segunda-feira, março 17, 2014

Tudo isto é muito feio, triste e pouco digno

Saneamentos à parte, o que mais impressionou em todo este processo da exoneração dos consultores de Cavaco Silva é que permitiu saber quer da relação entre o primeiro-ministro e o presidente, quer da forma como este trata as personalidades que o serviram. Ficou mais do que evidente a falta de sentido de dignidade das instituições do Estado por parte daquelas duas personalidades.
  
De um primeiro-ministro de uma democracia espera-se respeito pelas opiniões diferentes da sua e neste caso do manifesto da reestruturação da dívida percebeu-se que Passos Coelho não gostou de ter ouvido o óbvio. A forma como os seus “pitbulls” morderam em todos os que assinaram o manifesto, tentando desvaloriza-los intelectualmente, passando uma imagem de criminosos ou de gente que não é patriota é um tipo de argumentação mais típica dos ditadores do que dos democratas. Os democratas discutem ideias, os ditadores eliminam os adversários para que as suas ideias não sejam questionadas.
  
Se os consultores de Cavaco Silva tivessem conspirado contra a democracia, lançado dúvidas sobre os métodos usados por um primeiro-ministro no seu relacionamento com a presidência, ou encomendado notícias falsas a um jornal, compreender-se-ia que fossem exonerados na hora como sucedeu. Mas esse foi o comportamento de Fernando Lima e esta personagem foi mantida e até promovida por Cavaco Silva. O que os consultores de Cavaco, duas personalidades inquestionáveis no plano profissional, político e deontológico foi expressarem opiniões legítimas, num espaço reservado ao exercício dos direitos de cidadania e em conformidade com muito do que Cavaco tem escrito e dito em público. 
  
Cavaco não exonerou Fernando Lima que deveria não só ter sido demitido como ter sido acusado criminalmente, mas exonerou os seus consultores e de forma aparentemente pouco digna. Poucas horas depois da notícia de que dois assessores de Cavaco tinham assinado o manifesto já tinha chegado a notícia de que tinham sido exonerados, algumas horas depois alguém corrigiu a notícia inicial e fez passar a mensagem de que os consultores teriam pedido a exoneração. Isto é, primeiro faz-se passar a mensagem de firmeza de Cavaco Silva, mas quando alguém se apercebeu do que representava demitir pessoas que apenas exerceram um direito e que em grande parte apenas diziam o que Cavaco sempre disse, esse mesmo alguém se lembrou de proteger a imagem de Cavaco e daí a correcção da notícia inicial. Desta forma não só se exonerou como se revelou pouca dignidade por quem não se respeitou.
  
Como se tudo isto não bastasse foi notícia que a exoneração dos dois consultores foi feita a pedido ou em resultado da pressão do primeiro-ministro sobre Cavaco Silva. O país ficou a saber que Cavaco só pode ter assessores que concordem com as opiniões do governo e do seu primeiro-ministro. Isto é, se é para Cavaco ouvir o que o primeiro-ministro tem a dizer ou que acha que o presidente deve dizer, então não faz sentido contratar consultores. Quando Cavaco quiser formular uma opinião e ainda não sabe o que tem a dizer pode muito bem pedir uma chamada para o chefe de gabinete de Passos Coelho que muito depressa receberá um papelinho com o que é conveniente que seja dito.
  
Tudo isto é pouco digno de uma democracia e mesmo em ditaduras com gente inteligente as coisas teriam sido feitas com mais cuidado. Tudo isto é pouco digno e revela que a política portuguesa começa a evidenciar tiques próprios das segundas figuras do regime de Salazar. O velho ditador assumia o que era mas era bem mais inteligente e cuidadoso nos seus golpes baixos do que os seus sucessores.


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