sábado, maio 17, 2014

Milagre, diziam eles

Durante largos meses Portugal foi o tigre da Europa, graças à confiança internacional no brilhantismo de Passos Coelho, aos passaportes para mafiosos do Paulo Portas, ao competentíssimo presidente do AICEP o país exportava em barda, o empenho colectivo nas exportações era tanto que até o fino Pires de Lima passou a usar os sapatos com cheiro a chulé fabricados em Portugal. O país respirava de novo, o crescimento tinha deixado de ser palavra pecaminosa no léxico de um Passos Coelho assustado com as consequências da sua overdose de austeridade, era elogiado pelo clube de fãs dos jornalistas económicos, era o exemplo de sucesso dos paspalhos da troika e até o Durão Barroso já sonhava numa reforma tranquila a viver à custa dos contribuintes no Palácio de Belém.
  
Era um milagre digno do Jesus de Belém e tão alcançável para políticos comum como o é uma taça europeia para o Jesus de Benfica. O país exportava que se fartava e só podia ser a versão moderna do milagre dos peixes, Passos asfixiou a economia e quando todos receavam a fome disse-lhes “atirem a rede e encham-na de exportações”. Os humildes pescadores assim fizeram e do nada surgiram compradores estrangeiros por todo o lado. O milagre era tão grande que se exportava e nem se sentia nada nas importação ou na criação de emprego, Portugal exportava e não precisava nem de mais trabalhadores, nem de importar matérias-primas.
  
De repente tudo mudou e o milagre deixou de ser os dos peixes e passou a ser o de andar em cima da água, aos primeiros sinais de afundanço ouve-se Jesus dizer “Ó Pedro ensina a esse palerma o caminho das pedras!”. Afinal o milagre não passava de um truque estatístico e os que diziam que resultava do aumento de algumas exportações de produtos refinados tinham razão, ainda que a santinha da Horta Seca na ocasião se tenha fartado de apresentar provas estatística no parlamento, reivindicando o milagre.
  
Mais recentemente o país assistiu a outro milagres de multiplicação do dinheiro, quando as notícias do clube de fãs de Passos Coelho avisavam para uma redução dos reembolsos do IRS eis que somos surpreendidos por euromilhões miniaturas na conta bancária graças à generosidade de ministra das Finanças nos reembolsos do IRS, um festim mesmo em véspera de eleições europeias. O governo aumentou brutalmente os impostos e como se isso não bastasse falsificou as tabelas de retenção na fonte para extorquir um adicional de receitas de IRS, com as quais exibiu grandiosos resultados na execução orçamental ao longo de 2013. Agora vai devolve mais de mil euros a cada eleitor e ajeita as contas indo ao mercado pedir um empréstimo de mil milhões com um prazo de um ano. Isto é, o governo extorquiu dinheiro aos portugueses, teve sucesso nas receitas fiscais, anestesiou-os com um falso bónus e deixou a conta para pagar a quem governar daqui a um ano.
  
Afinal, não estamos perante nenhum milagre mas sim a assistir a truques de feira mal feitos e a nossas santinhas não passam de vulgares santinhas da Ladeira convertidas em caga milhões. 
 
 
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