quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Check-ups, vacinas e rastreios justicialistas

Os check-ups e os rastreios são importantes meios da chamada medicina preventiva. No caso dos check-ups tanto podem ser de rotina como motivados por um qualquer sintoma cuja causa não é evidente. Já os rastreios podem ser periódicos, como sucedia na nossa infância com os famosos selos do rastreio á tuberculose, ou motivados pela necessidade de combater de forma eficaz uma doença que se está propagando. Quando uma determinada doença pode ser evitada com uma vacina poupa-se no rastreio e opta-se por vacinar a população mais vulnerável a essa doença.

Quando a justiça manda colocar em prisão preventiva um alto dirigente do Estado porque ouviu uma qualquer personalidade ou personagem da política e/ou da comunicação social, acusando-o de corrupção activa sem que quem lhe telefonou seja acusado de corrupção activa, estamos perante uma vacina justicialista. Agora todos sabemos que é perigoso atender telefonemas por duas razões, porque como sugere a ministra da Justiça todos os telefones estão ou podem estar sob escuta e porque podemos ser acusados bastando para tal que o outro nos diga uma alarvidade. Enfim, estamos vacinados, nada de assumir cargos públicos trabalhosos e mal pagos, nada de receber telefonemas e se quisermos falar temos de meter uma cunha a um amigo das secretas para que venha à nossa casa verificar se há aparelhos de escuta, não vá algum guerrilheiro justicialista estar tranquilamente no seu gabinete ouvindo todos os nossos ais e uis e até os dos vizinhos se não berrarem baixo.
Podemos falar de um rastreio justicialistas quando aqueles que se sentem justiceiros por obrigação profissional decidem fazer uma limpeza da sociedade, a ideia é lixar todos os honestos dando garantias que no fim se escaparam os honestos. A tese foi muito bem explicada por uma conhecida procuradora num programa de televisão quando justificou algumas investigações em curso. Com um rastreio temos a certeza de que só os tuberculosos, os leprosos ou os portadores de doenças socialmente perigosas serão internados, escapam-se os saudáveis como a tal procuradora. A questão agora é saber quem vai ao rastreio e como é que o rastreio é feito. 
  
Podemos ficar descansados por o rastreio não incomoda ninguém e ao contrário do que sucedia com as caças às bruxa dos tempos da Santa Inquisição é indolor, já nem é preciso andar uns dias com o selo da tuberculina colado ao braço. Se queremos rastrear uma determinada população, por exemplo, um potencial doente e o seu círculo de amigos, escolhe-se um pro um qualquer método, que pode ser selecionado como veremos adiante, e começa-se a investigação dos seus sintomas. Coloca-se o primeiro rastreado sob escuta e à medida que ele vai falando com amigos, familiares e conhecidos vai sendo alargado o rastreio até que todo o circulo de amigos, familiares e políticos próximos estejam sob investigação. Com o rastreio é uma limpeza colectiva, é a forma mais eficaz para atacar uma epidemia.
  
Mas se estiver em causa apenas uma determinada personalidade o melhor é fazer-lhe um check-up, por causa de um pequeno inchaço no braço vai-se investigando tudo desde a ponta dos cabelos às unhas dos pés e uma ida ao médico que começou por um pequeno inchaço acaba num internamento forçado. Imagine-se que alguém ia ao médico e queixava-se de a mãe lhe ter feito um depósito no banco no montante de 750 euros. O médico ficaria preocupado, isso era um sintoma óbvio de corrupção, branqueamento de capitais e fuga ao fisco agravada, coisa que poderia provocar um internamento de muitos anos e que justifica os mais poderosos meios de diagnóstico e de investigação clínica. O doente ficaria logo internado para mais exames, desde as moedas do mealheiro aos cigarros que pudesse ter cravado aos amigos. E como se trata de uma doença perigosamente contagiosa todos os que estiveram em contacto com o suspeito vai para internamento, aqueles que se portarem bem e fizerem tudo o que o médico manda poderão ter a sorte de ficarem acamados em casa.
  
Esta técnica do check up, em que um alguém que é saudável num dia no outro está à beira da morte e todos fogem dele porque o médico mandou publicar nos jornais que há suspeitas de peste, de lepra, de tuberculose e até, talvez, de bexigas loucas é de uma grande eficácia. Nem é necessário que o doente se queixe da sua iniciativa. Basta o médico escrever ao próprio médico uma carta anónima  ou algum banco comunicar o depósito de um montante que possa ser entendido como uma gorjeta de uma bica para que o check-up seja iniciado sem que o doente o saiba.
  
Com este justicialismo preventivo o país vai ser saneado, é como se a Procuradoria-Geral fosse uma espécie de ministério da Saúde e os delegados do Ministério Público fossem delegados de saúde. O bem-estar da sociedade está acima de quaisquer valores e em vez de se esperar que alguém seja identificado como doente todos aqueles que os “delegados de saúde” entendem ser potencialmente perigosos para a sociedade passam a ser alvo de especial atenção e sujeitos a rastreios ou a check-ups, mesmo quando não apresentem quaisquer sintomas de doença, basta a mera suspeita de um qualquer delegado de justiça encarregue de limpar a sociedade, poupando os mais honestos.
  
Aliás, nem é necessário que seja o delgado de saúde a intervir, até mesmo um qualquer líder de uma associação sindical da classe pode solicitar todos os meios de diagnóstico, designadamente as despesas feitas com os cartões visa dos ministros potencialmente leprosos e proceder a uma análise detalhada dessa informação para verificar se há razões para decidir um internamento.

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