terça-feira, fevereiro 10, 2015

Há um Estado Islâmico dentro de nós

Quando vejo Paulo Portas a discursar sobre o sucesso na exportação dos chouriços e pepinos que os portugueses deixaram de comer, obrigando as empresas a exportá-los, espetando o dedo para “aqueles” que não acreditavam no sucesso da sua coordenação económica conseguida com muito sacrifício, ao ponto de ter abdicado da sua virginal irrevogabilidade, lembro de um tal Al-Bagdadi, líder do Estado Islâmico.

Al-Bagdadi partilha com Paulo Portas alguns tiques, a começar por essa mania de discursar de dedo apontado para “aqueles”, para os “outros”, para os infiéis, para os que não acreditam na sua verdade óbvia. Aliás, Paulo Portas não é o único português com tiques de imagem semelhantes ao extremista iraquiano. Há por aí um juiz que tal como Al-Bagdadi raramente se deixa fotografar, mas quando o faz é com poses estudadas, em pé, de peito inchado, de olhar aparentemente sereno, a lembrar a famosa imagem de Napoleão a coçar o umbigo.

E por falar de Estado Islâmico e de juízes vale a pena comparar os julgamentos na praça pública com a praxis da justiça portuguesa, a diferença está na pena e no facto de em Portugal se fazerem dois julgamentos, um na praça pública e outro na sala de audiências. O ódio, a irracionalidade, a certeza na culpa, o desprezo pelos mais elementares direitos do arguido, a ridicularização do réu previamente condenado, tudo aquilo a que assistimos hoje no Califado Islâmico podemos assistir num qualquer jornal de Lisboa. Não há grande diferença entre alguns dos nossos jornalistas e os barbudos que em Mossul berram os crimes supostamente cometidos pela vítima.

A natureza dos homens não difere muito de país para país, de religião para religião, de povo para povo, de contexto histórico. Os métodos podem ser diferentes, a violência pode variar, a brutalidade pode ser amaciada, é por isso que aquilo a que assistimos nas praças de Raqqa ou de Mosul já vimos em Badajoz ou em Saraievo. Dentro de muito boa gente há um dedo espetado para “aqueles”, para “os outros” para os detestamos por serem diferentes ou por discordarem de nós.

Na religião “aqueles” a que apontamos o dedo são os infiéis, os mouros, os apóstatas, os ateus, na política são os adversários promovidos a inimigos, os que atingem os interesses e conforto do nosso grupo corporativo, os que votam nos “outros”. Por cá não há violência física, em matéria de violência fica-nos pela violência psicológica praticada através dos jornais. Também não há execuções sumárias dos adversários, há saneamentos, carreiras profissionais destruídas, regiões ignoradas.
  
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