quarta-feira, julho 05, 2017

Um dia difícil


Em Estrasburgo o presidente da Comissão Europeia indigna-se porque dirige-se a um hemiciclo literalmente vazio, os eurodeputados acharam que tinha tarefas mais importantes para fazer. Perante a curiosidade dos nossos jornalistas cada partido mandou um dos seus deputados dizer aos jornalistas que estavam fazendo coisas demasiado importantes.

As vítimas de Pedrógão podem estar descansadas porque mais dias menos dia vão deixar de receber roupas velhas em sacos pretos para lixo e começarão a receber resmas de notas de 500 euros, tudo graças ao empenho dos nossos deputados. Em vez de estarem a ouvir Jean Claude Juncker estavam fazendo coisas bem mais importantes, quase todos estavam vendo o que se podia fazer para ajudar as vítimas dos incêndios.

A ex-candidata presidencial do Bloco de Esquerda foi a mais rigorosa no discurso. Estava defendendo os portugueses e o que estava fazendo era bem mais importante para Portugal do que estar a ouvir o presidente da Comissão sem poder intervir. Ficámos a saber que os deputados só fazem alguma coisa pelo país, em São Bento ou em Estrasburgo se falarem. Concordo, o traseiro da deputada é bem mais valioso quando pode falar do que quando pode estar calada e por isso seria mal empregado no parlamento para o qual pediu votos para ser eleita.

Por cá uns quantos oficiais que por estarem na peluda pouco mais usam do que pijama e a faca e o garfo encheram-se de brio e organizaram uma manifestação. Mas em vez de irem de pijama e depor a faca e o garfo, prometeram ir de farda de gala e depor as espadas. De caminho puxaram dos galões e deram um raspanete aos deputados e aos democratas, chamando a si o estatuto da defesa dos bons valores, coisa que como se sabe se aprende melhor nos pupilos e nas academias do que nas escolas da populaça sem farda.

Mas o diabo deve andar mesmo por estas paradas e no mesmo dia em que os briosos oficiais iam depor as espadas devidamente limpas e a brilhar, noutros quarteis alguns oficiais foram detidos por suspeitas de roubarem nas messes. Ao que parece a tropa entremeada e os senhores oficiais recebiam a diferença entre o preço da entremeada e o do bife do lombo. Enfim, no mesmo dia em que alguns militares com tiques doutros tempos berravam "Quando é que temos uma classe política com verdadeiro sentido de serviço público?", os portugueses ficaram a conhecer o que eles entendem por serviço público.
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