segunda-feira, julho 18, 2016

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do dia
    
Marcelo Rebelo de Sousa

O Presidente da República não resistiu à tentação de surfar no fenómeno da bola e quase transformou Belém na sede da claque oficial da selecção de futebol. Com a vitória do Europeu a pressa em medalhar os jogadores foi tanta que a cerimónia foi feita com certificado já que não houve tempo para preparar as medalhas.

Poucos dias depois os medalhados do atletismo queixaram-se de discriminação nos afectos presidenciais e Marcelo apressou-se a organizar mais uma cerimónia de medalhas, desta vez com medalhas de verdade. E nem deu explicações sobre que tipo de medalhas ou quantas medalhas serviriam para diferenciar os diversos graus da ordem.
 
Agora foi o pessoal do hóquei em patins que já vieram afirmar o seu direito à comenda e é de estranhar que passado um dia desde a vitória no europeu Marcelo ainda não tenha agendado a cerimónia. Por este andar Marcelo ainda vai ter de condecorar o campeão europeu da carica.

      
 O banqueiro do ano
   
«1. José Maria Ricciardi ganhou o título de melhor banqueiro europeu do ano para a World Finance.
O homem que passou praticamente toda a sua vida profissional no Grupo Espírito Santo, que fazia parte de um dos principais ramos de acionistas, que administrava várias empresas, que pertencia ao núcleo central do grupo foi distinguido por uma organização que se autointitula "a voz do mercado". Financeiro, claro está. Não me importava de saber quais terão sido os outros candidatos a este, com certeza, disputadíssimo galardão. Digamos que a notícia carece de explicação. Fez-me, não sei porque, lembrar uns prémios que o ex-presidente da PT Zeinal Bava ganhou.

Fosse o sr. Ricciardi um pirómano e arriscava-se a ganhar o título de bombeiro do ano ou a ganhar o prémio de vegetariano exemplar depois de comer cinquenta quilos de lombo de porco.

Não será preciso recordar quanto todos estamos a pagar pelos excelentes dotes de gestor do cavalheiro. Mas, segundo o próprio, ele nada teve que ver com todos os erros cometidos, pelos eventuais crimes, pelo rasto de destruição criado. Ele não sabia. Apesar de todos os cargos que exercia, de todos os comités em que participava, de todas as assembleias gerais e conselhos de administração em que tinha assento, ele nada percebeu. Só mesmo, mesmo no final é que teve uma epifania. Pronto.

Aliás, não têm faltado entrevistas em que os jornalistas que as fazem quase se comovem com a sinceridade e a bondade do senhor, em que pelas melhores razões, com certeza, não se fala de amnésia, artigos de opinião em que só falta pedir a rápida beatificação do cavalheiro e, claro, apareceram misteriosamente umas gravações que atestam uma irrepreensível conduta. Só faltava mesmo este título. Um cenário perfeito, imaculado, limpo.

Parece mesmo que nos querem fazer acreditar que o homem é um génio financeiro e um justiceiro. Por mim, estou convencido. Talvez um bocadinho distraído, mas tão bom, tão bom, que até teve agora direito ao prémio de melhor banqueiro do ano.

2. Pelo que li, o galardão diz respeito ao seu desempenho na liderança do banco Haitong, ex-BESI (Banco Espírito Santo Investimentos). Desconhecem-se, além de um necessário anterior sono profundo, os critérios que levaram ao prémio. Melhor, foi por ter "fomentado e enraizado a ambição de levar o banco a tornar-se um dos principais bancos globais, com visão de futuro não só na Europa como no mundo". Como? De que forma? Carece de explicação.

Não admira que o sr. Ricciardi seja distinguido por uma organização chamada World Finance. Ele é um vencedor. Atravessou uns pequenos problemas em que esteve e logo reapareceu como presidente de um banco - de que já era presidente.

Esta finança dos nossos dias, a dos bancos de investimento, dos fundos sem rosto, é um ambiente sem memória, sem remorsos e com uma ética, no mínimo, discutível. Um sistema que se tornou um fim em si mesmo. Nada devia ter que ver com aquela com a qual o nosso sistema económico não pode viver. Aquela que serve para apoiar as empresas, a que guarda as economias dos cidadãos, a que lhes empresta dinheiro de forma justa e pensada. Mas essa está sugada e não passa de uma pequena onda num oceano de elaboradíssimos produtos financeiros sem qualquer suporte na economia real. Um mundo de rapazes que vivem em torres de marfim, entre swaps, warrants calls, puts, CDs e mais um nunca acabar de produtos financeiros. Gente que vive num ambiente ficcional e que ignora completamente o mundo cá fora e muito menos a vida do comum dos mortais. Uns muito sérios engravatados que pensam que o mundo se resume aos números que aparecem nos seus ecrãs mágicos. Que não percebem que por trás de um depósito, com que eles jogam numa espécie de roleta, estão famílias, trabalhos esforçados, sonhos, segurança. Que está um empresário que arrisca o seu património, o seu bom nome e o seu esforço.

Tentar encontrar lógica para as subidas e descidas de ações, taxas de juros e afins neste mundo é como acreditar que os búzios adivinham o futuro. É apenas uma máquina que se autoalimenta, que destrói quem a põe em causa e glorifica quem a promove. Se para uma qualquer taxa descer for preciso destruir uns milhares de postos de trabalho ou pôr em causa pensões não há hesitações. Se para ganhar um prémio no fim do ano se destruírem algumas empresas, destroem-se. A ganância é boa, como dizia o Gordon Gekko.

Os mercados que esses novos donos do mundo inventaram, não os da economia real, são soberanos.

Onde estão os responsáveis por todo o dinheiro que agora os contribuintes dos países têm agora de pagar? Pelas falências, pelos postos de trabalho destruídos? Pelos os milhões de pessoas que regressaram à pobreza? É fácil: estão de novo à frente de instituições financeiras ou a gozar os prémios da fabulosa gestão que fizeram e que deu os resultados que deu. Quem pensava que tudo isso estaria acabado com a crise financeira, com a debacle do sistema está muitíssimo enganado. Continua tudo igual.

Há prémios que dizem quase tudo.» [DN]
   
Autor:

Pedro Marques Lopes.
  
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