sexta-feira, agosto 08, 2014

Umas no cravo e outras na ferradura



   Foto Jumento


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Graffiti, Lisboa
  
 Jumento do dia
    
Carlos Costa

Carlos Costa começa a lembrar o Avô Cantigas, tantas são as musiquinhas de embalar. A última foi a de que só começou a tratar da solução do BES depois do fecho dos mercados na sexta-feira, afastando dessa forma qualquer hipótese de a solução ter chegado ao conhecimento de alguém que pudesse beneficiar disso na bolsa. Além disso a escolha da hora, o Avô Cantigas começou a maratona depois do jantar, já com o estômago devidamente aconchegado.

Enfim, ainda vamos ver o sôr Costa a fazer de Pai Natal num centro comercial de Lisboa.

«Questionado se informou a CMVM sobre o futuro do banco, que poderia ter evitado a forte queda em Bolsa nos dois dias anteriores, Carlos Costa disse que "a decisão de avançar com a medida foi tomada na sexta-feira após o fecho do mercado, depois de termos chamado os responsáveis do banco. Na segunda tínhamos um deadline e para a qual tínhamos de encontrar uma solução. Prova disso é que o BCE foi mobilizado. A CMVM, o BdP e o ISP reuniram antes para avaliar vários cenários mas tínhamos a expectativa na recapitalização privada. Mas os prejuízos, incertezas e a necessidade de dois meses para realizar a operação, determinou a intervenção rápida".» [DN]

 Uma pergunta ao sôr Carlos Costa

Em que dia, a que horas e como é que no sábado Marques Mendes já sabia e foi autorizado a comunicar ao país a decisão adoptada para o BES? Sou antes ou depois do fecho do mercado e foi o governo ou o BdP que o informou?
  
 Alguém me explica?

A troco de menos do que foi investido no BES o BCP teve de vender negócios e cortar na massa salarial, enquanto o BPI reduziu balcões e empregado e ao BES nada se exigiu? A Troika e a Miss Luís andam uma simpatia.

 Sugestão

Consultem o currículo académico e profissional do governador do Banco de Portugal e depois digam-me se lhe aturavam uma lição de política económica. Quase me dá vontade de rir quando vejo muita gente valorizar a opinião deste senhor. Aliás, somando os ministros todos não se conseguia dar todo o programa de uma cadeira de política económica.
  
 Dúvida

Não estará na hora de exigir a Cavaco Silva que apresente uma prova de vida só para saber se Portugal ainda tem um titular do cargo de presidente desta coisa toda? Bem, se o país sobreviveu ao dono disto tudo também sobrevive ao desaparecimento disto tudo.
  
      
 O que sabe Mendes?
   
«Na noite de sábado, algures de férias, Marques Mendes falou em nome do Governo, sem comprometer o Governo mas com acesso íntimo ao Governo, e explicou o que iria acontecer ao BES nos dias seguintes. Tudo muito bonito, muito limpinho e asseadinho, muito bom para todos nós, os contribuintes escalfados pelos impostos. Tudo supimpa para o Governo, que falou sem falar, disse sem dizer.

Afinal, há coisas que ainda correm bem. O comentador acertou em quase tudo. Ou melhor: leu todas as leis sobre recapitalizações - disse ele, "li a legislação recente e com um ano, dois anos"; e a aprovada de escantilhão, na véspera, leu? -, cruzou a informação obtida junto "de várias pessoas" (que judicioso) apurou os factos e nós, aqui nos jornais, de boca a aberta a mudar textos, a voltar a falar com as mesmas fontes e outras também.
  
Que maravilha. Não vale a pena pagar uma redação, jornalistas, revisores, salários, livros de estilo, maçadas, cenas. Marques Mendes, algures neste nosso deserto informativo, faz o serviço completo, et voilà: comentador, repórter, porta-voz ministerial, fonte das instituições que convém no momento em que convém. Mas também popular, popularucho, próximo - vê-se que é um homem que sabe falar às pessoas -, indignado, irado quando tem de ser. Os acionistas do BES são "uma espécie de lixo", disse ele, juntando-se à multidão que quando vê acionistas imagina nababos. Depois da Via Verde, aqui está outra patente lusitana a registar: uma mistura de jornal popular com páginas de referência, embora em carne e osso, gravata a condizer, acesso ao prime time. Prever é difícil, especialmente o futuro, mas Marques Mendes não prevê, ele acerta, ele sabe o que deve ser sabido. É um market mover, o mercado mexe-se, cai ou sobe, quando ele debita.

Cá está a inveja do jornalista (a minha) a roer-se do fim do monopólio da informação e do seu relato desejavelmente equilibrado e comprometido com a procura da verdade. Os jornalistas estão hoje como aqueles amoladores de facas e tesouras que às vezes, num domingo soalheiro, ainda ouvimos passar pela rua lá em baixo a soprar naquela gaita de beiços só deles. Espreitamos à janela, ali vai ele, o amolador, excêntrico e solitário, naquele passo rumo ao fim, o beco sem saída; e nós, os consumidores, só pensamos que as facas já as trocámos no IKEA, é mais rápido, um clique, e que o guarda-chuva não merece a despesa nem o trabalho.

Mendes é isso, é o IKEA da informação. Ele apura, alvitra, promove, posiciona, limpa. É expedito. "Este dinheiro - disse ele sobre os 4,4 mil milhões que os contribuintes acabam de emprestar ao Fundo de Resolução - não vem do Estado, (...) não é dinheiro público." Que beleza, que rigor, que modelo de negócio: a cama do poder mudou-se para o quarto poder. É uma sinergia muito económica e que nunca repousa. Marques Mendes... algures... a partir do deserto jornalístico. Et voilà.» [DN]
   
Autor:

André Macedo.
       
 Não há nada que o tempo não resolava
   
«É a mais antiga universidade romana, foi fundada em 1303 e tem o mais belo dos nomes para a função que pratica, La Sapienza, A Sabedoria. No mês passado, mas só ontem se soube, convidou o mais improvável especialista para participar numa aula de criminologia: o capitão Francesco Schettino. Ele falou aos alunos sobre "gestão do controlo de pânico numa situação de crise". O capitão Schettino, lembram-se? O comandante do navio de cruzeiro Costa Concordia que em janeiro de 2012 naufragou nas rochas da ilha de Giglio, na Toscana. Ele foi dos primeiros a pôr-se a salvo enquanto centenas de passageiros permaneciam no navio sem que lhes gerissem o controlo do pânico. Morreram 32 descontrolados. Itália - um país que tem milhares de boas razões para nos ser simpático e mais esta: dá--nos o péssimo conforto de não estarmos sozinhos na produção de noticiários absurdos (olá, ministro Pires de Lima, bela frase a sua, ontem: "Acontecimentos no BES são inexplicáveis") -, a Itália, pois, ficou em estado de choque com mais este disparate. O jornal Corriere della Sera fazia esta comparação: "É como se o Drácula desse uma aula sobre anemia." Atenção, La Sapienza tem uma desculpa para o seu despropósito: o naufrágio já tem dois anos. Ninguém nos garante que daqui a dois anos Ricardo Salgado não volte a dar uma aula magna sobre a vida dos portugueses acima das suas posses.» [DN]
   
Autor:

Ferreira Fernandes.
       
 O pior dos pesadelos
   
«Já ninguém está preocupado com a família Espírito Santo e poucos são os que se preocupam com o Governo, os partidos que o apoiam e o regulador. A todos podemos substituir, mas a pancada que volta a sobrar para os portugueses vai doer muito mais do que é possível imaginar.

Esses portugueses são pequenos accionistas, trabalhadores de empresas que acabarão por falir, que dependem de um sistema bancário que passa de bestial a besta e de uma economia que dava sinais de recuperação e que ameaça entrar novamente em depressão. Por muito que a elite pense que sim, a necessidade de o Estado intervir para salvar um banco que julgávamos salvo não é o problema maior.

Este país não tem solução enquanto todos os poderes pactuarem com um sistema que favorece o enriquecimento ilícito, que julga na praça pública por ser incapaz de fazer justiça nos tribunais, que despreza a competência e aplaude o amiguísmo, que se mostra totalmente incapaz de promover a igualdade de oportunidades. Um sistema que recicla os donos disto tudo mas apenas para substituir uns pelos outros.

O capitalismo sem ética, a que aludiu o Papa Francisco como uma das principais chagas do mundo moderno, é que nos tem arrastado de desgraça em desgraça. Agora, que começávamos a pôr a cabeça fora de água, aproximando as nossas despesas das nossas receitas, podemos ter de começar todo o calvário de novo. O pior é que muita gente, muita gente mesmo, não tem como aguentar nova tragédia que obrigue o Governo a cobrar mais impostos, a banca a reter capital e as empresas a despedir.

Tudo isto é mau, muito mau mesmo, mas ainda não é o pior dos pesadelos. Imaginem que Ricardo Salgado, tocado pelas santas palavras do Bispo de Roma, resolve redimir-se do seu capital pecado e confessar o carácter diabólico que presidiu às suas relações nas últimas décadas. É que não há banco do regime sem regime, nem regime sem titulares do poder, nem corruptores sem corruptos. Nós sabemos como, entre as migalhas e os grandes banquetes, muita gente comeu à mesa do último banqueiro.

Se ele se confessa, o colapso que se abateu sobre a família Espírito Santo será de repercussões bem maiores, envolvendo outros banqueiros, empresários que foram apenas testas-de-ferro, milionários de toda a espécie, dezenas ou centenas de políticos, alguns jornalistas e magistrados... Não faço ideia se ficaria pedra sobre pedra e até imagino que esta catarse deixaria mais feridas do que curas, mas, pelo menos, viveríamos na verdade.

Deve ser porque vejo muita gente com medo que Ricardo Salgado conte tudo o que sabe que este pesadelo parece real. Ele, afinal, ainda tem muito poder. A destruição criativa continua nas mãos deste homem.» [DN]
   
Autor:

Paulo Baldaia.

      
 Só agora?
   
«Henrique Granadeiro apresentou esta quinta-feira a sua renúncia a todos os cargos na Portugal Telecom, sabe o Expresso. Deixará, pois, de ser presidente do Conselho de Administração e presidente da Comissão Executiva da empresa portuguesa.

É a consequência direta do escândalo do investimento de 847 milhões de euros da PT em papel comercial do Grupo Espírito Santo, que entretanto entrou em insolvência, gerando fortes prejuízos nos seus credores, incluindo a Portugal Telecom.

Em reunião de Conselho de Administração da empresa, que ocorreu esta quinta-feira, foram apresentadas várias propostas no âmbito do processo. Entre elas inclui-se a decisão do Conselho de Administração de promover uma auditoria específica às relações entre a PT e o BES, para apurar se os procedimentos ocorridos nesta relação foram sempre os corretos e que órgãos ou pessoas estiveram envolvidos nessas relações.» [Expresso]
   
Parecer:

Foi de livre e espontânea vontade ou terá sido empurrado borda fora?
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se.»

 Lá se foi o mercado russo
   
«Em declarações à Lusa, o secretário de Estado da Alimentação e da Investigação Agroalimentar, Nuno Vieira e Brito, sublinhou que a Federação Russa é o 15.º destino das exportações agroalimentares, representando cerca de 50 milhões de euros anuais, pelo que as empresas portuguesas vão ressentir-se das sanções.

"Tendo em conta que a Rússia é um destino importante para as nossas empresas, com certeza tem um impacto relevante para o nosso agroalimentar", reconheceu.

A expectativa de crescimento das exportações para aquela região era de 10% (até maio de 2014 face ao período homólogo), mas o Governo pretende agora ajudar as empresas "a diversificar os mercados", depois de a Rússia ter decretado a proibição de importar produtos alimentares de países europeus e dos Estados Unidos, em resposta às sanções que lhe foram impostas.» [DN]
   
Parecer:

Isto de andarmos armados em galos-da-Índia tem o seu preço.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Sorria-se.»
      
 Foi o salve-se quem puder
   
«Membros dos órgãos de administração e de fiscalização e quadros superiores do Banco Espírito Santo (BES) venderam ações da instituição financeira, nos 12 meses que antecederam a divulgação do prospeto do aumento de capital realizado em junho de 2014, e conseguiram um encaixe total superior a 1,9 milhões de euros. A informação sobre estas operações está incluída na página 84 daquele documento, datado de 20 de maio de 2014, em que se acrescenta que, durante o período considerado, nenhum daqueles altos quadros do banco procedeu a “quaisquer aquisições de ações do BES”.» [Observador]
   
Parecer:

Quem se lixou foram os pequenos accionistas.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Demitam-ses os responsáveis dos reguladores.»
  
   
 O dono da selfie é o macaco
   
«Um fotógrafo inglês está a enfrentar uma batalha legal com a Wikimedia para que a organização retire do seu site uma selfie tirada pela sua máquina. No entanto, conta o The Telegraph, a Wikimedia atribui os direitos de autor ao macaco e recusa retirá-la da sua página.

A Wikimedia, organização norte-americana da qual faz parte a Wikipédia, tem recusado repetidamente os pedidos de um fotógrafo para remover uma das suas imagens do site, dado que não deu permissão para o seu uso.

A organização tem, no entanto, uma opinião diferente e alega que, como foi tirada por um macaco e não pelo queixoso, este não detém os seus direitos de autor, conta o The Telegraph.

David Slater, um fotógrafo inglês da vida selvagem, estava na Indonésia em 2011 quando um macaco se aproximou do seu equipamento, roubou uma câmara e tirou centenas de selfies.

Muitas delas estavam, naturalmente, desfocadas e até dirigidas ao chão mas algumas estavam perfeitas, incluindo uma que deu a Slater os seus ’15 minutos de fama’: um selfie perfeita de um macaco sorridente.

A imagem foi amplamente partilha na internet e o fotografo está agora numa batalha legal com a Wikimedia, depois de a organização decidir adicionar a imagem à sua coleção de imagens disponíveis para partilha sem qualquer custo.» [Notícias ao Minuto]
   
Parecer:

Andam por aí muitos macacos a tirar selfies.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Sorria-se.»
  
   
 Mais cedo do que eu esperava
   
«O presidente do Novo Banco, Vítor Bento, afirmou, nesta quinta-feira à noite, em entrevista à SIC, que terá “de haver um redimensionamento do banco” para uma dimensão inferior à que tinha o BES.

Sublinhando o facto de estar no cargo há poucos dias, Vítor Bento não adiantou pormenores sobre a reestruturação, embora tenha afirmado que admite uma possível venda de activos e que conta ter um plano pronto no prazo de um a três meses. Questionado sobre um possível corte no número de trabalhadores e balcões, o presidente do Novo Banco respondeu ser “provável”.

Em resposta a uma pergunta sobre a diminuição no número de depósitos, Bento garantiu que a maioria dos clientes do BES continua na nova instituição e argumentou que “os depósitos que vão saindo, ou que podem sair numa situação de incerteza, não são impactantes”. 

“Tenho o desafio de tornar [o Novo Banco] rentável, que é um desafio que vai levar o seu tempo”, afirmou ainda.» [Público]
   
Parecer:

O enterro do BES bom começou muito antes do que previ ainda ontem.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Quem disse que a solução protegia os trabalhadores do BES?»
   
 Agora a ovelha negra é cipriota
   
«O governador defendeu que a medida aplicada foi a “melhor” uma vez que nenhuma das outras possível era viável. Disse que o novo presidente do Novo Banco, Vítor Bento, lhe comunicou no passado dia 31 de julho a “impossibilidade de recapitalização privada do banco” e que, por isso, “esgotada a possibilidade de recapitalização privada, por razões de estabilidade financeira, a hipótese de liquidação estaria afastada, só restava a recapitalização pública ou uma medida de resolução”. Como não era possível uma “recapitalização pública em 48 horas” e também não era a opção pretendida, diz Carlos Costa que só restava a medida de resolução aplicada. E como tal, disse mais tarde, foi preferível agir:

“Não fazer nada seria o caos cipriota”.

Na audição que demorou mais de três horas, o governador do Banco de Portugal garantiu que será o sistema financeiro a pagar o empréstimo ao Estado e que não há risco para os contribuintes uma vez que há um “mecanismo automático” que permite fazer a devolução do empréstimo através da comparticipação dos bancos. “Vai permitir amortizar essa dívida que eventualmente subsista”, depois da venda do Novo Banco. Isto se o Novo Banco for vendido a valores inferiores aos 3,9 mil milhões de euros que foi emprestado pelo Estado ao Fundo de Resolução.» [Observador]
   
Parecer:

Pois, mas não lixaram os pequenos accionistas como fez o sôr Costa.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Vomite-se.»
  

   
   
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