quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Não quero ir para o céu

Hás o que imaginam o céu cheio de virgem em prados verdejantes e se suicidem de forma gloriosa para terem direito ao seu quinhão de sexo eterno. Do outro lado estão os que crendo num mesmo deus estão disponíveis para uma longa martirizarão em vida para chegarem ao mesmo céu cheio das mesmas virgens mas assexuadas. 

No meio estão os que como eu não quero me imponham convicções religiosas alheiras. Dispenso as bombas de uns, da mesma forma que dispenso a caridade e o amor dos outros quando estiver em sofrimento prolongado, nem as bombas de uns, nem as rezas dos outros devem interferir nas minhas decisões.

Alguém sabe o que é estar com alguma lucidez dentro de um corpo que não funciona? Sentir a vida à volta, ouvir as conversas entre pessoal clínico, ouvir o choro de familiares que se despedem de um familiar ou assistem à morte de um doente na cama ao lado? Saber que se está vivo, conseguir raciocinar com alguma lucidez, ouvir filhos e amigos falarem-lhe, mas ser incapaz de comunicar, de dizer que se quer?

Já passei por aquilo a que se designa por experiência de quase morte, só que ao contrário do que sucede com a esmagadora maioria doentes nessa situação estava num estado de quase lucidez, pensava, imaginava, sonhava, ouvia, percebia, ainda que não tivesse consciência de tudo e passasse da lucidez ao pesadelo e vice-versa. Quando se entra para uma UCI numa situação de grande gravidade a probabilidade de voltar não é grande, eu escapei se sou um dos poucos que trouxe para contar.

Garanto-vos que não senti falta da bondade de almas caridosas ávidas de fazerem boas acções, como não sentia nada não tinha dores, mas isso não me fazia sentir feliz e confortável. Hoje que sobrevivi não gostaria de entrar novamente no corredor da morte ou de ficar prisioneiro do corpo. Gostaria apenas de ter direito a uma decisão pessoal sobre o meu destino, sem que esta estivesse condicionada às convicções religiosas de deputados, presidentes, padres ou bispos.

Serei um dia obrigado a sofrer em nome das convicções religiosas dos deputados ou dos eleitores mais militantes que votem num referendo? Acho bem que os deputados mais conservadores, as beatas mais assíduas, as boas pessoas, os podres ou os bispos queira ir para o céu. Quanto a mim quero partir mesmo sem direito a céu, independentemente das virgens que por lá estejam à minha espera. Neste capítulo não sou a favor da opinião de uns ou a favor das convicções de outros, sou a favor do meu direito íntimo a partir com dignidade e de acordo com o meu conceito de dignidade. 

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