terça-feira, fevereiro 03, 2015

Macedónia de incompetência, propaganda e canalhices

Houve um tempo em que a ida dos médicos para o Brasil ou para os países árabes, a partida dos enfermeiros para os países da União Europeia era visto com agrado pelo poder, partiam em busca daquilo a que cinicamente este governo designou por “zonas de conforto”. Recordo-me de ouvir o zipadinho Rangel sugerir a criação de uma agência pública para facilitação da emigração de quadros, não me recordo de ouvir o Dr. Macedo ou o seu secretário de Estado Adjunto manifestarem a mais pequena preocupação por esta sangria de pessoal médico.
  
Não se preocupara nem com esta sangria nem com o abandono do SNS por muitos médicos que se fartaram das canalhices deste governo e optaram por um sector privado em crescimento. Ao definhamento do SNS correspondeu o florescimento do sector privado graças à fuga de médicos e da classe média que ajeitou as contas do sector. Se dantes eram os doentes do sector privado que iam para o SNS quando as coisas se complicavam, agora são os doentes do SNS que fogem para os hospitais privados para não morrerem nas urgências do SNS.
  
A primeira reacção de Paulo macedo á crise foi dizer que a culpa era das empresas de colocação de médicos, o país ficou a saber que os médicos do SNS têm menos estabilidade no emprego do que a empregada doméstica do ministro, mas deixemos o tema para outra ocasião. De seguida o país abriu os telejornais com mais um grande feito do Dr. Macedo, o Amadora-Sintra tinha acabado de lançar um concurso para macas, os portugueses podiam ficar descansados, graças ao grande gestor da saúde já podiam morrer sem tratamento mas ao menos tinham o conforto de uma maca, morreriam confortavelmente deitados.
  
Paulo macedo continuou escondido dos olhos do público e quando achou que a coisa estava a passar mandou o seu secretário de Estado Adjunto dizer umas alarvidades na TVI24, a culpa de todos os males era da falta de médicos e a falta destes era da Ordem. Dois ou três dias depois o corajoso Macedo escolheu uma manhã se sábado para visitar um centro de saúde cujos utentes nem sabiam na sua maioria que estava aberto.
  
Depois a culpa deixou de ser da falta de médicos, a culpa era de um perigoso vírus da gripe, uma variante para a qual a vacina era menos eficaz e que matou mais gente em Portugal do que o ébola matou na Serra Leoa. De repente o país estava mergulhado numa crise porque foi surpreendido por um descendente da famosa pneumónica dos tempos da Grande Guerra. E eis que hoje somos surpreendidos por mais uma grandiosa medida do não menos grandioso Macedo, depois de há poucos dias ter anunciado a colocação de mais de 800 médicos, o Opus Macedo, uma verdadeira Obra de Deus, vai colocar mais quase 2.000 médicos. A fome deu em fartura, o país que não tinha médicos e ia contratá-los à América Latina e que ainda perdeu umas centenas para a emigração, já consegue em poucos dias mobilizar mais de 2.500 médicos, cerca de 800 internos e mais 1.800 especialistas.
  
Não há fome que não dê em fartura e agora resta-nos que esperar que da mesma forma que a fome de médicos deu lugar a um jackpot de clínicos, a fome que muitos portugueses sofrem dê igualmente em fartura de comida e de medicamentos. A esquerda anda tão distraída com o BES e com a Grécia que nem repara no que está acontecendo, nem uma única voz se lembrou de questionar se o facto de muitos idosos doentes crónicos terem deixado de tomar os medicamentos por falta de meios, ou outras medidas que obrigam os doentes com gripe a trabalharem, propagando a doença, tinha alguma relação com a crise no sector da saúde.
  
Para a esquerda a fome e a misérias parece não ser mais do que estatísticas cuja divulgação é uma oportunidade para os seus dirigentes aparecerem nas aberturas dos telejornais. António Costa aproveitou a divulgação de dados da pobreza do INE para fazer surf televisivo, mas sobre as consequências dessa miséria não disse uma palavra. A esquerda ignora que não são os ricos que estão a morrer nas urgências, esses dantes metiam uma cunha para terem, tratamento vip no SNS, mas agora e para alegria da direita está a procurar os hospitais privados. 
  
Quem morre nas urgências, quem apanha gripe ao primeiro espirro do vizinho, quem morre ainda antes de ser atendido por patologias que nem justificaram uma chamada para o 112 são os pobres, são os que têm doenças crónicas mas deixaram de comprar medicamentos porque não têm dinheiro e perderam a comparticipação, são os velhotes com pensões miseráveis que deixaram de conseguir pagar a electricidade para o aquecimento, são os muitos pobres que por estarem mal alimentados estão mais vulneráveis a gripes, pneumonias ou ao agravamento dos problemas de saúde que já tinham e que por falta de recursos não tratam. 
  
A miséria é bem pior do que discurso de certas personalidades, é muito mais do que estatísticas de ocasião e não muda de 2013 para 2014 como sugeriu um primeiro-ministro pouco escrupuloso. A pobreza é gente que perdeu o emprego, a casa e família, que come batatas ao almoço e batatas ao jantar, que não pode ligar o aquecedor, que não toma os medicamentos. É uma pena que haja políticos portugueses que descobrem na austeridade uma causa do extremismo islâmico e não sejam capazes de estabelecer o que se passa no SNS coma canalhice económica que fizeram aos portugueses e ao contrário do que Paulo Macedo fez passar, que ele passava entre os pingos da chuva ácida da austeridade, ele foi um dos grandes artífices dessa austeridade, foi quem mais cortes conseguiu e a quem coube o trabalho de transformar o SNS num sistema para pobres.
  
Aquilo em que o Macedo transformou o SNS foi uma macedónia de incompetência, propaganda e canalhice!

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