segunda-feira, abril 28, 2014

O presidente já não o é

De um ponto de vista forma Portugal tem um presidente, o inquilino de Belém foi eleito segundo as regras e tem direito a permanecer no cargo durante cinco anos. Mas Cavaco não é mais do que isso um presidente no sentido formal do termo, como sucedeu com outros presidentes que no passado exerceram o cargo confundindo-o com uma instituição de apoio ao  governo. Como a única forma de demitir um presidente em Portugal passa pelos desígnios da natureza, é bem provável que mesmo com tremeliques Cavaco Silva se aguente no cargo até ao fim do seu mandato.
  
Mas nunca será o presidente de todos os portugueses, não o será por sua própria iniciativa mas também porque a sua dimensão política e humana o impede. A presidência cavaquista durou enquanto Cavaco não destruiu o património de prestígio que lhe foi deixado por Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio, três presidentes que souberam sê-lo, que acrescentaram prestígio institucional à Presidência da República.
  
Mas Cavaco é um homem incapaz de superar os seus próprios limites, não resistiu à tentação de dar cobertura a um golpe sujo contra um governo legítimo ao permitir que a presidência fosse a sede e fonte de falsas acusações, foi incapaz de manter coerência no seu discurso e nas relações com os diversos governos. Com o anterior governo o hall de entrada do palácio era um verdadeiro estúdio de televisão de um canal de oposição ao governo, a presidência convidava sucessivas personagens que iam beber o chá com o presidente, ganhando forças para de seguida darem uma conferência de imprensa de ataque ao governo.
  
Cavaco conseguiu o que pretendia, um parlamento, um governo e um presidente, até teve a sorte de levar uma cereja em cima do bolo com Durão Barroso em Bruxelas, só lhe faltou livrar-se de Pedro Santana Lopes e conquistas as autarquias de Lisboa e o governo regional dos Açores mas, enfim, não se pode ter tudo. Mas nem tudo lhe correu bem, o primeiro-ministro não era bem aquele que desejava e em vez de termos um presidente a mandar no governo, assistimos ao funeral do cavaquismo com um anti-cavaquista a mandar na presidência.
  
Se Cavaco dificilmente conseguiria ser um presidente de todos os portugueses ou exercer o cargo com a classe dos seus antecessores, com este primeiro-ministro Cavaco foi transformado numa espécie de subsecretário de Estado, já nem sequer aparecem as tradicionais imagens das idas dos primeiros-ministros a Belém não se vá a ficar com a impressão de que é a presidência que manda. Seria ofensivo dizer que Cavaco é um banana por alusão aos seus antecessores do anterior regime, há coisas que mesmo em democracia não se podem dizer, mas o seu segundo mandato tem sido muitas vezes uma casca de banana atirada por Passos Coelho na esperança de Seguro escorregar.
  
A oposição a Seguro tem sido feita à esquerda por Jerónimo de Sousa e à direita por Cavaco Silva, desde que o governo tomou posse sempre que está em dificuldades ou quando se aproximam eleições Cavaco desenterra o machado do consenso e atira-o à cabeça de António José Seguro. Até já chegou ao ponto de negociar a duração da legislatura como se a democracia fosse um quilo de açúcar.
  
Cavaco é um presidente que arrasta o seu mandato com discursos monótonos e vazios de conteúdo político e de valor intelectual, que a oposição parlamentar respeita por uma questão meramente formal e que uma boa parte dos portugueses desejam ver pelas costas. A presidência cavaquista acabou vítima da inadequação do seu titular mas como não podemos negociar a duração do mandato presidencial teremos de esperar que parta.
 
 
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