terça-feira, maio 27, 2014

Farinha do mesmo saco

O país teve dois azares, para o governo foi alguém que acha que gerir o Estado é mais ou menos a mesma coisa que gerir uma associação de estudante e como líder da oposição temos outro candidato a liderar uma associação de estudantes. Ao fim de três anos e de duas eleições Passos Coelho não conseguiu ter um único momento de brilhantismo e o mesmo sucedeu com o seu velho amigo.
  
Não admira que os eleitores se abstenham ou que decidam votar no PCP e no Marinho Pinto, por mais evidente que seja a incompetência do primeiro-ministro ou que Seguro não seja muito diferente, a verdade é que os portugueses já perceberam que não é a sua vontade que conta, o que realmente conta nesta democracia é a vontade do aparelho partidário e essa resulta de uma imensa teia de relações mafiosas, em que as fidelidades são compradas com o dinheiro do Estado, o chamado pote.
  
Os militantes do PSD seria loucos se com Passos Coelho a mandar no dinheiro do Estado, da imensidão de concursos públicos, na colocação de assessores, na influência sobre a banca e as grandes empresas viessem agora criticá-lo. Todos sabem que um militante que ouse criticar Passos Coelho, seja um modesto militante ou um comentador candidato a Belém, será condenado a uma travessia do deserto.
  
O mesmo sucede com Seguro, ao longo de anos construiu uma teia de cumplicidades que lhe foi útil para ajudar a direita a derrubar José Sócrates, não é agora que cheia a pote que os que o apoiaram se vão revoltar. Sucede com o PSD e o PS o mesmo que com as ditaduras, na véspera das suas quedas todos são apoiantes incondicionais do poder que os corrompe, no dia seguintes todos têm um longo percurso de opositores, os mesmo que bajulavam os chefes passam a ser os piores críticos.
  
Não votei Marinho Pinto mas percebo perfeitamente aqueles que o fizeram, não votei PCP mas por vezes dou comigo a pensar se essa não será a única alternativa que resta a quem não concorda com esta política. São cada vez mais os portugueses que não encontram qualquer diferença entre Seguro e Passos e depois do que sucedeu durante esta campanha eleitoral serão muitos mais. Seguro e Passos Coelho parecem ter sido separados à nascença, não há diferenças substanciais nos seus projectos e nas sua ideias e se o Moedas passasse para a equipa de Seguro e o Beleza para a de Passos Coelho nem se daria pela diferença.
  
Durante três anos tenho evitado apoiar a direita criticando a oposição, mas sucede que neste momento o maior apoio que pode ser dado à direita é elogiar Seguro. É cada vez mais evidente que Seguro não tem um projecto tão diferente que justifique o voto nele em vez do voto no outro. Um político que num dia pede a inconstitucionalidade de uma medida e que depois diz que a mantém enquanto se manifesta preocupado com os campeões da evasão fiscal não é bem diferente daquilo que já temos.

Seguro e Passos Coelho são aquilo a que se costuma designar como farinha do mesmo saco, têm o mesmo nível intelectual, têm o mesmo percurso tardio, têm as mesmas e pobres carreiras académicas tardias, conquistaram os aparelhos partidários da mesma forma, têm o mesmo programa de governo. Não admira que Cavaco esteja tão empenhado em juntá-los destruindo dessa forma o PS, ou que os eleitores tenham a mesma opinião e os premeiem com a mesma percentagem de votos.
   
Se há coisa que é segura com Seguro é que este líder do PS é uma autêntica apólice de seguro que garante mais cinco anos de poder a Passos Coelho, com esta liderança Cavaco nunca será forçado a convocar eleições antecipadas e a única dúvida em relação às próximas legislativas é saber se Seguro é primeiro-ministro e Passos o seu vice ou se o contrário. Quanto ao programa político já se percebeu que não há grande diferença a não ser no facto de o IVA baixar nas bicas, para alegria dos donos dos restaurantes que manterão o peço. Nesta condições vale a pena votar na "mudança" de que fala Seguro? Duvido.
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