terça-feira, junho 30, 2015

E se 19 menos 1 for igual a 17?

A tese de que não somos como a Grécia não tem nada que ver com as eleições legislativas e muito menos com qualquer ódio de estimação de Passos Coelho em relação aos bloquistas gregos, até porque sem a preciosa colaboração dos bloquistas tugas nunca a direita teria chegado ao poder com a facilidade com que chegou. A direita Portuguesa já usou esta linguagem humilhante para com um país que supostamente é amigo e parceiro na NATO e na EU com quase todos os partidos gregos, talvez se o próximo for a extrema direita as coisas mudem, não fomos como os gregos quando estava o PASOK no poder, não fomos como os gregos quando o poder era a Nova Democracia e voltamos a não ser como os gregos com o Syriza.
   
Esta cultura saloia não é nova em nós, está na massa do sangue de uma direita bajuladora desde o tempo da tese do bom aluno e fica evidente na forma como o primeiro-ministro faz vénias ou como o senhor de Boliqueima inventa opiniões de estrangeiros sobre Portugal para fundamentar as suas teses. A lógica da graxa é a de um fraco que para superar outros não hesita em prescindir da sua dignidade e no caso da crise do euro a estratégia foi evidente desde o primeiro momento, dar graxa ao ministro alemão das finanças para sermos recompensados na hora em que formos úteis para ele lixar a Grécia.
  
Não é preciso ir às aulas da Maria Luís na Lusíada para se perceber que sem uma restruturação radical da sua dívida a Grécia caminhará para a bancarrota, quer estivesse dentro ou fora da zona euro, nenhum país consegue pagar aquela dívida e não há política económica que viabilize a Grécia num quadro de livre circulação de trabalhadores. Mercadorias e capitais.  Sem uma reestruturação da dívida Grega a Grécia não sobrevive nem na zona Euro, nem na EU, terá de recorrer ao controlo dos capitais e de salvaguardar a sua sobrevivência evitando o esgotamento das divisas e a fuga de quadros.
  
É óbvio que Wolfgang Schäuble sabe de tudo isto e por isso mesmo apoiou uma ajuda limitada à Grécia, um perdão mínimo da dívida e um balão de oxigénio para o tempo necessário à Espanha, Itália, Irlanda e Portugal para saírem das dificuldades. A direita portuguesa alinhou no jogo desde o tempo em que o Vítor Gaspar era o afilhado do ministro das Finanças alemão, Portugal comportou-se como o aluno fraquinho que consegue as boas notas à custa da graxa, a bajulação à Alemanha.
  
Ainda nos tempos de estudante em Lisboa tinha um cão Rafeito Alentejano e quando o levei para o Algarve era uma chatice porque de minuto em minuto passava um cão vadio que lá vinha fazer a prova de cheiros. Enxotei um, enxotei dois, enxotei três, ao quarto já não foi necessário, o Rafeiro encarregou-se da tarefa. Lembrei-me do meu Rafeiro Alentejano quando ouvida Cavaco Silva fazer as contas dos 18, o que o nosso homem da zona dos montanheiros disse foi o que o Wolfgang Schäuble gostaria de dizer há uns meses atrás mas não pode para que o seu país possa ser levado a sério. O problema é que neste momento Cavaco ficou a dizer as suas bojardas sozinho porque até o Wolfgang Schäuble já percebeu que se enganou.
   
É óbvio que a Alemanha optou por um balão de oxigénio com a validade de três anos para preparar a economia alemã para uma saída controlada da Grécia da zona Euro. Mas o senhor Wolfgang Schäuble revelou-se um imbecil e hoje é mais do que óbvio que a saída da Grécia do Euro terá consequências desastrosas. Ainda por cima o velhaco alemão tramou o PASOK ao impedir Papandreu de fazer o referendo que agora tiveram de engolir e voltou a tramar a direita grega aproveitando-se da sua eleição para implementar a sua receita sem resistência. 
  
O Wolfgang Schäuble deverá ser a primeira vítima da crise grega pois falhou na sua estratégia manhosa, não só a saída da Grécia será um desastre como com a extrema grega no poder a Alemanha não terá condições de promover saídas controladas. O governo grego ainda hoje fez saber que fará pagar caro pela sua pele, Tsipras não abandonará o governo mesmo que ganhe o não e a Grécia recorrerá a todas os meios jurídicos parar impedir o Wolfgang Schäuble de a expulsar do Euro. Isto significa que a bancarrota da Grécia arrastará a Europa e que Portugal dificilmente se escapará de uma crise financeira, agora sem as culpas de José Sócrates, a não ser que o casal maravilha da justiça portuguesa o liberte à pressa.
  
Portugal apostou todas as fichas no Wolfgang Schäuble e agora arrisca-se a concluir que tanta graxa e subserviência que ofendeu o país e o seu povo de nada serviu. Não admira que até ao fim da semana Passos vai reafirmar a sua defesa da manutenção da Grécia no Euro e Cavaco vai concluir que fez a prova dos nove e, afinal, 19-1 pode não ser 18 mas sim 17 pois com apesar de três anos a lamberem os ditos do Wolfgang Schäuble há uma grande probabilidade de Portugal ir atrás da Grécia. A bancarrota da Grécia pode conduzir ao reordenamento da zona euro em nome da sua salvação e da salvação da EU e neste cenário Portugal pode ser o sacrificado em nome da estabilidade.
  
PS: como português sinto muita vergonha de Portugal ter este presidente.

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