sábado, maio 30, 2015

Ideias que não alimento

Não alimento a ideia de que toda a gente que participa nessa economia paralela a que designam economia social sejam apenas boas almas que dão o seu melhor por amor ao próximo. A miudagem que faz a recolha de alimentos e os muitos voluntários são certamente boas almas, mas acima deles há muita gente que junta o passaporte para o céu que esperam obter a muitas outras vantagens pessoais.

Não alimento a ideia de que as carências se resolvem com caridade institucionalizada e com o desvio de recursos públicos das prestações sociais para a empresas encapotadas de IPSS que se alimentam dos negócios de milhões da economia caritativa que se expandiu com a crise e com o emprenho de um CDS que procura implantar-se e um Marco António que tem neste meio o seu exército de apoiantes.
  
Não alimento a ideia de que há uma economia social que cria riqueza, antes pelo contrário, os mecanismos de financiamento dessa falsa economia social é uma imensa teia de interesses e de compadrios que se desenvolvem contra as regras do mercado, destruindo empresas em favor de esquemas menos transparentes.
  
Não alimento a ideia de que se corrijam os problemas resultantes da crise com caridade, penalizando as vítimas das injustiças sociais com a perda de dignidade que significa pedir e consumir o que algumas almas caridosas entendem que devem consumir. É mais justo entregar uma prestação social do que obrigar alguém a ir a uma instituição receber um saco de alimentos ou a uma cantina comunitária onde come o que uma qualquer boa alma decidiu que devia comer.
  
Não alimento a ideia de que os pobres devem ser tutelados por senhora bondosas como a que dirige o Banco Alimentar, que opinam sobre o que os pobres podem ou não fazer, que se sentem no direito de censurar o comportamento de muito portugueses porque sendo pobres são obrigados a pedir e por essa via perder o direito à dignidade.
  
Não alimento a ideia de que a caridade feita sob a forma de sacos de comida ou de sopas dos pobres seja uma forma de reintegrar quem foi rejeitado por uma economia que os rejeitou. Para quebrar o círculo de pobreza é necessário assegurar que os cidadãos se sintam plenos e com dignidade, criar mecanismo de reinserção e ajudar as pessoas a encontrar soluções para o seus problemas e reencontrar a auto-estima e a vontade de lutar. Com sopas dos pobres e sacos de comida consegue-se o contrário, quebrar o orgulho, empurrar para o gueto, promover a desistência.

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