quinta-feira, julho 03, 2014

Do liberal ao liberal estalinista

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Se pudesse vasculhar a minha memória como se fosse o Google e procurasse por “investimento estrangeiro” a primeira referência seria à desistência da Nissan de instalar uma fábrica de baterias em Portugal. Se procurasse por criação de emprego a primeira referência diria respeito à redução dos salários. Se procurasse por crescimento económico iria parar à humilhação infligida por Vítor Gaspar ao então ministro da Economia Álvaro Santos Pereira, quando este propôs medidas para o crescimento e teve como resposta “não há dinheiro” e ao insistir ouvi Gaspar perguntar-lhe “qual das três palavras não percebeu?”.
  
Passos Coelho acreditava que depois de uma poda rigorosa da economia portuguesa nem seria necessário adubar a árvore porque nasceriam viçosos rebentos por todo o lado. Os patos-bravos da construção passariam a construtores de automóveis e os donos de restaurantes falidos ressurgiriam como startups na indústria electrónica. Os crescimento era uma consequência de uma economia com um Estado reduzido e com rigor orçamental e não o resultado de qualquer veleidade económica. 
  
O Gaspar fugiu, o sôr Álvaro saiu humilhado pelas portas traseiras, para o lugar do idolatrado professor bastou uma licenciada da Lusíada e o Álvaro foi substituído na Horta Seca por uma santinha milagreira que em pouco tempo fez mais milagres do que a santinha da Ladeira. O país passou a ser um caso de sucesso, a santinha anunciava o milagre da exportação e do crescimento e até o Lambretas já anda armado em santinha e anuncia o milagre da descida do desemprego sem criação de empregos ou a redução dos carenciados apesar da multiplicação da miséria.
  
Agora, Passos Coelho revela-se um ultraliberal de influência estalinista, o liberal proibia a palavra crescimento e excomungava quem propusesse medidas que o visassem, agora decide que é o momento de crescer como se o crescimento fosse um comboio com hora para a partida e ele fosse o chefe da estação. Dantes bastava a desvalorização fiscal dos trabalho para que a economia crescesse, agora quer um acordo nacional para a criação de emprego, como uma missa presidida por Cavaco e com sacristões como Passos e Seguro seja o melhor princípio para uma procissão destinada a pedir emprego a Deus.
  
O mesmo Gaspar que fala na diferente qualidade das medidas orçamentais esquece que o crescimento não se mede apenas em taxas, também se pode questionar a sua qualidade. Um crescimento resultante da exportação  de produtos refinados ou de produtos de baixo valor acrescentado e usando matérias primas importadas não só cria pouco emprego como gera poucos excedentes capazes de sustentar o investimento.
  
Passos Coelho começou por acreditar em Gaspar e desprezou o investimento e destruiu sectores que suportavam o tecido social, o resultado foi o desemprego e a fuga de projectos como o da Nissan. Depois acreditou na santinha da Horta Seca e começou a inventar milagres. Agora que as eleições se aproximam e receia a queda tenta convencer que o combate ao desemprego que ele provocou depende de um dos tais compromissos de que o ti Cavaco tanto fala.
  
Enquanto acreditou em Gaspar o líder do PSD foi um militante do ultra liberalismo, agora que as eleições se aproximam e “está à rasca” revela-se um estalinista, ele que mandou parar o crescimento decide agora que o crescimento deve retomar a marcha. Passos Coelho acha que a economia portuguesa é um comboio daqueles que lhe terão oferecido no natal quando era gaiato. Só que já está demasiado crescidinho e ao dar ordens de marcha à economia mais parece o velho Estaline a brincar na sua dacha com uma miniatura do Expresso do Oriente.
  

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