quarta-feira, novembro 12, 2014

Violência ou diálogo social?

No tempo em que Passos Coelho cumprimentava a troika com vénias e defendia que se deveria ir além da troika acusava os portugueses de terem vivido acima das suas necessidades, as medidas de política económicas eram apresentadas como uma penalização merecida e ao fazer incidir essas medidas sobre a classe média, os mais pobres e, em especial, sobe os pensionistas e os funcionários públicos Passos Coelho dizia quem tinha consumido acima das suas possibilidades.

Com esta fundamentação da política económica a prioridade deixou de ser as gorduras do Estado pois estas boas despesas no sentido de que não se tratando de salários e pensões são receitas paras as empresas que gravitam à volta do OE. A prioridade era aumentar os impostos sobre o trabalho e cortar brutalmente os rendimentos dos funcionários e pensionistas. No caso dos funcionários usaram-se todos os meios para os penalizar, aumento do IRS, aumento de todas as contribuições, corte dos vencimentos e aumento do horário de trabalho sem qualquer contrapartida remuneratória.
  
Agora a ministra fez uma pequena correcção do discurso ideológico adaptando-o ao período eleitoral que foi desencadeado com o road show de Passos Coelho no PSD e do Cavaco pelo Alentejo. Segundo a ministra os únicos atingidos foram a classe média porque não havia mais ninguém a quem ir buscar o dinheiro. Como é óbvio a ministra não só revela ignorância não sabendo muito bem o que é a classe média como também mente, mas nem a ignorância, nem a mentira são atributos novos nesta senhora.
  
A direita é clara na forma como encontra soluções para a crise sacrifica-se os pobres e a classe média, promove-se uma transferência de riqueza do trabalho para o capital e espera-se que daí resulte investimento. Não há qualquer contrapartida para os sacrifícios a não ser poder-se ter emprego com baixos salários, os benefícios a médio e longo prazo serão lucros para as empresas que serão sujeitos a menos impostos e mais emprego com salários mais baixos e sujeitos a maiores impostos.
  
A esta solução a esquerda deve opor o diálogo social, um diálogo do qual resulte um contrato social que assegure que os benefícios dos sacrifícios devem ser tidos em consideração na repartição dos benefícios. Se este diálogo tiver como ponto de partido o comportamento da sociedade no passado, como sugere a direita, ter-se-á que avaliar se foram os trabalhadores ou as empresas a beneficiar dos grandes investimentos públicos, ou se foram os trabalhadores ou as empresas a desencadear a crise financeira, a ruína da banca nacional ou os prejuízos de empresas como a PT.
  
A direita defende o confronto, confia nas polícias e nas alianças militares, considera estes meios como uma garantia da estabilidade social e na ausência da ameaça comunista rasga os contratos do passado e quer impor uma nova ordem, mais próxima do modelo de sucesso dos primórdios do capitalismo. Um tempo em que as economias progrediam, as grandes riquezas cresciam e os povos viam miseravelmente sem quaisquer apoios sociais e sem direitos laborais.
  
A política económica de Gaspar, Passos e Maria Luís resulta de premissas ideológicas em que se despreza o social no pressuposto de que a força bruta e a violência são a melhor forma de assegurar os equilíbrios sociais. As alternativas a este modelo são a violência social que ele próprio sugere ou o contrato social entre interesses sociais contraditórios e a escolha não é competência da ministra das finanças mas sim das forças sociais, dos trabalhadores e das associações empresariais.
   
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