terça-feira, maio 05, 2015

Ilusões

Se alguém espera um Cavaco Silva independente e presidente de todos os portugueses em tempo de eleições que se desengane, Cavaco vai marcar a data das eleições que for mais conveniente para a direita, vai alinhar o seu discurso com o discurso eleitoral da direita e vai usar toda a influência de que ainda possa dispor para favorecer o seu governo. Cavaco vai querer deixar o seu parido no governo e vingar-se de uma esquerda que nunca o reconheceu com o político honesto e competente que ele se considera a si próprio.

Se alguém espera que a comunicação social acompanhe as eleições e os partidos respeitando os princípios da democracia que se desengane, não só quase toda a comunicação social está empenhada desde a  primeira hora neste governo como ainda se deu ao trabalho de criar um jornal online onde colocou os seus jiahdistas mais agressivos. Os ex-líderes do PSD são comentadores de televisão em part-time e a esquerda não só está em minoria como uma boa parte dos simpatizantes de esquerda que aparecem nas televisões foram contratados porque são muito úteis para atacar a própria esquerda.
  
Se alguém espera que o PCP defenda um governo de esquerda ou mais à esquerda do que este para defender o que resta do Estado Social ou das famosas conquistas de Abril que se desengane, o PCP já virou toda a sua artilharia contra o PS, evidenciando um facto histórico, o PCP sempre preferiu ter governos de direita e o seu ódio ideológico ao PS é bem mais forte do que o seu ódio ao capitalismo. Entre um governo que não seja este e mais dois ou três deputados no parlamento o PCP não hesita na escolha.
  
Se alguém espera que o BE tenha uma postura mais dialogante do que o PCP que se desengane, ainda que usando camisas de marca os responsáveis do BE nunca deixaram de ser os estalinistas, maoístas e trotskistas que sempre foram e a sua ambição foi e continuará a ser a eliminação do PCP e  a conquista do seu espaço político para depois terem a mesma estratégia. Todas as aproximações do BE a outras forças de esquerda, seja o PCP ou o PS, não passam de manobras de pura estratégia circunstancial. 

Se alguém espera que os grupos corporativos mais poderosos e firmemente aliados deste governo se abstenham de intervir durante o processo eleitoral que se desengane, quem quer defender os seus privilégios e teve neste governo um amigo tudo fará para usar os poderes mais obscuros para proteger este governo. Para os grupos corporativos mais aguerridos pouco importa se o governo é de esquerda ou se esta ou aquela empresa pública deve ser privada, o que os move é o seu interesse de grupo e desde que esses estejam protegidos tanto lhes faz que o primeiro-ministro seja o Pinochet ou que seja o Pol Pot.
  
Se alguém pensa que estas eleições eram favas contadas, que há que esteja acima de tudo e defenda a constituição e o regular funcionamento das instituições ou que princípios básicos como a separação de poderes é para respeitar ou ainda que a comunicação social é um dos pilares da democracia que se desengane, nestas eleições vai valer tudo. A direita, os seus patrões e os seus aliados de circunstância tudo farão para evitar a derrota e esse tudo quer dizer mesmo “tudo”.
  
Nestas eleições tudo vai valer para se manter o poder, para proteger interesses corporativos, para que políticos mesquinhos possam fazer as suas pequenas vinganças, para que políticos mal sucedidos não tenha de voltar aos seus empregos, para que os grupos corporativos mais empenhados defendam os seus interesses, para que os líderes de todas as facções do BE consigam um lugar de deputado, tudo isso está acima das pensões, dos vencimentos, do crescimento económico, do Estado social e de todas a bandeiras que vão ser usadas nestas eleições.
  
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