segunda-feira, julho 08, 2013

A loucura foi à missa

O novo patriarca da diocese de Lisboa era certamente um prelado feliz, na sua apresentação ao rebanho da capital contou com uma missa que foi uma verdadeira cerimónia de Estado, há muito que uma igreja portuguesa não mostrava com tanta clareza que há um clero, uma nobreza e um povo, um clero fiel a Roma e ao colégio episcopal, uma nobreza crente e praticante e um povo a aplaudir o poder de forma obediente.
 
Por momentos os protestos desapareceram e foram substituídos pelo amor, o povo aplaudia efusivamente Passos Coelho e Cavaco, coisa que já nem se vê na festa do Pontal. O povo estava unido ao poder sem distinção de classes sociais, com direito a cadeira almofadada o Soares dos Santos aplaudia o poder com a mesma ternura da velhinha do Restelo. O clero tratava das coisas de Deus porque as do povo estão entregues a boas mãos.
 
Quem tivesse assistido à missa pensaria que, de repente, o país tinha regressado aos tempos em que os governantes eram designados por inspiração divina, até o Cavaco Silva parecia um soberano tendo a seu lado uma Dona Maria a querer dar ares de rainha Sofia. Sentadinhos em cadeirões de veludo, o mais parecido com tronos que se arranjou no depósito da dioceses. Mais atrás o monarca deposto mantinha-se firme e hirto junto à sua cadeira de nobre, enquanto ao seu lado a esposa se mantinha prostrada de joelhos, como se tivesse às costas todos os pecados do mundo.
 
O povo, feliz e fiel apoiante da realeza e do clero, aplaudia efusivamente todos todas as formas de poder que tivessem um par de pernas. O povo estava em pé e acotovelava-se no espaço que lhe foi atribuído, aplaudia com os braços esticados para cima. Instalado de forma mais confortável estavam os nobres deste reino cavaquista, o senhor Soares dos Santos aplaudia com ternura os governantes.
 
O país parece ter entrado nos eixos e para ser perfeito só se os Silvas de Boliqueime fosse reconhecidos como monarcas por graça de Deus e Passos Coelho fosse promovido a presidente do conselho de um governo vitalício. Cavaco tem muito mais do que alguma vez Sá Carneiro imaginou, mais do que uma maioria, um presidente e um governo. Um dia destes não só vamos assistir a um conselho de ministros presidido por Cavaco, como veremos a reunião ser antecedida por uma oração dirigida pela dona Maria.
 

Desde o 25 de Abril que o povo não tinha assistido a uma missa de Estado, ainda por cima para celebrar o novo patriarca de Lisboa. Todos rezavam, todos bebiam as palavras do novo bispo, todos tinham um ar feliz, todos foram aplaudidos, todos se uniram em oração. Passos Coelho até teve o cuidado de deixar a esposa em casa, longe vão os tempos em que Sá Carneiro incomodava a Igreja com as suas opções conjugais.
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