, de “amigos do ajustamento”, da turma da “justiça geracional”, sem parangonas, sem publicidade, agora cada vez mais depressa, porque se aproximam tempos difíceis e o PS vai querer o seu quinhão; passei a semana a ler histórias muito silenciadas sobre milhares de euros que foram para empresas de comunicação, quase sempre as mesmas, as que trabalham para o Governo, para as empresas do PSI-20, para as autarquias cujos presidentes eram ou são os principais controladores dos aparelhos partidários, do PSD em particular; passei a semana a ouvir dizer que os aviões russos “invadiram o nosso espaço aéreo”, “passaram junto ao nosso espaço aéreo”, “passaram no espaço controlado por Portugal”, “entraram no espaço europeu” (a Rússia é uma nação europeia…), e a ouvir o ministro que mais ajudou a destruir as nossas forças armadas agarrado à oportunidade de dizer que “operacionalmente” estava tudo bem, quando se percebe nas entrelinhas que está menos bem do que parece (quantos F-16 estão canibalizados para dar as peças aos que voam, qual a autonomia real dos que voaram?).

Passei a semana a ver com tristeza como está o meu muito amado país. Tudo a cair aos bocados na apatia e indiferença geral.

Chega. Passei-me. Vivam as libélulas!» [Público]
   
Autor:

Pacheco Pereira.

      
 A melhor definição da graxa
   
«José Miguel Júdice acusa os portugueses de serem os culpados dos políticos serem mentirosos, uma vez que todos nós preferimos ouvir coisas boas do que sermos confrontados com a realidade. Defensor de que as eleições legislativas deveriam ser realizadas na primavera, o advogado defende que António Costa é o homem certo para liderar o país. O maior elogio vai, porém, para Nuno Crato, que considera ser o melhor ministro da Educação da democracia portuguesa.» [Notícias ao Minuto]
   
Parecer:

Este elogia os actuais e já dá graxa ao próximo.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Vomite-se.»
  

   
   
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