terça-feira, dezembro 10, 2013

Combater a impunidade com bufaria cívica

Ou os portugueses têm tão pouca consideração intelectual por alguns ministros que já nem ligam ao que eles dizem, ou esta forma sumária de decidir sem qualquer debate e contando com o apoio militante da caneta do senhor Silva leva a que a ministra da Justiça possa dizer as baboseiras que lhe dá na gana sem se ouvirem grandes vozes de protesto.
  
A propósito de uma qualquer efeméride a ministra da Justiça chamou a si os louros por investigações envolvendo 100 milhões de euros em fraudes fiscais, aproveitando para sugerir aos cidadãos que passem a denunciar os casos de fraude fiscal e corrupção de que tenham conhecimento no pressuposto de que ao fazê-lo estão ajudando as polícias a limpar a nação. Pela forma como o fez até se pode pensar que é um dever de cidadania fazê-lo, um pecado grave.
  
Seguindo esta lógica é também um dever de cidadania denunciar quem tem mais de três gatos ou quem não apanha o cocó do cão por fazer perigar a saúde pública, isto é, trata-se de um dever de cidadania denunciar todos os cidadãos que violem qualquer lei ou regulamento desde que estejam em causa valores superiores como as receitas do Estado, a saúde pública, a moral e os bons costumes, etc., etc.. E se todos os fizermos conseguir-se-á o grande desígnio da ministra, o fim da impunidade.
   
A senhora ministra começou o seu mandato anunciando que tinha chegado o fim da impunidade e só dois anos depois diz como o vai conseguir, pondo ao serviço das polícias vinte milhões de olhos e ouvidos. A senhora ministra não explicou muito bem se além de denunciar o que inadvertidamente viram ou ouviram o cidadão deve ainda armar-se em polícia, mas receio que estando em causa valores o dever de cidadania implique um papel mais pro-activo, palavrão que agora está muito na moda. Isto é, os filhos devem vigiar o pais, os país devem exercer vigilância sobre os vizinhos e por aí adiante, todos somos informadores cívicos e os valores superiores da nação estão acima de qualquer laço de amizade ou de parentesco. Ser um cidadão exemplar implica que se seja ao mesmo tempo bufo e polícia.
  
Talvez a ideia da senhora ministra seja razoável, mas para que tudo corra bem venho sugerir-lhe que faça um teste, que durante uns tempos seja instituído o sistema de bufaria cívica entre os membros do governo, os deputados, os líderes partidários e os líderes das distritais do CDS e do PSD.
  
Se esta gente contasse tudo o que viu  nos seus escritórios de advogados, nas suas empresas, nos corredores escuros dos gabinetes governamentais, na sala dos fundos da sede partidária eliminar-se-ia uma parte bem substância da corrupção e fuga ao fisco. Quando a senhor ministra e os seus pares derem o exemplo de bufaria cívica denunciando-se uns aos outros e autodenunciando-se, então todos nos sentiremos na obrigação de seguir tão bom e genuíno exemplo pondo fim ao que restar da tal impunidade que tanto incomodava a senhora ministra.
  


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