sexta-feira, setembro 19, 2014

Populismo

Num país onde todo um povo foi educado durante quase cinco décadas a desconfiar dos políticos e onde esse mesmo povo foi convencido a não sentir necessidade de se fazer representar em democracia é muito fácil criar a ideia de que o exercício da política é uma actividade tendencialmente corrupta e malévola. A ingenuidade do pós 25 de Abril deu lugar ao desencanto e da mesma forma que os portugueses aderiram em massa aos primeiros actos eleitorais agora desconfiam da sua utilidade e dos que se candidatam.
  
Neste ambiente é fácil o aparecimento de políticos pouco escrupulosos que se aproveitando dessa desconfiança da política conseguem eles próprios subir na política. Alguns nem sequer têm ideias, limitam-se a alar mal da política e dos políticos e as suas propostas para o país são apenas a desconfiança em relação à política e à democracia.
  
Um político que esteja desesperado e queira ganhar a qualquer custo tem no populismo a solução para obter ganhos eleitorais que o seu perfil ou competência não permitem. Os eleitores deixam de o avaliar e sentem-se tentados a ver na negação da democracia e dos valores democráticos a solução para todos os males, todos os políticos que falem mal dos outros políticos só porque são políticos têm a audiência dos que por desespero ou por convicção consideram a democracia uma inutilidade que gera corrupção.
  
Sugerir que a política aparece frequentemente associada a negócios, passar a ideia de que a capital é a cidade do pecado por oposição aos bons valores ruralistas do campo, propor a diminuição dos deputados porque sendo caros e inúteis não são necessários em tão grande número, passar a ideia de que o actual parlamento tem deputados que não representam os cidadãos, são truques que encontram a adesão de eleitores mal informados.
  
O mais curioso é que alguns dos políticos mais populistas são precisamente políticos com mais de duas décadas de parlamento, quem ninguém sabe qual o circulo pelos quais foram eleitos e que sempre viveram na capital onde conhecem os bastidores como ninguém. Uma boa parte dos políticos populistas são precisamente aquilo que criticam nos outros.
  
O projectos populistas não têm por objectivo que os eleitores escolham os mais competentes, os mais honestos ou os mais capazes, visam sim que os eleitores escolham um político só porque este domina a arte da vitimização e da mentira. Não se escolhe um político populista porque ele demonstra ser mais honesto, competente e capaz dos que os outros, mas sim porque ele domina melhor a arte da difamação desviando a atenção dos eleitores para os defeitos que inventou nos outros.
  
Raramente um político populista espelha inteligência, prova honestidade ou evidencia incompetência, os políticos populistas precisam que os eleitores pensem mal dos outros políticos e é por isso que o seu discurso visa denegrir os outros políticos e com isso por em causa a democracia. O populismo é a arma dos fracos e oportunistas, daqueles para quem as suas ambições estão acima da democracia e que não hesitam em defender hoje aquilo a que se opuseram no passado.
  
Não há populismo de esquerda ou de direita, quem opta pelo populismo não é de esquerda nem de direita, não é liberal nem social democrata, não é nem socialistas nem comunista, o populista é alguém que tentar iludir os eleitores escondendo as suas limitações chamando a atenção para os defeitos que atribui aos outros, aproveitando-se dos piores valores que por vezes conduzem o comportamento eleitoral de eleitores menos esclarecidos.
 
O populismo que vira o interior contra o litoral, o agricultor contra o industrial, o cidadão contra o deputado, o norte contra o sul, o país contra a capita, o populismo que insinua que a política e os negócios andam sempre juntos, que defende que há políticos puros e políticos impuros, que há políticos prostitutos e políticos puros, este populismo é próprio de políticos falhados e os políticos que não têm capacidade para ganhar em democracia são perigosos para essa mesma democracia. É obrigação de todos os democratas rejeitá-los.
  
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