segunda-feira, julho 22, 2013

Pedimos desculpa por esta interrupção

Cavaco Silva fez duas comunicações oficiais ao país (em matéria de comunicações oficiais este homem tem uma certa fixação no mês de Julho), lançou insinuações de que alguns conspiradores (seria o Fernando Lima?) tudo faziam para impedir a salvação do país, pôs os partidos a reunir-se sob a vigilância de um olheiro como se fossem meninos de uma escola do ensino básico, no fim fez de conta que nada sucedeu e retomou a sua posição anterior.
 
Esta semana esteve para a vida política portuguesa como os velhos anúncios da RTP que diziam “pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos”. Aquilo a que o país assistiu foi a uma manifestação de incompetência, despesismo e má formação de um Presidente da República. Incompetência porque num momento de crise o presidente decide levar o país para um beco. Despesismo porque só alguém como o marido da dona Maria se lembraria de mobilizar os recursos que teve de mobilizar só para estrear um polo azul cueca nas Ilhas Selvagens. Má formação porque só alguém com uma educação duvidosa se põe a lançar insinuações sem ter a frontalidade de dizer a quem se está referindo.
 
O país percebeu que para Cavaco Silva a salvação nacional (um conceito muito querido dos que têm dificuldades em conviver com a democracia) era manter o mesmo governo, manter as mesmas políticas, manter o mesmo desprezo pela oposição e pelos parceiros sociais, mas assegurar que tudo isso contava com o voto militante do PS no parlamento. Isto significa que Cavaco queria salvar o país do seu próprio povo porque o que se pretendia era precisamente usar o apoio do PS para se dizer que a política de extrema-direita do seu governo contava com o apoio alargado do parlamento, por conseguinte, do povo português.
  
Cavaco Silva assume-se cada vez mais como o pai deste governo e desta política e perante o risco de falhanço usou os seus poderes para pressionar o PS. A pouca vergonha chegou ao extremo de um presidente chamar a si um poder que não tem, o de alterar a duração da legislatura para negociar soluções políticas. Como se isso não bastasse parece que decidiu antecipadamente que a legislatura chegaria ao fim como se tal fosse um castigo ao PS por este partido não lhe ter feito o frete.
 
Aquilo a que o país assistiu esta semana foi o momento mais vergonhoso na história da democracia portuguesa, o país esteve suspenso de uma espécie de reunião do COPCON com o Cavaco a fazer de Otelo e o David Justino de furriel da PM. Que irá negociar Cavaco Silva da próxima vez? Vai prometer a suspensão da Constituição se Passos não promover Portas? Vai negociar um lugar de vice-presidente para o Seguro a troco do fim do SN e do ensino gratuito?
 

Preocupado com a desgraça do seu governo, com a sua queda brutal nas sondagens, Cavaco não hesitou em negociar a democracia para tentar uma solução à margem do regular funcionamento das instituições. Até onde irá este Cavaco Silva? Começa a fazer sentido a tese da sua amiga e confidente Manuela Ferreira Leite, o país corre um sério risco de um dia acordar com um novo aviso: “pedimos desculpa por esta interrupção, a democracia segue dentro de momentos”.
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