sexta-feira, março 06, 2015

A direita dos bons valores

A direita portuguesa sempre gostou de se afirmar por valores que considerava seus, a honestidade, o rigor, a cidadania exemplar, o respeito pelas instituições, a afirmação da autoridade do Estado, estes e muito mais eram valores permanentemente afirmados como sendo um exclusivo da direita. Para a esquerda ficava a desobediência, a desonestidade, a falta de rigor, a desagregação do Estado. 
  
Passos Coelho seguiu esta linha e nunca escondeu a sua tendência para seguir alguns tiques de Salazar, também ele foi apresentado como o homem  humilde de Massamá, alguém que teve de trabalhar para viver. O seu discurso foi o da afirmação internacional de um país pobre mas lavadinho, usou a sua página do Facebook para elogiar a pobreza, como sucedeu quando reproduziu a carta de uma tal Isabel Albergaria, que escreveu:

«Tomo banho só uma vez por semana, só acendo uma lâmpada, dispensei a mulher a dias, só saio no carro em casos extremos. Não sei mais onde cortar e o dinheiro não chega. Por favor diga-me o que hei-de fazer para poder continuar a pagar as obrigações ao Estado. »
  
O Estado pagava o que devia, cumpria com as suas obrigações da mesma forma que faz um cidadão exemplar, é por isso que a Isabel Albergaria era apresentada como alguém que já só tomava banho uma vez por semana para “continuar a pagar as obrigações ao Estado”. E quando isso já não bastava pediu ajuda ao primeiro-ministro. A austeridade foi apresentada aos menos ricos como as consequências dos seus abusos, tinha de se pagar o que se consumiu em excesso, a culpa era de um povo que pretendeu viver acima das sua possibilidades.
  
Mas eis que tudo mudou, o incumprimento das obrigações fiscais passou a ser um acto de de insubordinação legítimo contra os abusos da máquina fiscal, mesmo sabendo-se que as dívidas que geraram tanto debate foram feitas no tempo em que os portugueses consumiram acima das suas possibilidades e a máquina fiscal e da Segurança Social pouco ou nada faziam contra a evasão e a fraude.

Os mesmos que há poucos dias elogiavam o fisco porque dava jeito aumentar a carga fiscal que resultou do aumento dos impostos com um adicional resultante da eficácia da máquina fiscal queixam-se agora dos métodos usados para obter resultados tão generosos. São os mesmos que durante muito tempo bajularam o homem do BCP por ter posto o fisco a penhorar tudo e todos e agora insistem que é o melhor ministro do governo, mesmo quando se percebe que para o ser morre-se por abandono nas urgências.
  
De um dia para o outro a máquina fiscal que era tão elogiada passou a ser criminosa, abusadora e incompetente. E os mesmos que aplaudem e justifica a violação do segredo de justiça porque isso lhes convém em tempo eleitoral, armam-se agora em virgens ofendidas porque terá havido violação do sigilo fiscal, um sigilo bem menos nobre do que o dos tribunais, que em muitos países nem sequer existe e que serve apenas para que maus cidadãos possam concorrer aos mais altos cargos do Estado, quando uma empresa que deve um tostão ao Estado fica impedida de lhe vender o que quer que seja.
  
De um dia para o outro a nossa direita esqueceu todos os seus valores e até já aceita que o carro do padre não largue a porta da casa de putas.
 
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