quinta-feira, março 27, 2014

A culpa, a condenação e a expiação

Quando se pensa que o mundo evolui eis que somos surpreendidos com os valores ideológicos de jovens políticos, quando pensamos que certas ideologias estão escondidas em sacristias de aldeia eis que motivam a actuação de governantes, quando pensamos que estes frigoríficos ideológicos se abrem apenas em países como a Polónia ou a Ucrânia eis que chegam ao poder em Portugal.
  
Se tentarmos identificar traços ideológicos em Passos Coelho sentimos a tentação de dizer que não existem e o seu pensamento resulta de se sentar em cima de livros sobre Salazar. Mas Passos Coelho tem dois comportamentos que Salazar não tinha, não se movia pelos valores mais retrógrados do catolicismo nem via o país com a distância de quem não se sente um cidadão desse país.
  
Todo o discurso ideológico de Passos Coelho assenta na culpa, na condenação eterna e na expiação dos pecados, não estamos apenas perante meros valores, estes princípios estão presentes em todos os discursos do primeiro-ministro e não se limitam apenas a condicionar as opções das medidas que adopta para a economia, a sua política económica não assenta em princípios ou fundamentos de teorias económica, assenta em valores religiosos, é determinada por aqueles três conceitos, a culpa, a condenação e a expiação.

Compare-se, por exemplo, a perseguição que o cristianismo e, em particular, o catolicismo moveu contra o povo judeu com a forma como o PSD considera os funcionários públicos. Os judeus eram culpados e condenados para a eternidade por terem morto Jesus, precisamente os judeus elogiados por terem sido perseguidos pelos romanos, os mesmos judeus que promoveram o cristianismo. Também os funcionários públicos não valem pelo que são mas sim porque são despesa pública, não são médicos ou engenheiros, são impostos e despesa, não salvam ou protegem vidas, destroem e corrompem a sociedade. Por isso os funcionários devem pagar, devem ser tatuados e marcados, devem ser condenados e todas as penas que se lhe aplicarem são para toda a posterioridade.
  
Assim como os padres mais retrógrados condenam todo o seu rebanho por serem pecadores, as mulheres por serem a fonte de todos os pecados, também este governo condena todo o povo pelo pecado da gula, pelos excessos do consumo, e trata os pensionistas como o exemplo de todos os pecados, os pensionistas estão para Passos Coelho como a prostituta estava para o padre medieval.
  
Como era de esperar os acólitos seguem os valores ideológicos do chefe e se forem gente fraca de cabeça, gente com complexos por serem coxos ou pequeninos, gente que no passado incomodou o chefe, são agora mais extremistas e chamam a si o papel de inquisidores. Quando as opções políticas ou económicas são tratadas como um pecado mortal que deve ser espiado, não admira que surjam santas inquisições. Não se discutem ideias ou propostas, as ideias do chefe são dogmas invioláveis e quem os viola merece a condenação eterna e são pecadores que não merecem qualquer consideração.
  
Enquanto Passos persegue um país que na opinião de quem se sente eternamente em África e o vê à distância deve ser condenado para daí resultar a purificação, os seus acólitos devem prometer a impunidade e a condenação de todos os pecadores. Enquanto Passos lidera este movimento religioso os seus fieis mais subservientes, como é o caso de Paulo Rangel, querem assegurar que estarão na primeira fila dos que entrarão no céu e chamam a si a pesada tarefa de fazer o trabalho sujo da nova santa inquisição, apontando e denunciando publicamente os culpados.
 
 

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