quinta-feira, junho 22, 2017

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Nuno Serra, deputado desconhecido especialista em incêndios

É preciso alguma imbecilidade para que um político vá visitar as operações de combate aos incêndios com o único objetivo de se aproveitar da presença de jornalistas para questionar a competência ou maturidade de quem está a combater os incêndios. É preciso também ter pouca vergonha na cara,

«deputado do PSD Nuno Serra afirmou esta manhã em Avelar, junto ao posto de comando da Proteção Civil, que viu "alguma descoordenação e desorientação" no processo de combate às chamas no norte do distrito de Leiria.

"Apercebemo-nos do forte empenho de todas as forças da autoridade, forças policiais e bombeiros no terreno, apercebemo-nos da fantástica solidariedade de todos que querem ajudar, mas também vimos algo que nos preocupou: alguma descoordenação ou desorientação neste processo", disse o deputado Nuno Serra, que fez parte de um grupo de deputados social-democratas que esteve hoje a acompanhar a situação no norte do distrito de Leiria, afetado pelo incêndio que começou no sábado, em Pedrógão Grande.

Em declarações aos jornalistas, Nuno Serra não quis apontar responsabilidades, mas assegurou que os deputados do PSD viram "muitas falhas de comunicação e alguma desorientação" na zona do posto de comando.» [Expresso]

      
 Ao especialista instantâneo em incêndios
   
«É solitário não se ser especialista instantâneo em incêndios por estes dias. Eu não sabia que vocês eram tantos na nossa vida: às vezes parece que por detrás de cada telemóvel e de cada teclado, de cada microfone e página de jornal, de cada câmara e em cada estúdio, há um especialista instantâneo em incêndios. A convicção de cada um é grande, as certezas fulminantes. Às vezes gostaria de fazer uma troca: ouvir-vos menos agora para ouvir mais os especialistas não-instantâneos (também conhecidos por "aqueles e aquelas que se deram mesmo ao trabalho de estudar e pensar prolongadamente sobre um determinado tema") durante o resto do ano.

Mas não. Nós sabemos as regras do jogo. A sazonalidade dos fogos determina a dilatação do perímetro de especialistas e a multiplicação dos espécimes opinativos. São eles o preço a pagar por podermos ouvir também os especialistas não-instantâneos (ou, como eu lhes prefiro chamar, "aqueles e aquelas com quem se aprende qualquer coisa") que estão cada vez melhores. Distingo-os à maneira possível aos pobres não-especialistas como eu: aquelas e aqueles com quem se aprende alguma coisa, além de não costumarem aparecer no resto do ano, são menos definitivos nas suas respostas, repetem muitas vezes que "é complicado" (para desespero dos entrevistadores) e têm, em geral, um ângulo ou abordagem que perseguem há anos, metodicamente: sabem que proteção civil não é idêntica a proteção ambiental, que o ângulo da desertificação não é o mesmo das alterações climáticas, que a prevenção e o combate não têm os mesmos princípios nem os mesmos objetivos, etc. Sabem que precisam uns dos outros para avançar no conhecimento e nos resultados.

Já o especialista instantâneo não precisa de mais ninguém. Fala ou escreve como se a sua torrente de opiniões apagasse os fogos. Quem dera. Mas a torrente de opinião muda de rumo todos os dias. No primeiro dia, choque e consternação. No segundo dia, escândalo e indignação. Ao terceiro dia, a sentença: nada vai mudar a não ser para pior, vai continuar a haver incêndios e mortes, o país é uma esterqueira. É aí que estamos agora.

Esta profecia tem a vantagem, para quem a profere, de não poder falhar. E, no entanto, eu acho que, na sua certeza, ela está errada. Porquê? Como não-especialista que sou, procedo por analogia.

Em tempos Portugal tinha altíssimos níveis de sinistralidade rodoviária. Sou suficientemente velho para me lembrar de quando os cintos de segurança se tornaram obrigatórios, de quando os testes de alcoolemia se tornaram banais, de quando as rotundas começaram a pipocar nas vilas e cidades do país. Em cada um destes momentos houve especialistas instantâneos que proclamaram instantaneamente a inutilidade destas e outras medidas semelhantes. Não pensem que exagero: lembro-me de um colunista importante e definitivo que, então nas páginas deste jornal, jurava que continuaria a guiar em excesso de velocidade porque a culpa dos acidentes era dos outros condutores piores do que ele. Mas a verdade é que, por virtude de muitas pequenas boas medidas, a sinistralidade rodoviária em Portugal diminuiu e muito. Fala-se pouco disso hoje: deixámos de ser uma mancha negra nas estatísticas. Desenvolvemo-nos.

Pois bem. Há uma variável na equação dos incêndios em Portugal que nós podemos mudar: desenvolvermo-nos mais. E, contra a torrente opinativa, acredito que queremos mudar essa variável, e que o vamos fazer. Um dia haverá menos fogos incontrolados (sim, apesar das alterações climáticas: é uma questão de nos prepararmos melhor para elas) e muito menos mortes em incêndios em Portugal. Esse dia será devidamente anotado pelas estatísticas e talvez passe no fim de um noticiário, dando um nó na garganta a quem perdeu os seus amados nos fogos e nunca os esquecerá. Sei disto porque os especialistas não-instantâneos (ou, como lhes deveríamos chamar, os especialistas) têm dito muitas coisas sensatas e implementáveis. Quanto aos especialistas instantâneos (ou, para ser preciso, não-especialistas) deveriam talvez ouvir mais. Para não dizer, como é costume deles, que podem sempre ir limpar matas.» [Público]
   
Autor:

Rui Tavares.
      
 Falta de respeito
   
«As mortes do fim de semana, vítimas do incêndio violento, ainda não estão resolvidas na cabeça de muitos moradores de Pedrógão Grande e Castanheira de Pêra, cansados da excessiva cobertura mediática da tragédia.

Em Vila Facaia, Maria, 86 anos, diz que já deu "quatro ou cinco entrevistas". Agora, "deixem-me em paz, que quero chorar a minha vizinha" que morreu, carbonizada, perto da Estrada Nacional 236-1, que todos agora chamam de "estrada da morte".

Não quer falar e refugia-se no xaile negro, à espera que a deixem. O cansaço é evidente, dantes pelo fogo que rondava as casas e agora pelo bulício diário de operadores de proteção civil, assistentes sociais e jornalistas.» [DN]
   
Parecer:
O trabalho dos jornalistas envergonha o jornalismo.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Vomite-se.»
  
 Debater a floresta
   
«O Parlamento sai esta quarta-feira do luto por Pedrógão Grande com uma sessão de homenagem às vítimas e uma certeza: há pressões, do Presidente da República e do Governo, para que os deputados aprovem antes das férias um novo pacote legislativo global com medidas que deem resposta às situações que a tragédia destes dias voltou a evidenciar.

Marcelo Rebelo de Sousa já articulou com António Costa e Ferro Rodrigues que o Parlamento não deve ir de férias sem legislar nesta área. O Presidente quer deixar os diplomas promulgados e o processo vai mesmo ser acelerado.

Terça-feira, no Fórum da TSF, Amândio Torres, secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, confirmou que o Governo quer ter as novas leis aprovadas pelo Parlamento "antes das férias". E o Presidente da República espera um pacote que cubra as várias vertentes em jogo, desde as questões penais às do ordenamento do território. "Sobre tudo, mas tudo é tudo", confirmou o Presidente da República ao Expresso.» [Expresso]
   
Parecer:

É preciso adoptar leis e medidas para corrigir um modelo florestral promovido pela dupla formada por Cavaco Silva e Álvaro Barreto, que se veio a revelar desastroso
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Aprove-se.»

 E ao quarto dia o homem pensou
   
«O presidente da Liga dos Bombeiros acredita que o incêndio que lavra desde sábado em Pedrógão Grande, Leiria, teve origem criminosa.

“O incêndio já estava a decorrer há cerca de duas horas quando se desenvolveu o problema com raios, que provocaram um conjunto de ignições a acrescer, efetivamente, aquele incêndio que já era de uma violência extraordinária”, declarou Jaime Marta Soares no Fórum TSF, esta manhã.

“Eu tenho para mim, até que me provem o contrário – e não sou eu que tenho de provar, têm que me provar que eu é que não terei razão –, que o incêndio teve origem criminosa”, acrescentou.» [Expresso]
   
Parecer:

Como é possível que só agora o presidente da Liga dos Bombeiros tenha sabido a hora a que começou o incêndio, depois de todas as intervenções que já fez.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Pergunte-se ao presidente da Liga qual é o seu papel nas operações.»

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