sexta-feira, setembro 11, 2015

O vendedor de banha da cobra

Os debates podem não servir para nada, podem terminar empatados, podem não dar resposta aos grandes problemas, podem não esclarecer as dúvidas dos portugueses, podem não ter importância como se desdobraram em explicações muitos comentadores da direita no dia seguinte ao curto-circuito de Passos Coelho no Museu da Electricidade, mas fazem milagres. Quando foi questionado durante o debate sobre o desemprego e sobre a forma como criaria emprego Passos Coelho embatocou.

Mas os seus assessores não devem ter dormido e no dia seguinte já era um novo Passos Coelho, já não deixou a campanha eleitoral ao esganiçado do CDS. Bastou um dia para que Passos encontrasse a solução para o desemprego jovem, anunciou-a num comício, foi num jantar de lombo assado e só não sabemos se a inspiração veio do lombo ou do tinto. A verdade é que Passos sabe como resolver os problemas que ele próprio ajudou a criar e garante que "Sabemos muito bem como é que devemos atacar o desemprego no futuro, como é que devemos apostar na ciência e no conhecimento no futuro, como é que podemos ter uma economia ao mesmo tempo mais azul e mais verde, isto é, mais ligada ao mar e às tecnologias limpas".
  
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Quando não havia maneira de ver os famosos sinais da retoma Durão Barroso, então primeiro-ministro e antes de desertar, também saia como resolver o problema. Organizou uma grande encenação em Óbidos, onde reuniu o Conselho de Ministros inteiramente dedicado à Ciência. Eram mais de 2000 milhões de euros que iam ser investidos e poucos dias depois ate anunciava medidas que iriam levar os quadros que tinham saído a regressar ao país.
  
O problema é que tal pai, tal filo, só se lembram de investir na ciência para enganar o país porque estão em dificuldades. O problema é que no caso de Passos Coelho a mentira é óbvia. Passos Coelho provocou um aumento brutal dos impostos sobre os rendimentos da classe média, ao mesmo tempo que cortava os vencimentos dos quadros do Estado. O objectivo era óbvio, promover a desvalorização fiscal dos nossos melhores quadros e cientistas e ao mesmo tempo empobrecer as universidades, os hospitais e os centros de excelência do Estado.
  
O modelo de desenvolvimento económico de Passos e Gaspar não passava pelo investimento na ciência e daí a desvalorização dos quadros ao ponto de os professores universitários terem sido equiparados financeiramente a serventes de pedreiros e os médicos a empregadas domésticas, com o objectivo de os empurrar para a emigração, como veio a ocorrer.
  
O modelo de Passos e Gaspar é um modelo assente na miséria, nos baixos salários e na ausência de direitos laborais, um modelo em empresas de mão-de-obra intensiva e com baixo perfil tecnológico. Por isso entregaram a pasta da Ciência ao cretino Crato e passaram a defender que o investimento na ciência era uma questão e ainda o ano passado Pires de Lima dizia opor-se "alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real", uma forma de justificar o desinvestimento do Estado na investigação. E acrescentava que "uma boa parte da investigação é financiada por dinheiros públicos e não chega à economia real. Não chega a transformar o conhecimento em resultados concretos que depois beneficiem a sociedade como um todo". E assim que eles pensavam e vão continuar a pensar.

Um dia saberemos se esta política de expulsão dos quadros foi resultado de uma opção ideológica ou uma consequência de uma vingança pessoal de gente que só arranjou emprego nas empresas do padrinho ou que tiram cursos fazendo cadeiras com requerimentos. Para não falar dos problemas psicológicos de Passos em relação a Sócrates que não se perece ser de amor, de ódio ou de inveja, a verdade é que tudo o que o seu antecessor escolheu como bandeiras Passos Coelho destruiu. Passos Coelho destruiu de forma sistemática, do ensino do inglês ao Magalhães, da aposta na ciência às renováveis, do investimento na formação profissional à modernização das escolas, tudo por uma mera questão de ódio pessoal, um ódio que chega a lembrar os extremistas que destruíram Palmira.


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