terça-feira, dezembro 17, 2013

Activismo Político

Uma das expressões mais queridas deste regime em que vivemos é o agora muito badalado “activismo político”, todos os que critiquem ou funcionem como obstáculos à acção governativa são acusados de praticar o activismo político. Alguém se lembrou de usar esta expressão para sugerir que o direito constitucional é algo mais próximo da biologia molecular do que da ciência política. Como é costume em Portugal toda a direita aproveitou o chavão.
 
A expressão activismo político tem sido usada como se a política fosse uma coisa e o funcionamento das instituições fosse outra, sugere uma actividade improdutiva, inimiga do progresso, faz lembrar um pouco um senhor que em tempos falava de força de obstrução e reagia dizendo "deixem-nos trabalhar". Aliás, alguns membros do governo já têm tentado distinguir os portugueses entre trabalhadores, o governo e os que o apoiam, e preguiçosos, todos os que criticam o governo.
 
Este tique da direita não tem nada de novo e nestes últimos anos o país tem-se limitado a ir buscar a inspiração ao passado. Tal como no tempo do salazarismo o exercício da actividade política está reservado aos políticos, entendendo-se por político aquele que é eleito para deputado ou qualquer outro cargo elegível, bem como todos os que exercendo funções públicas merecem a confiança da maioria parlamentar. A política é para estes políticos e todos os outros limitam-se a praticar o activismo político, uma actividade perturbadora do progresso.
  
Todos os que não são eleitos devem ignorar as suas opiniões, competências ou deveres e guiar-se por aquilo que o governo define como a única política possível, que em Belém assume a forma de superior interesse da nação. Se tudo o que o governo decide consta do memorando, foi imposto pela troika oué a única medida política possível e se Cavaco considera que adoptar essa política vai de encontro ao que é o superior interesse da nação o exercício da política deixa de fazer sentido.
 
O bom português, seja maquinista do Metro de Lisboa ou juiz do Tribunal Constitucional deve respeitar políticos que adoptam as políticas que defendem o superior interesse da nação. Discordar, protestar, declarar medidas inconstitucionais, tudo isso é puro activismo político, um comportamento condenável, praticado por pessoas de índole duvidosa, inimigos do progresso nacional, adversários do regresso de Portugal ao mercado.

A todos os que não estão autorizados a identificar os superiores interesses da nação ou a adoptar e executar as políticas deles decorrentes resta fazer o que defendeu Paulo Portas, se as suas opiniões divergem das do governo devem calá-las e esperar pacientemente que termine a legislatura, nessa ocasião é provável que se realizem eleições e então cada um pode dizer o que pensa de forma sintética, colocando uma cruz num quadradinho.

Antes e depois das eleições a política a política está reservada aos políticos eleitos, nada de Aulas Magnas, de manifestações e muito menos de qualquer gesto que cheire a violência ou aquilo que Portas, Passos ou Cavaco definirem como incentivo à violência. Do activismo à perturbação da paz social é um passo.
  



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