sábado, janeiro 24, 2015

Moeda, trocos, trocas e cambalhotas

Eu ainda sou do tempo em que a direita, partidos, governo e família Silva  acusavam os menos ricos da culpa da gula e de todos os males que sucediam a Portugal, afirmavam a sua crença nos mercados com o mesmo fundamentalismo que os jihadistas do Estado Islâmico berram Allahu Akbar enquanto dispara sobre tudo o que mexe. Apoiado no imã Vítor Gaspar o ainda primeiro-ministro sempre foi um fundamentalista na recusa de qualquer intervenção do BCE.
  
Durante três anos todos os sectores da direita, de Passos a tudo quanto é comentador encostaram António José Seguro exigindo-lhe antes de manifestar qualquer outra opinião, como iria diminuir a dívida. Em Portugal perdeu-se o direito a opinar sobre o que quer que fosse a não ser que se defendesse uma solução para a dívida, enquanto se defendia que essa solução passava por austeridade e pelo seu pagamento. Durante três anos Seguro foi ridicularizado por toda esta direita sempre que defendia que a solução da dívida e o crescimento passava por medidas europeias.
  
Agora que perceberam o falhanço e que a economia portuguesa está à beira do desastre essa gente ultrapassa tudo e todos pela direita para apoiar a intervenção do BCE, primeiro apoiaram a compra de dívida no mercado secundário, agora são apoiantes convictos da emissão de papel moeda para ser injectado na economia através da aquisição de dívida soberana. Até Passos Coelho que excomungava todo aquele que sugerisse tis medidas aparece agora a fazer –se de parvo para dizer que sempre apoiou estas medidas.
  
Mas eu também sou do tempo em que Seguro era acusado de não fazer oposição, recordo-me de que não foi apenas a direita a desvalorizá-lo por se refugiar em soluções que passavam pela intervenção do BCE. Recordo-me também de quando não alinhou com o lançamento de uma candidatura presidencial  de António Guterres por um António Costa que se colava ao antigo líder do PS. 
  
Compare-se a oposição que Seguro fazia com  a que António Costa tem feito em matérias como a barracada do Citius, as mortes de gente abandonada nas urgências, só para dar dois exemplos em que António Costa tem feito menos oposição do que muitos militantes do PSD. E em matéria de candidaturas presidências o espectáculo ainda vai a meio, Costa não só lançou a candidatura de António Vitorino ao mesmo tempo em que empresta a sua pessoa a iniciativas que mais parecem uma pré-campanha presidencial de Rui Rio.
  
Seguro foi queimado vivo por uma suposta aproximação ao PSD, precisamente aquilo que António Costa tem feito ultimamente, mas com uma pequena diferença. Enquanto dantes a aproximação era apenas ao nível das políticas governamentais, agora já se fala abertamente em acordos e até se fica com a impressão de que António Costa quer ser o primeiro nome da lista de honra de uma candidatura presidencial de Rui Rio.
  
E como se tudo isto fosse pouco e não bastasse aos trabalhadores do Estado os cortes e ofensas de que já foram alvo nestes três anos, vem António Costa com piadolas de mau gosto sobre ministros que ficam prisioneiros de directores-.gerais, chefes de departamento (coisa que não existe no Estado e Costa devia saber pois já teve a pasta da Administração Pública) e chefes de divisão. Esses malandros dos funcionários não só ganham muito e trabalham pouco como ainda tramam as virgens ministeriais, fazendo-as reféns para que não ponham em causa os seus interesses mafiosos. Esta coisa de andar mal acompanhado tem destas consequências.
  
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