quarta-feira, novembro 06, 2013

Portugueses de segunda?

Costuma dizer-se que o Presidente da República todos os portugueses, que os portugueses estão representados no parlamento e que todos estão preocupados com o futuro do país. Assim sendo não se entende a insistência de Cavaco Silva em excluir muitos portugueses, para além de considerar que um pequeno partido no governo deve ter uma consideração e valorização que não é dada a outros pequenos partidos que estão na oposição.
 
Ultimamente é moda falar-se no arco da governação, um truque que é utilizado para excluir do debate do país os partidos ou correntes de pensamento que por serem excluídos ou por não deterem maiorias parlamentares não participam no governo. Desta forma subtil subverte-se a democracia, em vez de ser o governo a depender do parlamento passa a ser o parlamento a ser dividido em duas partes, uma parte que conta porque escolhe governos e uma parte que não conta porque não participa nos governos.
 
O grande mentor desta exclusão de uma boa parte dos portugueses é Cavaco Silva, um homem que há muito tem um conceito de democracia muito estranho. Agora convoca uma parte dos partidos para longe do parlamento, no segredo dos deuses e sob a tutela dos seus controleiros para decidirem o futuro do país em cenários de longo prazo sem qualquer consulta ao país. Pior ainda, condiciona o exercício da democracia à limitação de qualquer debate público, se houver um acordo secreto a legislatura pode ser interrompida para promover eleições onde se discutirão coisas secundárias como, por exemplo, o número de cães e gatos que podem viver num apartamento.
  
Cavaco sempre revelou uma grande dificuldade em ver o país ou o povo como um todo, nunca aceitou muito bem o exercício das atribuições das instituições que asseguram que todo o país e todo o povo sejam respeitados. Quando era primeiro-ministro tratava as instituições da República que velavam pela democracia como forças de obstrução, as regiões onde o seu partido não tinha vitórias eleitorais eram condenadas à pobreza.
 
Governar para os que votam nos partidos no poder ou considerar que só os que podem ser poder têm o direito de discutir os problemas dos portugueses é a mesma coisa que considerar que há portugueses de segunda, uma casta de gente inferior cuja opinião não conta e cujos deputados não passarão de palhaços, aliás, quando tudo se decide em reuniões secretas tuteladas pelo presidente é o próprio parlamento que se transforma num circo.
 

O argumento do arco do poder apenas serve para que um partido que não representa quase ninguém detenha as pastas mais importantes do governo ou para que um regime semi presidencialista se transforme num presidencialismo caudilhista onde os debates são vigiados por tutores designados por Belém.



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