quinta-feira, setembro 04, 2014

O inimputável

Cavaco tardou a dizer o que quer que fosse a propósito da crise no grupo GES/BES, talvez incomodado por ver velhos e generosos amigos em dificuldades políticos. Fê-lo de forma tardia, socorrendo-se de declarações alheiras e o mais longe possível de Portugal, quando praticava a sua diplomacia turística na Coreia do Sul.
  
Desde então esteve em silêncio quase total, quase não falou nem sobre o BES nem sobre nada. Desde que se sentiu incomodado com a sua péssima imagem nas sondagens de opinião que Cavaco Silva adoptou a estratégia de alguns políticos mais dados a preocuparem-se como essas coisas, despareceu das câmaras de televisão e só aparece ou só fala quando é obrigado.
  
Agora que o advogado dos pequenos accionistas do BES disse que o ia acusar de responsabilidades penais Cavaco apareceu logo, dizendo na sua página na internet que nada do que disse era da sua autoria, ter-se-á limitado a reproduzir o que tinha dito o governador do BdP, isto é, estava inocente neste processo.
  
Cavaco está inocente neste processo como está em todos, ao longo dos seus mandatos este presidente nunca fez nada, nunca disse nada e quando é obrigado a tomar uma decisão sobre o que quer que seja recorre ao erário público para comprar pareceres que justifiquem as suas decisões, como sucedeu com a apreciação da constitucionalidade de algumas normas orçamentais.
  
Temos, portanto, um presidente inimputável, um presidente que parece não perder a oportunidade de perseguir judicialmente quem o incomode, mas que na hora de decidir fá-lo de forma manhosa, mais preocupado em não assumir responsabilidades do que com o que diz.
  
Não pode se acusado de algumas decisões porque imitou os seus antecessores, não suscitou a inconstitucionalidade de normas orçamentais porque os pareceres que encomendou apontavam para a sua constitucionalidade, não tem responsabilidades políticas pelas desgraças que acontecem porque em tempos escreveu um artigo em que alertava para os riscos, nada disse sobre o BES porque reproduziu o que outro disse. E mesmo quando é confrontado com o que disse, como sucedeu com o famoso artigo sobre a má moeda, resguarda-se dizendo que não se referiam a ninguém em concreto, mesmo eu alguém tenha sido vítima da sugestão.
  
Quando o país precisa de líderes e de gente com coragem temos em Belém um Cavaco em todo o seu esplendor, um político esperto, mais preocupado com si próprio e que nada diz, nada pensa e nada decide por sua iniciativa. Cavaco está inventando o conceito de político inimputável.

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