quarta-feira, janeiro 29, 2014

O Dux do parlamento

Eu sei que o título pode induzir em erro, o ar do líder da JSD faz lembrar aqueles paspalhões com ar de pastores que transportando uma colher de pau conduzem magotes de palermas pela Baixa de Lisboa. A nova vedeta da JSD quase me leva aos vómitos, como gente é tudo o que eu detestaria ser, mas não é isso que me traz aqui.
  
Anda por aí muito boa gente da direita tentando passar a ideia de que há praxes boas e praxes más, que as praxes são uma tradição académica e que os crimes cometidos são abusos. Até há quem considere as praxes uma forma de integração dos novos caloiros, como se umas caras pintadas e umas figuras tristes na Rua Augusta ajudasse a integrar alguém no que quer que seja.
  
A direita gosta muito de tradições e tenta passar os seus valores como sendo universais porque se trata de uma tradição. Parte-se do pressuposto de que a sociedade não deve mudar e que tudo o que é tradição é bom. Neste capítulo Portugal tem umas tradições muito interessantes como bater na mulher, cuspir no chão, etc., etc.. É evidente que ninguém vem defender em público que uns puxões de orelhas na mulher faz bem a qualquer casal, mas puxar as orelhas a toda uma turma e levar alguns à morte já é uma tradição defensável, ainda que o secretário de Estado da Juventude considere que os abusos são condenáveis.
  
Já em matéria de eleições a direita portuguesa revela menos apego, talvez porque as eleições não possam ser consideradas uma tradição tão antiga como as praxes académicas em universidades criadas para enriquecer professores falhados ou rejeitados pelas universidades públicas. Mas, quando as eleições estão ganhas à partida ou servem para lançar confusão e crise já a direita se mostra mais receptiva a pedir a opinião dos portugueses.
  
Veja-se o caso de Cavaco Silva, que se não estivesse no seu segundo mandato poderia muito bem concorrer com Marcelo Rebelo de Sousa ao estatuto de cata-vento definido por Passos Coelho. Para derrubar Sócrates não hesitou em dissolver o parlamento, para transformar o PS na ala liberal do regime até prometeu uma legislatura mais curta como se estivesse a dar um ramo de salsa à vizinha. Depois veio defender que era tempo de Portugal fazer como os país normais e cumprir a legislatura.
  
Não admira, portanto, que o dux da juventude parlamentar se tenha lembrado de propor que se pergunte ao povo a opinião sobre algo a que o parlamento já tinha dado resposta. Só faltou mesmo o dux vir vestido como um cigano viúvo e levar os deputados mais jovens a fazerem figuras de idiotas pelos Passos Perdidos.



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