terça-feira, junho 06, 2017

De Mao à EDP



O título parece ser manhoso e talvez o seja, mas não por se querer estabelecer alguma relação entre o que por aí vai com o fato o dono maioritário da EDP ser a China Popular. O que me inspira o título é um dos momentos mais negros do maoismo que coincidiu com a explosão de alguns movimentos maoistas, cuja expressão mais extremista em Portugal foi o MRPP, a revolução cultural.

Durante a Revolução Cultural fazia-se justiça sumária, os estudantes elegiam os inimigos do povo com base em manobras de propaganda que os apontava coimo culpados de todos os males, de seguida eram exibidos perante o povo. Estas sessões de enxovalho público, sem qualquer direito a defesa transformavam-se em orgias coletivas. Os visados não tinham quaisquer direitos e eram forçados a exibir a sua culpa, em letreiros pendurados ao pescoço. Tudo isto era apoiado por propaganda propalada através dos famosos dazibaos, os jornais de parede.

Este modelo foi transportado para Portugal nos tempos “gloriosos” do MRPP e parece que a sua cultura ficou. Também agora há exibições públicas dos culpados de todos os males. A frustração coletiva aponta para culpados, os tablóides e jornalistas supostamente especializados em temas como a economia, fazem comentários em televisões como a SIC Notícias, onde tecem os seus vereditos.



Daí à exibição pública dos condenados é um pequeno passo, alguém manda uma carta anónima e depois o espetáculo é sempre o mesmo, a destruição moral dos declarados culpados na praz pública, em vez de cartazes ao pescoço produzem-se primeiras páginas em edições sucessivas de dazibaos que agora têm a forma de tabloides, ainda que sejam mais algo como filhosdeputoides. Dantes os professores chineses eram obrigados a ficar em silêncio, a não ser que assumissem as suas culpas em público, agora são obrigados a estar caladois em nome do segredo de justiça e se tiverem alguma coisa a dizer só o podem fazer a um qualquer superjuiz de turno.


Mais de quarenta anos depois parece que o MRPP andas à solta em Lisboa, parece eu os seus valores estiveram fechados, como se de um vírus perigosos se tratasse, agora alguém decidiu abrir o frasco e fazer uma limpeza da sociedade portuguesa usando os métodos aprendidos no passado. Coincidência ou talvez não, muitos dos nossos magistrados seniores andaram na Faculdade de Direito de Lisboa nos tempos do MRPP e das passagens administrativas. O fato é que não raras vezes nos últimos tempos sinto-me transportado para a China de Mao.


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