terça-feira, março 14, 2017

Umas no cravo e outras na ferradura




 Jumento do Dia

   
Assunção Cristas

Há poucas semanas atrás a líder do CDS e candidata à autarquia de Lisboa pediu para ser recebida pelo presidente da autarquia, para se inteirar dos problemas da cidade, lá foi mais a comunicação social, aproveitou o momento de exposição mediática que a encenação proporcionou, a cidade ficou a saber que tinha uma candidata que se preocupava com os problemas da cidade.

Esta imagem de alguém que se preocupa com os mais pequenos problemas até lhe ficava bem, a candidata do CDS sabe passar essa imagem e parece ter uma boa imprensa. O problema de se pensar que se tem boa imprensa é começar a falar-se demais, dizem-se muitas coisas, tiram-se muitas fotografias exibindo o "pernão" ou o decote, e tudo corre bem.

Só que a imagem da Cristas qe se preocupa com todos os problemas da cidade não bate certo com a da ex-ministra que diz agora que o problema do BES não foi discutido seriamente nas reuniões do Conselho de Ministros, a pobre senhora até teve de faltar a algumas reuniões e na hora de aprovar a lei que viabilizou a resolução do BES assinou o decreto por email como se estivesse assinando de cruz a pedido da Maria Luís.

Isto é, a senhora que anda muito preocupada com a queda de uma parte de um muro na cidade de Lisoa, que será reparado com um ou dois milhões de euros, nem se preocupou muito com a queda do BES e do GES, que custaram ao país muitos milhares de milhões de euros. Incompetência, irresponsabilidade ou cobardia, como a senhora é dada ao catolicismo é caso para dizer que só Deus sabe.

«A líder do CDS-PP, Assunção Cristas, garante que no Conselho de Ministros nunca se discutiu “com profundidade” os possíveis problemas no Banco Espírito Santo (BES). Do que Cristas se recorda, apenas houve uma referência por Passos Coelho à questão dos 12 mil milhões de euros da troika que António José Seguro queria usar no Estado, mas que o antigo primeiro-ministro não quis usar porque não se sabia se poderia haver problemas no BES, o único grande banco que não tinha pedido recapitalização no âmbito desses 12 mil milhões da troika.

Não posso garantir tudo porque, de vez em quando, havia um ou outro Conselho de Ministros em que eu não estava, por razões de representação do ministério. Mas discussão em profundidade do problema do BES, das soluções, das alternativas, das hipóteses, isso nunca aconteceu”
O esclarecimento, semelhante ao que Cristas já tinha dito no passado, surge numa entrevista ao Público, por ocasião do primeiro aniversário à frente do CDS-PP. Assunção Cristas revela, contudo, que na altura da resolução do BES “estava no início de férias e recebi um telefonema da ministra das Finanças a dizer: “Assunção, por favor vai ao teu email e dá o OK, porque isto é muito urgente, o Banco de Portugal tomou esta decisão e temos de aprovar um decreto-lei.”

“Como pode imaginar, de férias e à distância e sem conhecer os dossiês, a única coisa que podemos fazer é confiar e dizer: Sim senhora, somos solidários, isso é para fazer, damos o OK. Mas não houve discussão nem pensámos em alternativas possíveis — isto é o melhor ou não —, houve confiança no Banco de Portugal, que tomou uma determinada decisão.» [Observador]

 Memofante Forte, para os que só têm vagas ideias!





      
 A ocidental praia venezuelana
   
«Fiquei irritado, confesso, quando a meio da audição parlamentar sobre transferências para paraísos fiscais ouvi o ex-secretário de estado Paulo Núncio indignar-se e perguntar:

“Mas nós queremos ser a Venezuela, ou queremos ser um país ocidental?!”

Deu-se aquele exabrupto quando um deputado de esquerda (se não erro, Miguel Tiago, do PCP) lhe perguntava porque não foram controladas essas transferências de 10 mil milhões de euros. Na sua resposta, Paulo Núncio optou pela “reductio ad Venezuelam”: qualquer país que controle transferências para paraísos fiscais torna-se imediatamente como a Venezuela, que controla todo o tipo de transferências de capitais. Sendo a Venezuela um país riquíssimo onde se vive cada vez mais pobremente, num clima autoritário a soçobrar na ditadura, a conclusão de Núncio é clara: se queremos controlar as transferências para off-shores, é porque queremos ser miseráveis e oprimidos.

Ora, isto irritou-me. Em primeiro lugar porque, se a geografia não me falha, a Venezuela é um país ocidental. Até mais ocidental do que Portugal. Em segundo lugar, porque — se Paulo Núncio usava outra acepção, política e não geográfica, de “ocidental” — são precisamente os países ocidentais os que acham que se devem controlar as transferências para paraísos fiscais. É a UE que assim o determina nas suas diretivas contra a lavagem de dinheiro, que Núncio teve “dúvidas” em cumprir mas não teve dúvidas em incumprir. É a OCDE que o recomenda e verifica através de avaliações mútuas que, em Portugal, deixaram de se fazer quando Núncio era secretário de estado. Ele deveria saber que a política oficial dos países politicamente ocidentais é controlar as transferências, investigá-las, e publicar as estatísticas. Foi essa dupla ignorância geográfica e política que me irritou.

Só que, pelos vistos, era eu que estava enganado. Segundo notícias dos últimos dias, antes de ser secretário de estado Paulo Núncio foi advogado especialista em fiscalidade da empresa estatal Petróleo de Venezuela S.A. — a qual, já no tempo de Núncio no governo, terá feito através do BES a maioria das transferências incontroladas para o Panamá. Assim caem todas as peças geográficas e políticas no seu lugar. O que Paulo Núncio quis dizer na comissão parlamentar foi que desejava que Portugal fosse um país ocidental, tão ocidental, mas tão ocidental, como a Venezuela.

Eis senão quando me deparo com outro exemplo de reduccionismo, desta feita por Assunção Cristas, líder do partido de Paulo Núncio, segundo a qual falar das atividades profissionais passadas de Paulo Núncio significa, no limite, “acharmos que ninguém pode ter uma vida profissional antes de cargos governativos” e resultará num “problema muito grande porque só podem ser governantes professores, académicos, professores de liceu e gente que não tem uma vida privada”. Ora, já não me queixo de ter escapado a Cristas que nós só falamos do que fez Núncio antes de ser governante porque o cliente de Núncio-advogado escapou com milhares de milhões de euros sem controle quando ele já era Núncio-secretário de estado. Se as estatísticas tivessem sido publicadas, estaríamos todos mais protegidos, a começar por qualquer dos dois Núncios.

Não. O que me custa com Assunção Cristas é ela não ter encontrado outra forma de desviar o assunto. Algo assim: como toda a gente sabe, Núncio é o nome que se dá aos embaixadores da Santa Sé. Ora, aqui o papel de Núncio foi fechar os olhos para que, através de um banco que tem o nome do Espírito Santo, se pudesse levar dinheiro para o paraíso. Trata-se, portanto, de uma obra divina — a qual Núncio não quis que fosse pública por pura modéstia. Penso, cara Assunção Cristas, que esta seria uma resposta mais credível do que aquela que nos deu.» [Público]
   
Autor:

Rui Tavares.
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