terça-feira, janeiro 27, 2015

Austeridade versus crescimento?

O debate da política económica está centrado naquilo que cada grupo defende ser a única solução, de um lado estão os defensores daquilo a que se tornou comum designar por “austeridade”, do outro estão os que defendem o aumento da despesa como meio de estimular o crescimento. Os primeiros acreditam que espoliando os pobre e a classe média transferindo os recursos para os mais ricos promovem o crescimento e que salários baixos estimularão o emprego. Os segundo acreditam que salários mais altos e mais consumo estimulam a procura, daí resultando o crescimento.
  
O crescimento defendido pelos primeiros resulta essencialmente da exportação de produtos sem grande valor acrescentado, produzidos em sectores de mão de obra intensiva. Daí a desvalorização da importância do ensino e das universidades, a sugestão aos mais qualificados que emigrem e a redução do Estado Social aos mínimos suportados por um modelo económico e social que gera poucos recursos, para além de se considerarem estes recursos como sendo mal empregues quando investido em pobres.
  
O crescimento defendido pelos segundos é estimulado pelo consumo, gerando desequilíbrios externos e sem haver garantias de que haja investimento em sectores produtivos. É o modelo adoptado nas últimas décadas, com a economia a gerar grupos que apostam no consumo, ao mesmo tempo que a as empresas industriais deslocalizaram as suas instalações. O país tem muitas empresas como a Sonae ou o Pingo Doce que estão especializadas em consumo, e cada vez menos empresas industriais.
  
Duvido que a solução da economia portuguesa esteja entre estas duas alternativas, os primeiros disfarçam um Estado gastador e ineficiente atrás de cortes salariais e perdas contínuas por parte dos funcionários públicos para estimular um crescimento que produz pouca riqueza e que apenas subsiste graças ao aumento das diferenças sociais. O crescimento resultante das políticas dos segundo não geram equilíbrios internos, não asseguram um crescimento sustentado e torna o país muito vulnerável ao impacto das crises internacionais, como sucedeu em 2008.
  
Um país sem recursos naturais, a não ser o (muito líricos) recursos do mar não sobrevive se não for austero e isso significa gastar de forma eficiente e de forma criteriosa. Aquilo a que designam em Portugal por austeridade não passou de incompetência, o Estado continua a gastar mal mas essa realidade é iludida com cortes de vencimentos e aumentos brutais da carga fiscal, disfarçada por um suposto sucesso no combate à evasão fiscal.
  
O problema não está entre austeridade e crescimento, está entre competência e incompetência, entre canalhice e justiça social, entre despesismo fácil e rigor. Portugal não precisa desta austeridade cega, maldosa e incompetente, mas não tem recursos que permitam ao Estado não ser austero, competente e muito criterioso nas suas escolhas. A austeridade não é ser rigoroso, austero, criterioso e inteligente e nem todo o crescimento gera equilíbrios, criação de bom emprego, investimento e justiça social.

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